Os últimos dois anos, do meio de 2015 para cá, foram fundamentais para a “volta” de Curitiba ao roteiro de grandes shows internacionais.

Tanto pelos shows que aconteceram como Alice Cooper e Maroon V, seja pelos que vão acontecer em breve como Green Day e Foo Fighters com Queens Of The Stone Age e até pelo que não aconteceu - a cena cultural da cidade se movimentou em torno dos shows.

Para uma capital que ficou longe dos acontecimentos culturais durante bom tempo a vinda de tanta gente boa é algo para se comemorar.

A vibe também serve para relembrar algumas apresentações extraordinárias que passaram por Curitiba. O Guia da Gazeta do Povo + Clube garimpou quatro histórias de shows de pesos-pesados que passaram por Curitiba (e que muita gente nem lembra!)

Dizzy Gillespie encheu as bochechas em Curitiba, mas o Guairão não lotou

Anúncio publicado na Gazeta do Povo em 1986. (Reprodução)

 

Um dos músicos de jazz mais amados e respeitados do mundo, o criador do bebop Dizzy Gillespie (1917-1993) esteve em Curitiba não uma, mas duas vezes. A primeira em 1979, em uma atribulada turnê de sua banda em companhia da banda de Hermeto Paschoal pelo Brasil e Argentina. A turnê desde o começo deu chabu, pois o empresário americano que a promoveu deixou Dizzy desamparado já na Argentina.

Ao chegar ao Brasil, a viagem foi para as páginas polícias. Em Porto Alegre, um dos músicos, o percussionista brasileiro Laudir de Oliveira, foi acusado de engolir uma valiosa peça em uma joalheria. Preso, ficou detido por várias horas, obrigado a tomar laxantes para "devolver" a joia. O fato foi notícia nacional e Hermeto e sua banda deixaram o projeto. Como o próximo show seria em Curitiba, os produtores locais ficaram "apreensivos" segundo anotou o jornalista Aramis Millarch em sua coluna Tabloide, publicada no jornal O Estado do Paraná em dezembro de 1979.  

Porém, para a alegria geral, Dizzy desembarcou na tarde do dia 10 [de dezembro] no aeroporto Afonso Pena e na mesma noite fez um show do balacobaco no Teatro Guaíra. Foi o último daquela turnê. O show que aconteceria em São Paulo, dois dias, depois foi cancelado.

Em 1986, Gillespie faz nova temporada no Brasil, desta vez comandada pelo empresário Manoel Poladiam. O segundo show em Curitiba foi na noite de 22 de maio, uma quinta-feira. Os ingressos custavam 300 cruzados (cerca de R$ 200 segundo correção do IPCA).

Mais uma vez em sua coluna Tabloide, Aramis Millarch destacou a qualidade da banda de Dizzy em contraposição a iluminação e produção amadora e pouca presença de público.“Aos 69 anos, "Dizzy" desta vez ele esbanjava bom humor. Ensaiou passos de dança no palco, fez piadas em inglês, falou algumas frases em português e, sobretudo, buscou dar grande espaço aos seus músicos”.

“O resultado é emocionante e além de seu virtuosismo instrumental, Gillespie mostra também estar com uma voz perfeita, identificando certos temas - e chegou a grande profundidade, especialmente nos blues, dos quais é um vocalista incrível. Sabidamente, Gillespie não se esgota demais - escalando suas intervenções para chegar ao final em ótima forma, em plenas condições de oferecer o número extra - que o público exigia, aplaudindo em pé”.

Alguns dias depois, Aramis voltou a falar do show e fez uma constatação grave: “o público curitibano está colhendo o que plantou: pouco a pouco, mesmo os mais corajosos empresários vão eliminando o Teatro Guaíra (e outras casas de espetáculos) das agendas de seus contratados”.

A razão para Aramis seria uma indiferença do público para “artistas de competência internacional, mas que não são populares via televisão que acabaram fracassando em suas apresentações entre nós”.Ele lembrava que em anos anteriores, o pianista Bill Evans, um dos “melhores do mundo”, tocou para menos de 300 pessoas. E Dizzy Gillespie, um dos “quatro maiores nomes do jazz, teve pouco público”.

Atualmente funciona em Curtiba um Café Concerto que homenageia o grande músico do jazz americano.

Alguém ainda tem a fronha de travesseiro do Morissey?

 

Matéria públicada na Gazeta do Povo no dia do show de Morrisey em Curitiba. (Reprodução)

 

No texto publicado na Gazeta do Povo no dia 1º de Abril de 2000, um sábado, o jornalista Omar Godoy começava assim: “Tem muita gente que ainda não está acreditando”.

O exagero se justificava. A presença de Morissey no Brasil era tida na imprensa como uma espécie de segunda volta do messias. Não era pra menos, o  bardo a quem muita gente chamava de o maior inglês vivo, o homem uma que mudou a história da música jovem no planetanos anos 80, estava no meio de nós pela primeira vez.

