Se um extraterrestre caísse na Terra esperando entender um pouco da história do rock, poderia aproveitar esta semana em Curitiba. A cidade recebe na quarta (7) e quinta-feira (8) dois grandes eventos com algumas das bandas mais influentes do gênero, em um passeio que começa nos primórdios do heavy metal e chega ao indie dançante. Os festivais Summer Break e Solid Rock serão realizados na Pedreira Paulo Leminski, com nomes como Noel Gallagher, Alice in Chains e Judas Priest.

Embora a maioria destas bandas esteja recauchutada – longe do auge e com formações diferentes –, deverão inundar a capital paranaense com clássicos do gênero que cabem na playlist dos roqueiros mais tradicionais e new rockers.

O irmão falastrão

A principal atração da quarta-feira (7), e talvez de toda a sequência, é a Noel Gallagher’s High Flying Birds. Há duas coisas para as quais o cantor e guitarrista britânico tem um talento inegável: criar refrões pop grudentos e espezinhar o resto do mundo. Nesse segundo quesito, seu alvo preferido é o irmão, Liam, com quem dividiu os holofotes daquela que foi a maior banda de rock do mundo no fim dos anos 1990, o Oasis. Noel e Liam eram uma espécie de Ruth e Raquel – personagens da novela Mulheres de Areia –, só que sem que um dos dois seja bonzinho. Aos trancos e barrancos, os irmãos Gallagher criaram uma obra que pavimentou o caminho para que o indie rock de The Strokes, Arctic Monkeys e Foster the People se tornasse o estilo musical mais cool dos anos seguintes.

À sombra da ex-banda, Noel construiu uma carreira “quase solo” consistente. Com sua High Flying Birds, o músico já lançou três discos que permeiam entre o mediano e bom – todos com uma cara de “Oasis se não tivesse acabado”.  O mais recente é “Who Built the Moon?” (2017), que é, pra bem da verdade, o menos interessante. As músicas superproduzidas, cheias de efeito, mas um tanto repetitivas, serão a base da apresentação em Curitiba. Mas Noel deve passear pelos melhores momentos de sua carreira pós-Oasis, como as excelentes “AKA... What a Life” do disco de estreia da High Flying Birds e “The Heat of the Moment”, do disco “Chasing Yesterday”, o melhor da banda.

Mas, sem hipocrisia, para a maioria dos presentes na Pedreira, pouco importa os bons momentos da nova banda. O que a maioria estará afoita para ouvir são mesmo os clássicos do Oasis – todos os grandes sucessos foram compostos por ele. E o falastrão guitarrista sabe bem disso, por isso costuma separar uma boa parte do repertório para petardos como “Supersonic”, Little by Little” e, óbvio, “Don’t Look Back in Anger” e “Wonderwall”. E nem há o que reclamar, já que ao The Guardian, em 2008, o próprio Noel declarou que “as pessoas gostam de Coldplay, mas não amam; as pessoas gostam de U2, mas não amam; mas as pessoas amam Oasis. É mais do que música”. Provavelmente, o caso da High Flying Birds seja mais parecido com o de Coldplay e U2.

Escute e vá preparado:

(What’s the Story) Morning Glory? (1995): caso você não tenha passado as últimas duas décadas em um retiro isolado, é provável que conheça ao menos duas músicas deste excelente disco. É do álbum mais clássico do Oasis “Don’t Look Back in Anger” e “Wonderwall”, as duas mais conhecidas, e possivelmente melhores, músicas da banda. Rock em embalagem pop com letras sobre desilusões amorosas, autoafirmação juvenil e bebedeira. Nada mais anos 1990 do que isso.

Who Built the Moon (2017): a Noel Gallagher’s High Flying Bird tem tocado, logo de cara, as quatro primeiras músicas de seu disco mais recente. O álbum exagera nos efeitos e repetições, o que tira a força das melodias de Noel, seu ponto mais forte. Apesar disso, não é um disco ruim e “It’s a Beautiful World” e “Be Careful What You Wish For” devem soar interessantes ao vivo. Esta última, aliás, usa uma linha de baixo quase idêntica à de “Come Togheter”, dos Beatles. Quanta obsessão!

A molecada indie

O líder do Foster the People, Mark Foster, nem tinha chegado à maioridade quando o Oasis já era a banda mais famosa do mundo. Agora, cabe a sua banda “indie alegrinha” fazer o esquenta para o decano Noel Gallagher. A tarefa não é lá tão ingrata, já que o grupo norte-americano é muito competente e joga quase de igual para igual com a High Flying Birds.

Aliás, para os familiarizados com o novo indie-pop, a banda – que tem apenas três discos – é uma referência. O álbum de estreia, Torches (2011), por exemplo, tem ao menos cinco faixas que fizeram os alternativos queimarem muita sola de All-Star nas pistinhas de dança, como “Pumped Up Kicks”, a mais conhecida. Ao contrário de boa parte dos grupos de sua geração, porém, o Foster the People não perdeu relevância após o primeiro disco. No ano passado, lançaram o ótimo Sacred Hearts Club, que flerta com o eletrônico, o hip hop e toda sorte de soul music.

Os norte-americanos não fazem lá o som mais original do mundo, é verdade. Tampouco suas letras são inspiradoras, já que parecem tiradas dos roteiros de “Malhação”. Mas o som dançante e para cima deve garantir uma boa diversão. E, cá para nós, nem sempre se precisa pensar na vida quando se está se acabando na pista de dança...

