Cinema

Novo projeto na Ópera de Arame traz música sobre as águas

Por: Alessandro Andreola
Novo projeto na Ópera de Arame traz música sobre as águas

A partir da próxima sexta-feira (21), a Ópera de Arame passa a receber diariamente apresentações musicais, só que fora do palco principal do teatro. Na verdade, o local desses shows será muito mais inusitado: os músicos vão tocar sobre o lago que cerca o local, em um palco flutuante. Este é o resumo do projeto Vale da Música, cuja intenção é colocar obras instrumentais em evidência e valorizar os músicos locais. “Uma parte do repertório é de músicas autorais e outra parte de arranjos de clássicos da música contemporânea, desde a música brasileira, passando pelo classic rock e pelo pop rock internacional, feitos em um formato instrumental”, explica Hélio Pimentel, vice-presidente de operações da DC Set, concessionária do Parque das Pedreiras e uma das idealizadoras do projeto, ao lado da empresa Futura Fonte.

Com investimento estimado em R$ 3 milhões, o Vale da Música foi gestado nos últimos dois anos e conseguiu sair do papel graças à Lei Rouanet, com incentivo do banco Bradesco. Para o início do projeto, foram contratados 50 músicos, mas os criadores da iniciativa esperam que esse número venha a crescer — Pimentel fala em empregar centenas de músicos. “Teremos mais de 800 shows durante o ano, consecutivos durante o dia inteiro. É um enriquecimento cultural e um fortalecimento da cena musical, com a valorização dos músicos, afinal estamos ofertando um trabalho permanente”, ressalta. As apresentações acontecerão de terça a domingo, das 10h às 18h — serão três shows diários de terça a quinta, aumentando para quatro de sexta a domingo. As entradas vão custar R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Moradores de Curitiba, entretanto, pagarão meia. “É um valor que não se encontra em nenhum lugar do Brasil nem do mundo”, diz Pimentel.

Porém, a grande vedete do projeto é o palco flutuante projetado pelo arquiteto Felipe Guerra. Trata-se de uma balsa de aço de 48 metros quadrados, formada por quatro grandes tanques de ar, e que comporta até seis músicos. Possui ainda uma cobertura transparente, para que se possa visualizar os músicos de todos os lados. “Minha preocupação desde o início foi de criar uma peça que não interferisse na arquitetura original da Ópera de Arame”, diz Guerra, ressaltando que o projeto se inspira, além das estruturas metálicas do teatro, nas formas e na organicidade da natureza presente no lugar. A cobertura ondulada também chama a atenção por chegar até a beira do lago e criar um reflexo que fornece a ilusão de duplicidade da estrutura — de acordo com o arquiteto, “é quase como uma flor que beija a água”.

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Guerra também conta que, para se movimentar, o palco possui um sistema de trilhos submersos e que o deslocamento é feito por meio de um motor. “Isso possibilita uma diversidade de posições”, afirma. Ele também destaca que o palco pode, inclusive, ser “guardado”. “Quando não houver atividade, ele pode ficar encostado na vegetação, mais escondido”, explica.

Música instrumental

A opção pela música instrumental tem a ver com a própria Lei Rouanet, explica Hélio Pimentel. “É uma orientação do Ministério da Cultura e que a gente entendeu por bem fazer assim, priorizando a música instrumental em seus diversos formatos, como o jazz, o erudito, os músicos autorais. E também é uma música que se identifica com o espaço da Ópera”, justifica. Ele ainda afirma que a seleção musical foi escolhida “com critérios muito profissionais”.

Quem cuida da curadoria do Vale é o músico argentino Victor Gabriel Castro, saxofonista radicado em Curitiba há dez anos. Ele concorda com a avaliação de Pimentel sobre o alcance da música instrumental, a qual acredita haver muito pouco espaço. “Não apenas aqui, mas em todos os lugares”, lamenta. No entanto, Castro enxerga no Vale uma grande oportunidade para os músicos locais. “A música instrumental precisa de músicos que tenham sensibilidade e domínio técnico do instrumento”, diz.

Segundo ele, o processo seletivo se dividiu entre dois grupos de músicos: os profissionais e os freelancers. “E não necessariamente de música erudita, mas de música popular também”, explica ele, destacando que buscou nomes em fontes clássicas, como a Orquestra Sinfônica do Paraná e a Camerata Antiqua de Curitiba, e populares, como a Orquestra à Base de Sopro da Fundação Cultural de Curitiba. Castro e companhia também foram garimpar talentos na FIMS — a Feira Internacional de Música do Sul, ocorrida em junho.

A diversidade, aliás, é um ponto caro ao Vale da Música, cujo projeto prevê versões de todo tipo de gênero musical, porém em arranjos que Castro define como “mais sofisticados”. “Teremos um monte de misturas e estilos, que vão da música latino-americana ao rock, do pop à world music”, conta ele. Entre as canções escolhidas para o projeto, estão composições famosas de gente como Roberto Carlos, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Michael Jackson e os Beatles — “Como É Grande O Meu Amor Por Você´", “Eu Sei Que Vou Te Amar” e “Eleanor Rigby” são algumas das escolhidas. “São músicas consagradas no mundo inteiro, que quando a gente escuta reconhece a melodia imediatamente”, diz Castro.

Todo esse repertório — que, até agora, totaliza mais de 150 canções — ganhou arranjos pensados especificamente para grupos de cordas, metais e saxofones. Esse trabalho foi feito pelo próprio Castro, que verteu as canções para arranjos de sax, e também pelos renomados compositores Davi Sartori e Santiago Beis. Os arranjos serão reproduzidos por formações inéditas, agrupadas sob os nomes Cordas do Vale, Metais do Vale e Sax do Vale.

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Velhos conhecidos

Os ensaios já vêm acontecendo há algumas semanas e velhos conhecidos da cena cultural paranaense também foram escolhidos para subir ao palco flutuante, dando uma ideia da abrangência e do ecletismo do projeto. Entre os escalados estão Kadu Lambach Trio, formação de pop-rock comandada pelo primeiro guitarrista da Legião Urbana, e os grupos Jazz Cigano e Trio Quintina. Também estão agendadas apresentações de solistas como o violeiro Fernando Deghi, o pianista de jazz e R&B Bernardo Manita e o bluesman Décio Caetano. “A cada dois meses nós vamos renovar o cronograma de apresentações, dando oportunidades para todos os músicos que foram convocados, assim como para os que ainda serão chamados”, conta Castro.

Segundo os criadores do projeto, as apresentações do Vale da Música estão garantidas até setembro do ano que vem. Após esse período, o funcionamento dependerá de mais recursos. “Há a vontade de continuar. Mas isso ainda depende de orçamento”, diz Castro. Ele também revela que estão previstas ações especiais em datas comemorativas — em 12 de outubro, Dia das Crianças, por exemplo, o Vale terá uma programação pensada para este público.

E, apesar de ter sido criado especificamente para atender às apresentações do projeto, ainda existe a possibilidade de o palco flutuante vir a ser utilizado em outras apresentações na Ópera de Arame. “Creio que poderá ser utilizado para eventos noturnos, fora do Vale da Música. Quanto mais se usar o palco, mais atrações serão oferecidas”, diz Hélio Pimentel.