Na próxima quarta-feira (22), o palco do Teatro Guaíra recebe a montagem de Romeu e Julieta feita pelo Ballet de Santiago, em apresentação única. O espetáculo encerra uma miniturnê no país, que teve início no Rio de Janeiro e passou também por São Paulo. A montagem ainda marca a volta do Ballet de Santiago aos palcos curitibanos após dois anos de ausência — em 2016, a companhia se apresentou no mesmo Guairão com o espetáculo Zorba, o Grego.

A companhia chilena é a única do mundo que tem autorização para viajar internacionalmente com a peça, criada pelo coreógrafo sul-africano John Cranko (1927-1973) para o Ballet de Stuttgart, na Alemanha. Trata-se, na verdade, de uma releitura da famosa obra de Sergei Prokofiev, uma das mais importantes coreografias do repertório da dança clássica, que, por sua vez, é baseada na peça teatral original de William Shakespeare. “É uma coreografia que sempre está no repertório das grandes companhias”, conta a carioca Marcia Haydée, diretora do Ballet de Santiago, em entrevista por telefone para a Gazeta do Povo.

De acordo com ela, o Romeu e Julieta de John Cranko é um peça que serve como um bom ponto de entrada para quem não está habituado ao universo do balé. “Você pode ir ao teatro e nem precisa comprar o programa, porque vai entender tudo. Até uma criança entenderia o que o Cranko quis dizer”, garante Haydée. O espetáculo tem sido um sucesso, com sessões lotadas e um público entusiasmado. “Até agora, foi uma emoção muito linda de estar aqui. E o modo que público se relaciona comigo… Eu não sei, eu sinto o carinho e o amor que eles têm por mim.”

Os ingressos para a apresentação em Curitiba custam a partir de R$ 170, mas assinantes da Gazeta do Povo têm 30% de desconto na compra das entradas.

Romeu e Julieta

Marcia Haydée tem história com a montagem: o coreógrafo criou essa versão da peça em 1962 tendo ela em mente. Na época, Haydée era a primeira bailarina do Ballet de Stuttgart. “Para mim, é uma perfeição o modo como o Cranko interpretou tanto a música como a história de Shakespeare”, afirma a diretora. “Aliás, todos os balés criados por ele eram perfeitos, desde a coreografia, passando pelo figurino e por toda a produção”, diz. Na parceria em que construíram na companhia alemã, surgiram outras coreografias como “Onegin” e “A Megera Domada”, ambas também escritas para ela.

Haydée contou como começou a colaboração. “Fui fazer uma audição para o Cranko, que me queria como primeira bailarina. E o diretor do teatro dizia: ‘Mas, John, ela não é conhecida’. E o Cranko respondeu dizendo que ia embora caso não me contratassem”.

Três anos após a morte de John Cranko, em 1976, Marcia Haydée assumiu a direção do Ballet de Stuttgart, sem deixar seu posto de bailarina. Ela relembra com carinho do coreógrafo ao falar da peça em cartaz, a mesma que a revelou. “Lembro como ele pegava meus cabelos e ensinava o modo como Romeu deveria tocá-los, como deveria pegar minha mão e beijá-la. São momentos da criação, detalhes que ficarão guardados para sempre em minha memória”.

Hoje, Haydée carrega a fama de lenda do balé mundial, considerada por críticos a “Maria Callas da dança”, uma referência à maior cantora lírica de todos os tempos. Em sua trajetória ela formou parcerias com bailarinos famosos, como Richard Cragun (com quem manteve um relacionamento de 16 anos), Rudolf Nureyev, Jorge Donn, Mikhail Baryshnikov e Anthony Dowell. “Na minha carreira, eu sou uma grande intérprete dos balés que foram criados para mim. É mais do que só dançar”.

Do Rio a Sttutgart

A carreira de Márcia Haydée começou muito cedo. Ela conta que, aos três anos, em 1940, assistiu ao seu primeiro espetáculo de balé, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e se apaixonou. As aulas de balé não demoraram para começar. “Foi muito simples. Eu já nasci querendo dançar”, afirma. “E nunca mais parei. Eu sempre tive a certeza que iria me tornar uma grande bailarina”.

Depois de estudar com nomes importantes da dança, como Yuco Lindberg e Vaslav Veltchek, Haydée completou seus estudos na Royal Ballet School de Londres, na Inglaterra. Passou pelo Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e pelo Ballet do Marquês de Cuevas, em Paris, antes de ingressar no Ballet de Stuttgart em 1962. E não foi só John Cranko que criou coreografias para ela: estão nesse rol personalidades de peso, como Maurice Béjart, Glen Tetley, Jiri Kylian, William Forsythe e John Neumeier.

A grande virada na carreira da bailarina aconteceu em 1969, quando o Ballet de Stuttgart estreou no Metropolitan Opera, em Nova York, a montagem de Onegin, mais uma criação de Cranko, dessa vez baseada na obra de Alexander Pushkin. “Foi depois da estreia que fiquei conhecida no mundo inteiro, assim como o Ballet de Stuttgart. Tudo aconteceu em uma noite”, conta Haydée.

Além de bailarina e diretora de companhia, Haydée também fez carreira como coreógrafa. Mas ela não faz distinção entre as funções e recusa colocá-las em uma hierarquia. “Para mim, é exatamente tudo igual. Sempre foi tudo misturado. Nunca fui somente uma coisa só”, afirma.

Toda essa trajetória será tema de um documentário, idealizado pela irmã da bailarina, Monica Athayde Lopes, com roteiro de Julia de Abreu e direção de Daniela Kallmann. “Parece que já está pronto”, adianta Haydée. O filme ainda não tem data de estreia, mas seria visto pela primeira vez pela bailarina no mesmo dia da entrevista. Aos 81 anos, ela se diz completamente realizada. “Já fiz tudo o que tinha que fazer”, ressalta, deixando claro que não pensa em se parar. “Aposentadoria, só no dia que eu morrer. Aí estarei aposentada, lá em cima”.

E o balé brasileiro?

Marcia Haydée dirige o Balé de Santiago desde 2004. “Eu ia ficar por 4 anos, que viraram 8, depois 12, e agora já vamos para 15 anos”, conta. Mesmo vivendo no Chile, Haydée continua a acompanhar o andamento do balé brasileiro, em especial o Balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um dos mais tradicionais do país. E lamenta as dificuldades enfrentadas pela companhia com a atual crise econômica. “Eu acho uma pena muito grande, porque tendo duas diretoras como Ana Botafogo e Cecília Kerche, que são essas grandes bailarinas brasileiras, o governo deveria dar tudo o que elas necessitam para engrandecer a companhia. Mas me dá muita pena de ver que a maioria dos bailarinos está agora na Europa”, lamenta.

Haydée também defende que o Brasil já possui uma plateia formada para o balé, mas que existe um problema de falta de investimentos. “Os maiores públicos de balé na América do Sul são o brasileiro e o argentino. Então, não precisa formar público nenhum. Precisa formar companhias para esses públicos que querem ver balé. Precisa que os governos se interessem em dar o que é necessário para que as companhias possam sobreviver.”