Na matéria correlata, alguns curitibanos na faixa dos 30 anos davam depoimentos sobre como Morrisey (e os Smiths) tinha definido os caminhos afetivos de suas vidas. Como Morrisey tocou antes em Curitiba de ir à São Paulo, muita gente entre fãs e imprensa não se aguentou e veio ver o show em primeira mão.

Na Fórum abarrotada (hoje Live Curitiba), o cantor “hipnotizou a plateia numa noite de magia e entrega” segundo a resenha que o jornalista Abonico R. Smith publicou na Gazeta do Povo na terça-feira seguinte.

Duas peculiaridades daquela noite são lembradas por fãs que lá estiveram: o autor de “Meat is Murder” proibiu a venda de qualquer derivado de carne no bar da Forum. Só pizza mozzarella, num tempo em que isto era bem incomum. Outra surpresa na saída era um dos souvenires vendidos pelos ambulantes: uma fronha de travesseiro estampada com a cara de Morrissey e algum dos seus poemas melancolia e solidão.

O show de Morrisey em Curitiba, milagrosamente, está todo gravado e disponível no YouTube.Ouça abaixo:

O dia em que Noel Rosa esteve entre nós e o povo não entendeu nada

 

Grupo Ases do Samba fias antes do histórico show em Curitiba. (Reprodução).

Para muitos, o maior artista brasileiro da história, o compositor Noel Rosa (1910-1936) se apresentou em Curitiba em uma única noite, em junho de 1932.

Noel não veio sozinho, pelo contrário. A seu lado estavam os cantores Francisco Alves e Mário Reis, dois dos maiores "cartazes' da era do Rádio Brasileira. Seria como João Gilberto e Roberto Carlos fizessem um show em conjunto no auge do sucesso. O lendário pianista Nonô e o percussionista Peri Cunha.

Segundo o livro Noel, Uma biografia, de João Máximo e Carlos Didier, a ideia do projeto batizado de Ases do Samba surgiu na cabeça de Alves (chamado de “Rei da Voz”, cantor mais popular do país).

Ele e Mário Reis cantariam, e Lamartine Babo, então o compositor mais famoso do Brasil, contaria piadas e faria versões humorísticas de sucessos do momento. Lamartine, porém, não pode viajar e Noel Rosa, então com 22 anos, foi chamado às pressas para substituí-lo.

A trupe partiu da praça Mauá, no Rio de Janeiro a bordo do navio Itaquera e chegou a Porto Alegre em uma semana.

Na viagem de Porto Alegre a Curitiba, Noel teria se apaixonado por uma “morena” e para ela compôs uma de suas obras-primas: o samba “Até Amanhã”.

Foi no palco do Theatro Palácio na noite do dia 13 de junho de 1932, uma segunda-feira, que Noel o cantou pela primeira vez. E foi também a única vez que ele se apresentou em Curitiba. Alguma documentação sobre o show é um desafio para arqueólogos futuros. A Gazeta do Povo que dava todo os dias a programação dos teatros, não circulava às segundas-feiras.

Segundo o livro de Máximo e Didier, na volta ao Rio, o público em Curitiba não gostou muito do show. Em entrevistas os Ases do Samba disseram que as plateias de Santa Catarina e Curitiba não entenderam o “espírito essencialmente carioca” do espetáculo.

Astor Piazzolla: a revolução do Tango em Curitiba

Única foto conhecida de Astor Piazzolla no Teatro Guaíra. Foto: Ariel Palácios.

Astor Piazzola (1924-1992) foi o grande compositor argentino do século XX, revolucionou o tango e continua sendo referência para os jovens compositores.

Piazzolla” tirou a gravata” do tango ao misturá-lo com o jazz, música clássica e certa pegada pop colocando a tradicional música argentina no mapa da world music desde a década de 1950.

No auge de sua fama mundial – e seis anos antes de morrer - Piazzolla fez um show lendário no Teatro Guaíra em Curitiba, no dia 16 de abril de 1986. Piazzola aproveitou o convite para se apresentar no programa Chico & Caetano, que a dupla de compositores apresentava aos sábados na Rede Globo, para fazer uma mini turnê pelo Brasil.

A viúva de Piazzolla, Laura Escalada, diz que se lembra “claramente” do concerto e do calor com que Piazzola foi recebeido pela grande comunidade argentina de Curitiba. O melhor relato sobre este show foi dado pelo jornalista Ariel Palácios, argentino de nascimento, cujos pais moravam em Curitiba, mas na época estudante de jornalismo em Londrina.

No blog que mantinha no Estado de S. Paulo, Palácios - fã entusiasmado de Piazzolla - lembra que presenteou o músico com alfajores feitos por sua mãe e que serviu de intérprete para o mestre em uma entrevista que ele deu a uma revista. É de Palácios também a única foto conhecida de Piazzolla em Curitiba durante o ensaio geral do concerto.

LEIA MAIS

Quinze shows internacionais mais épicos da história do Brasil

Confira o provável set list do Green Day em Curitiba

John Mayer mostra que é um músico completo, mas não lota a Pedreira