Mesmo de olhos vendados, a costureira Rose Matias garante que saberia andar pelos corredores e coxias do Teatro Guaíra sem tropeçar. Atrás dos bastidores do palco, a arquitetura do teatro é cheia labirintos e esconderijos que o público não vê.

Um espaço habitado por dezenas de personagens que trabalham no cotidiano do teatro, mantendo-o em pé. Neste elenco de artistas invisíveis, a costureira-chefe do Balé Teatro Guaíra (BTG) é uma das estrelas da companhia.

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Houve um tempo - de vacas mais gordas – em que o Teatro Guaíra chegou a ter 12 profissionais permanentes no setor de figurinos. Tinha chefe de guarda roupa, camareiras, lavadeiras...

Hoje só "sobrou" a Rose.

Ele ocupa seu posto desde 2009, desde a aposentadoria de Neca, sua antecessora. Aprendeu o ofício de costureira com sua mãe, Dona Esvaldete, nos anos 1980.

Naquela época, perto dos 20 anos, Rose entrou no teatro pela primeira vez, como estagiária. “Minha função era ir ao armarinho buscar aviamentos, era pau para toda obra”, lembra.  “Não queria ser costureira como minha mãe. Queria estudar e fazer faculdade, mas como a coisa estava difícil, fui trabalhar lá”, conta.

Um luxo só

Como acontece com muitos artistas, Rose não escolheu a vida no teatro, mas foi “escolhida”. 

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Um dia, ela viu nas paredes a série de desenhos e croquis que Rosa Magalhães (maior carnavalesca do país) criara para a montagem de O Grande Circo Místico. “Era um luxo só. Uma coisa deslumbrante. Eu vi as meninas cortando e montando aquelas peças. Na primeira prova, vi a roupa sair do papel e ganhar vida. Pensei: também quero costurar. Quero ser parte disso”.

Um pequeno trecho da montagem do ballet, criado em 1983, especialmente para o BTG por Chico Buarque e Edu Lobo, será reencenado em maio durante a Mostra de Repertório que vai reviver os 50 anos da história do BTG entre os dias 5 e 12 de maio.

Serão remontadas três peças que marcaram a carreira do grupo. A Sagração da Primavera, de Stravinsky, acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP) será montada nos dias 3, 4 e 5. 

No dia 8 de maio será levado o balé da Ópera Carmen.

Por fim, o grupo recria nos dias 11 e 12 O Segundo Sopro, primeiro espetáculo do BTG a fazer chover no palco do Guairão.

Os ingressos vão custar R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).

Durantes os meses de março e abril, Rose se ocupou de adaptar os desenhos originais do figurino às medidas de cada bailarino do grupo atual.

Seu espaço criativo são três salas nos fundos do terceiro andar, um andar abaixo do estúdio de ensaios do BTG na planta do teatro, com janelas para a esquina da rua Tibagi com Amintas de Barros.

Numa das salas ficam as oito máquinas de costura, a tábua de passar e quilômetros de fios de todas as cores. Na sala maior, estão guardados e catalogados quase todos os figurinos usados pelo BTG em cinco décadas.

Rose sabe onde está cada uma delas, penduradas nas 12 fileiras de araras gigantes que entopem a sala. “O número é incalculável, mas cada uma dessas peças é a memória de algum trabalho”.

A maior parte de sua labuta, porém, Rose executa nas mesas de mogno que são usadas para cortes desde a década de 1970.

Estas mesas já foram um só móvel que fazia parte da decoração original do Palácio Iguaçu. Numa das reformas da sede do governo, a mesa parou no Guaíra e foi divida ao meio em duas partes trapezoidais sobre as quais Rose abre a suas fazendas. A maioria dos tecidos é chinês como o tule de lycra, o pano mais usado nos figurinos de balé atualmente.  

Primeiros-socorros

Rose conta que seu trabalho nunca acaba.

Suas tarefas são arrumar, organizar, comprar, separar, cortar, passar, lavar, reparar, criar, bordar e, claro, costurar.  Um trabalho feito em conjunto com os figurinistas e coreógrafos de cada espetáculo. “Eles me contam o que querem e eu tento entrar na mesma vibe, sempre pensando no que será melhor para o bailarino”.

Ela não influência na criação dos modelos, mas diz que opina sobre suas funcionalidades em cena. “Às vezes, o figurinista chega com desenhos maravilhosos, mas eu sei que não vai dar certo em cena”.

Nos dias de espetáculo, Rose é a primeira a chegar e a última a sair.

Em turnês, ela costuma viajar dias antes para conhecer o palco e planejar as questões do figurino, assim como os cenógrafos e técnicos fazem com o palco.

Na véspera de uma temporada, os ensaios com os figurinos começam pelo menos dez dias antes.“É preciso planejar e encontrar soluções e maneiras de fazer as trocas de figurino rápidas, mas em segurança”.

A adrenalina durante um espetáculo é seu sentimento preferido. Com seu kit de primeiros socorros à mão – tesoura, linha e agulha – Rose fica alerta nos bastidores. Às vezes acontecem acidentes como durante Festival de Dança em Joinville.

“Na última cena estourou o zíper da Cinderela. E eu sabendo que ela ia ficar um tempão em cena fiquei rezando para o colchete do collant aguentar”, lembra.

Como conhecia a coreografia, Rose sabia que teria poucos segundos até o momento em que a bailarina entraria atrás de uma tela no palco. “Fui lá me abaixei e costurei o mais rápido que pude. Ninguém percebeu”.

Poesia com linha e agulha

Ela explica que não virou costureira do dia para a noite. “Costurar se aprende na prática e com tempo”, ensina.

Entre os muitos professores que teve, escolhe os dois conselhos do costureiro Ney Souzah como os mais importantes de sua carreira. “Ele primeiro me ensinou a acreditar em mim e não ter medo de pessoas mais famosas e importantes”, conta.

A outra dica é poesia pura, daquelas que roubam a cena. “Depois, ele me fez ver que os desenhos das roupas são como um alfabeto que se usa para escrever tendo o corpo dos bailarinos como papel”.   

Em sua carteira de trabalho, Rose Matias está registrada como “costureira artística”. Para ela, a denominação legal é perfeita. “Me considero também uma artista do corpo de bailarinos. Preciso que as peças de roupas que crio tenham vida, entrem em cena e emocionem o público”.