Há uns dois anos, Paul McCartney lia um artigo em uma publicação japonesa e uma frase brilhou para ele: “Apesar dos avisos repetidos, eles não estão ouvindo...” Paul pensou que esta frase resumia o sentimento de muitas pessoas.

A frase deu-lhe a ideia de fazer uma música sobre o tema, mirando políticos que contestam as mudanças climáticas. Ele, de fato, fez::Despite Repeated Warnings, parte de seu álbum mais recente Egypt Station.

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Paul explica a inspiração: “Pensei: 'OK, é um capitão de mar, e ele está pilotando um barco, e ele vai em direção ao iceberg. Ele foi avisado, mas ele está indo porque acha que está certo, e todos estão fazendo muito barulho”, disse.

O eterno beatle faz show em Curitiba no dia 30 deste mês de março, no Estádio Couto Pereira. Os ingressos estão sendo vendidos no site da Tickets for Fun. 

Em sua segunda passagem por Curitiba, na The Freshen Up Tour, Macca vai mostrar seus grandes sucessos – dos tempo dos Beatles e da carreira-solo. Algumas destas canções são do seu álbum mais recente, lançado em 2018 e que conquistou o primeiro lugar na Billboard, bem como a liderança das paradas em muitos países ao redor do mundo.

Em textos exclusivos enviados ao Guia Gazeta do Povo por sua assessoria, McCartney comentou faixa a faixa qual foi o processo de composição das canções do álbum, em especial das três que estão no repertório do show: Who Cares, Come On To Me e Fu You. É possivel escutar cada faixa em sua versão original e ler tudo que o autor acha sobre cada uma.

Com a palavra, sir Paul McCartney:

Who Cares

Eu estava pensando em uma música onde você realmente está falando com as pessoas que podem ouví-la. No meu caso, imaginava jovens que poderiam estar passando por algum tipo de problema em seu meio.

Hoje em dia seria bullying na internet, "trolagem" e tudo mais. Nos meus tempos de escola, seriam apenas valentões e as pessoas implicando umas com as outras. Eu sei que isso acontece em todo o mundo com milhões de pessoas.

Então o que eu queria era tentar ajudar, dar algum tipo de conselho: "você já se cansou de pessoas o intimidando?", "isso já aconteceu com você?", "e quem se importa?"

E então, há a reviravolta no refrão final: "Quem se importa? Eu.'”

Come on To Me

Esta é uma espécie de música de recordação. Estou me imaginando, provavelmente nos anos 1960, indo a uma festa, vendo alguma garota e pensando: "Tudo bem... Como eu puxo um papo aqui?”.

É uma música de fantasia sobre um cara que pensa em alguém que lhe dá um sorriso que parece dizer aguma coisa. Então, é essa a ideia: "você vem até mim ou eu vou até você?”

Fuh You

Certas músicas são escritas antes das sessões de gravação. Outras você compõe no estúdio, quando ideias vão aparecendo. Nesta música, eu estava no estúdio [com o produtor Ryan Tedder] apenas pensando em ideias e pequenas melodias e acordes, e a música foi se juntando pouco a pouco.

Então fui trabalhar para dar mais sentido na história. 'Vamos, amor, agora fale sobre você, diga a verdade, me deixa conhecer você... Eu quero saber como você se sente, você me faz querer sair e roubar algo... Eu só quero isso para você“.

Então essa foi a ideia base de tudo. É uma espécie de canção de amor, mas uma canção de amor atrevida.

Opening Station

Quando decidimos que íamos chamar o álbum de EgyptStation, gostei da ideia de fazer uma montagem de sons, como em uma estação. Então nós encontramos uma estação e usamos os efeitos sonoros de estações reais. Depois começamos a criar e adicionamos alguns pequenos ruídos para torná-la uma paisagem de sonhos. A ideia era que a música emanasse desse local de sonho.

I Don’t Know

Eu escrevi essa música depois de passar por um período difícil. Nada muito sério. Apenas um daqueles dias em que as pessoas se perguntam: "Meu Deus, o que estou fazendo de errado?".