Escute e vá preparado:

Torches (2011): é um dos discos mais divertidos do indie deste século. Se deixar rolar as primeiras faixas todas na sequência, parecerá um greatest hits. “Helena Beat”, “Pumped Up Kicks”, “Call it What You Want” e “Houdini” devem levantar a molecada com menos de 30 anos no show da Pedreira. Sonzinho inofensivo e bem agradável.

Sacred Hearts Club (2017): é o disco mais maduro dos norte-americanos, embora não tenha emplacado nas paradas como os anteriores. A sonoridade é um equilíbrio entre o soul e o eletrônico – o caminho que nove em cada 10 bandas indies seguiram de 2013 para cá. Não é nada exatamente novo, mas é bem feito. “Doing it for the Money”, “Pay the Man” e “Sit Next to Me” costumam estar no repertório dos shows. Vá com roupas leves, pois esse é para pular…

A galera do metal

Se você ama (ou odeia) o visual headbanger, com roupas que tem mais couro e tachinhas que o uniforme da Mulher-Gato, é ao Judas Priest que deve agradecer/culpar. A trupe britânica é um dos nomes mais importantes do heavy metal e se mantém cultuada desde a década de 1970. Além de popularizar a vestimenta que metaleiros mais tradicionais usam até para ir à praia, a banda inglesa instituiu o modelo de música pesada que reinou nos anos 1980 e 1990: vocais agudos, falsetinho à la Tetê Espíndola, guitarras dobradas e letras sobre como é “delicioso ser do metal”.

Embora nunca tenha ocupado um lugar de destaque no Olimpo do “deus metal” como o Iron Maiden, a importância do Judas é tão grande quanto à dos conterrâneos – Helloween, Stratovarius e até o Metallica beberam na fonte de Rob Halford, um personagem sui generis nesse universo. Há alguns anos, assumiu sua homossexualidade em um estilo musical em que parecer “machão mal-encarado” é a regra.

A banda vem a Curitiba para apresentar seu disco mais recente, Firepower (2018). Dos anos 1990 para cá, não há grande novidade no som, que segue a fórmula do metal rápido e furioso. Embora meio caricato, o grupo britânico merece respeito absoluto por sua importância histórica e, claro, por fazer a alegria de quem gosta de uma diversão mais pesada.

Escute e vá preparado:

British Steel (1980): Poucas coisas são mais constrangedoras do que o clipe de “Breaking the Law”, principal hit do Judas nos anos 1980. Nele, Halford aparece entortando as grades da cela [claramente de borracha] em que foi aprisionado por “infringir a lei” enquanto faz uma careta que metaleiro nenhum merecia ver. No mais, o disco é um conjunto de divertidíssimas músicas entre o metal e o hard rock. “Grinder” e “Living After Midnight” também devem estar na apresentação.

Painkiller (1990): Dez anos após o British Steel, o Judas se reinventa com uma roupagem mais agressiva e veloz. O disco é fundamental na coleção de qualquer fã de heavy metal. E com razão, os primeiros segundos de “Painkiller”, com um solo de bateria no pedal duplo e riffs cortantes, já mostram a que veio. De lá para cá, o Judas, no entanto, se tornou uma espécie de “Woody Allen do metal”, gravando mais ou menos a mesma coisa ao longo dos anos...

O rock depressivo

Ainda é um mistério como as bandas grunge chegaram ao estrelato no início dos nos 1990, com letras que falam basicamente sobre angústia e sentimentos pouco nobres. Por algum motivo – talvez o excesso de glamour das bandas de hard rock e heavy metal dos anos 1980 –, músicas como “Man in the Box” tenham virado hits absolutos. A canção mais conhecida dos norte-americanos do Alice in Chains, aliás, é uma lamúria pesada sobre como o vício em drogas causa um sentimento de aprisionamento.

O ponto é que a banda liderada pelo guitarrista Jerry Cantrell é uma das melhores da última década do século passado. Ao lado de Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam – bandas que tinham pouco a ver entre si – o Alice in Chains reescreveu, para o bem, os rumos do rock. E com uma qualidade que se manteve regular por todos seus primeiros anos, diferentemente dos companheiros de movimento.

Em 2002, no entanto, a banda perdeu uma de suas forças criativas. O vocalista Layne Staley “saiu da caixa”. O cantor foi encontrado morto em seu apartamento, vítima de uma overdose, como conta sua letra mais famosa. O retorno do conjunto veio só em 2009, com William DuVall nos vocais (escolhido pelo talento e também pela semelhança absurda de timbre com Staley). Embora tenham gravado bons discos, como o recém-lançado Rainier Fog, a banda nunca mais voltou ao auge – e provavelmente nem voltará. Os tempos são outros...

Escute e vá preparado:

Facelift (1990): Talvez “Man in the Box” só seja menos conhecida do que “Smells Like Teen Spirit”. E com justiça. É uma música com a cara do grunge. O disco de estreia do Alice in Chains é matador. Cantrell e Staley mostram que são uma espécie de Jagger/Richards no estilo. E, tecnicamente, acima da média.

Rainier Fog (2018): Desde que retornou aos palcos, o Alice in Chains adotou uma sonoridade mais pesada e menos obscura, muito parecida com uma legião de bandas que influenciou – como Shinedown e Godsmack. Boa parte das músicas da apresentação em Curitiba sairá dali. É um bom disco? Sim. Inesquecível? Longe disso...

Ainda tem...

Quem abre a noite para Alice in Chains e Judas Priest é o ilustre desconhecido Black Star Riders. A banda é formada por alguns ex-membros da irlandesa Thin Lizzy – que teve quase tantos componentes ao longo dos anos quanto um reality show de tevê aberta. O grupo é competente e faz um hard rockão pesado interessante. Não deve comprometer. Tampouco empolgar.

Summer Break Festival

Solid Rock

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