Essa, às vezes, é uma boa maneira de escrever uma música. Algo que vem da sua alma. Costumávamos dizer que escrever uma música era como conversar com um terapeuta, mas em uma melodia e não na sala de um especialista. Então foi assim: eu apenas pensando nos problemas e colocando tudo em uma música.

Happy With You

Eu estava de férias, tocando meu violão, pensando nos dias em que tinha muito tempo livre. Eu costumava ficar por aí, sem fazer nada, de bobeira... Ocupado sem fazer nada!

Então, criei esse riff no violão e as palavras vieram: “Eu costumava ficar o dia todo largado, eu ficava chapado, eu costumava ficar perdido, mas hoje em dia não...”. É uma canção sobre crescer.

Confidante

Eu estava em casa, olhando no canto, onde estava apoiado meu velho violão Martin. Em geral ele fica lá, e quando eu sinto vontade de tocar, é só pegar e começar, tentar escrever uma música ou qualquer coisa. E eu pensei comigo mesmo: "Ultimamente não tenho tido tempo para tocar...".

Lembrei-me de que quando tocávamos violão muitos anos atrás, os instrumentos eram como nossos amigos. Um confidente. Você ia para um canto, escrevia uma música, e quase contava seus problemas ao seu violão. Então essa é uma canção de amor para o violão.

People Want Peace

Nós tocamos em Israel há alguns anos. Mas eu queria ir à Palestina antes de ir para Israel, porque estava muito consciente da situação política da região. Eu não queria que parecesse que eu estava ignorando a Palestina e tomando partido de Israel. Então eu fiz arranjos para ir à Palestina, ir para uma pequena escola de música, apertar a mão das crianças e ouví-las tocando música. Queria mostrar minha solidariedade com o povo palestino. Então voltei para Israel e encontrei algumas pessoas legais de um grupo político chamado One Voice

A ideia toda era uma verdadeira missão de paz. As pessoas querem paz. São os políticos e os líderes que entram em guerras. Não são as pessoas. Isso sempre me pareceu uma ótima explicação.

Hand in Hand

Às vezes as músicas surgem tarde da noite. Eu tenho um piano em casa — na verdade, é o piano antigo do meu pai. Eu estava sentado lá uma noite e comecei a encontrar esses acordes que se tornaram o começo de "Hand in Hand".

É basicamente uma música de amor. Enquanto escrevia, estava imaginando que eu e Nancy passávamos pela vida de mãos dadas. Foi escrito nos primeiros estágios do nosso relacionamento. Então eu pensei: "Há milhões de pessoas nessa situação: eles têm alguém que amam e querem passar pela vida de mãos dadas, uma grande parceria e tal".

Dominoes

Uma coisa interessante sobre a música é que ela geralmente vem de algo que acontece em sua vida. A música é uma forma de reação. Pode ser algo muito pequeno — como uma discussão com alguém da qual você sai e pensa: “Eu vou tocar guitarra por um tempo, sair dessa, superar...". E essa música começou assim. É sobre como as coisas estão realmente bem, mesmo que nem sempre pareçam estar. Como um dominó.

Sabe quando as pessoas alinham os milhões de dominós e depois soltam o primeiro e ele derruba os demais? Para mim representa a vida. Uma pequena ação pode ter um efeito grande nessa imensa fila de dominós. É uma música muito pessoal, na medida em que, apesar de todos nós passarmos por tudo isso, mesmo que todos esses dominós caiam, a vida continua. E, de fato, no final, fica tudo bem.

Back in Brazil

Eu estava no Brasil em um daqueles dias livres, sem nada planejado. Havia um piano no quarto do hotel. Comecei um som e veio toda essa história sobre essa garota que sonha com um futuro, com um mundo muito melhor. Ela conhece um rapaz perfeito para seu plano de vida. As coisas estão indo bem e, em seguida, ela planeja um encontro, mas acontecem algumas coisas: ele não pode ir porque ele está trabalhando até tarde. Era apenas uma história de ficção de dois jovens brasileiros. Como é um pouco dançante, eu coloquei ritmos e sabores brasileiros.

Do it Now

"Faça isso agora" é uma expressão que meu pai costumava repetir. É engraçado, você sabe: à medida em que se envelhece, você se lembra de coisas que seus pais, ou talvez seus professores ou amigos, disseram há muito tempo. Quase como um slogan. O do meu pai era: "Bem, faça agora". Eu dizia: "Eu faço  depois...". E ele respondia: "Não, faça agora". Na verdade, ele costumava dizer: "D.I.N." (Do It Now). Sempre achei que D.I.N. seria um ótimo nome para uma gravadora.

Então, de qualquer maneira, essa coisa do "faça agora" sempre esteve na minha cabeça, e eu estava procurando uma ideia para escrever uma música com isso. E comecei a imaginar: ok, estou em uma jornada. Fui convidado para ir a algum lugar e, se não fizer isso agora, talvez nunca chegue a esse lugar. Basicamente a música é uma jornada imaginária, sugerida pelo fato de que meu pai teria dito: "Vá nessa jornada agora. Não deixe até ser tarde demais. Faça isso agora'”.

Caesar Rock

Algumas vezes eu entro no meu estúdio com meu engenheiro, Steve Orchard, e começamos a inventar coisas. Nós simplesmente não temos ideia do que vamos fazer, mas vamos brincar com as coisas que nos interessam. Eu poderia começar com uma ideia na bateria eletrônica, depois colocar um pequeno piano nela, ou um baixo, e então talvez cantar algumas coisas. Estávamos assim um dia e começamos a fazer essa música. E pensei: "Vamos dar uma chance a isso".

De certa forma, é um pouco sacrilégio falar assim. Mas então comecei a pensar: "Você está brincando comigo?" Ouça alguns discos dos Beatles, como "Tomorrow Never Knows". Nós nunca pensamos que algo era tão sagrado. Então começou como "She´s A Rock", mas depois começamos a nos referir a ela como "Caesar Rock", porque estávamos nos divertindo e construímos isso. Eu gosto dessa música porque é estranha. Você sabe que é uma música onde vale tudo.

Despite Repeated Warnings

“Eu estava no Japão lendo jornal, e havia um texto sobre mudança climática. E sabemos que as pessoas não estão fazendo nada sobre isso. Essa ideia de: "Tudo vai ficar bem, não se preocupe... Há icebergs derretendo, mas isso não importa, porque não está derretendo em Londres".

Essa frase estava no artigo: "Apesar dos avisos repetidos, eles não estão ouvindo...". Eu pensei: "Ah, sim, isso resume o sentimento de muitas pessoas". Minha ideia foi fazer uma música usando isso. É para certos políticos que argumentam que a mudança climática é uma farsa — e nós sabemos quem são.  Essa é uma daquelas músicas marcantes, como 'Band on the Run' ou 'Live'. Meio épica, e que está realmente tentando lembrar as pessoas que a mudança climática não é uma farsa, e que devemos evitar ter um capitão louco nos guiando para os icebergs.

Station II

É a continuação da paisagem sonora de abertura, e isso nos leva de volta à estação imaginária. Eu gosto da ideia de que é uma estação de trem ou uma estação de rádio. Então nos divertimos inventando uma paisagem sonora.

Hunt You Down / Naked / C-Link

Uma música de três partes. Começa bem roqueira. A letra é apenas: "não consigo encontrar meu amor, não importa o quanto eu tente...".

Você sabe, o velho tipo de letra reclamona de blues. Em seguida, há outra música chamada "Naked". A ideia é que passamos por essa vida, que todos passam.

De certa forma, há muitas situações pelas quais você passa e, bem, você está nu. Socialmente, você pode se sentir nu — aquela sensação de "eu não sei como lidar com isso!". E então há a conexão com outra canção que chamamos de "C-Link" — apenas eu me entregando totalmente à guitarra.

As pessoas costumam perguntar: 'Por que você ainda faz isso?'. E a resposta é que eu ainda estou feliz de ter o privilégio de poder pegar um amplificador, ligá-lo, pegar meu violão, ligá-lo e tocar muito alto. E é isso, a Egypt Station.