Cinema

Uma Aventura LEGO está de volta às telonas

Por: Luiz Gustavo Vilela
Uma Aventura LEGO está de volta às telonas

Uma Aventura Lego (The Lego Movie, 2014), de Phil Lord e Christopher Miller, é um ponto fora da curva mesmo para seus dois criadores, já cheios de bons momentos na carreira – destaque para Anjos da Lei (21 Jump Street, 2012) e sua continuação ou Tá Chovendo Hambúrguer (Cloudy With a Chance of Meatballs, 2009). O que tinha tudo para ser um produto corporativo sem graça era, a um só tempo, divertido, emocionante, conto moral sobre relações familiares, desconstrução da já batida jornada do herói e dura metáfora social orwelliana, ainda que com final feliz. Tudo operando com graça e harmonia impressionantes.

A continuação, Uma Aventura Lego 2 (The Lego Movie 2: The Second Part, 2019), agora dirigida por Mike Mitchell, não possui a mesma elegância e escopo, mesmo tendo sido roteirizada e produzida pelos mesmos Lord e Miller. Compreensivelmente, a ambição é menor. Ainda que haja um ensaio de reflexão social, trazida pela noção de alienação alimentada pelo consumo de cultura pop – especialmente em relação à música pop –, essa ideia é logo desfeita por uma divertida surpresa do roteiro. O que faz sentido. Este é, afinal, um filme hollywoodiano tendo como base um brinquedo que é vendido no mundo todo. Grandes chances de soar hipócrita.

Partindo do exato ponto em que Uma Aventura Lego terminou, a continuação mostra o que acontece depois de as duas crianças ganharem passe livre para brincar com os kits Lego que seu Pai (Will Ferrell) preservava como artigo de colecionador. Da meticulosa organização passaram ao caos absoluto em um espaço de cinco anos. Os sobreviventes se juntaram em uma terra devastada, com direito a referências a Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968), de Franklin J. Schaffner, e Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015), de George Miller. Os bonequinhos são agora traumatizados pelos anos de luta pela sobrevivência.

Emmet (Chris Pratt) é o único que segue inalterado, esbanjando seu bom humor e esperança em uma bela sequência hilária por fazer um paralelo com a forma como ele é apresentado no primeiro filme. O contraste de sua empolgação é dado pela ambientação pós-apocalíptica e acentuado pela atitude sombria de Lucy (Elizabeth Banks), que teme a chegada a qualquer momento dos destrutivos aliens, ou seja: os brinquedos trazidos por Bianca (Brooklynn Prince), a irmã mais nova de Finn (Jadon Sand), que agora dividem os espólios dos kits Lego do Pai.

Dupla narrativa

O centro emocional do filme está na definição de o que significa amadurecer, fazendo um contraste tanto narrativo quanto estético. Emmet, com sua alegria inocente, parece infantil. Lucy, por outro lado, se vê como adulta pelo amargor trazido pelos anos de conflito. Por isso a jornada dos dois, tentando salvar seus amigos sequestrados, vai envolver a compreensão de que não é preciso parecer soturno e rabugento para ser um adulto. Estes dois pólos refletem as formas de brincar de Finn e Bianca. Ele, menino e mais velho, quer brincar de histórias de aventura e violência. Ela, mais nova e menina, está interessada em bailes e romances.

O interessante de Uma Aventura Lego 2 está em, justamente, unir estas duas narrativas, a dos brinquedos e da relação entre o casal de irmãos, sem criar ruído. Este é, afinal, o desafio central desta continuação. Por isso não havia outra alternativa que não abraçar a grande surpresa do filme anterior, de que toda a história não passa de uma brincadeira de criança – em uma espécie de Toy Story reverso, mas que não rejeita toda possibilidade de magia, o que é importante. O conflito está, justamente, na diferença entre as formas de brincar entre Bianca e Finn, que refletem seus gostos pessoais. A resolução está em entender que os dois – e, portanto, os brinquedos – estão apegados a questões meramente superficiais.

Amadurecer, o filme postula, é uma questão de aceitar quem você é e abraçar suas próprias características, o que é o oposto de tentar construir uma identidade falsa por adequação. A resolução, portanto, não vem de Finn aceitar brincar de baile, tampouco de Bianca colocar suas bonecas para batalhar, mas sim de achar um meio-termo que seja divertido para ambos.

Tudo é incrível

É possível, porém, assistir a Uma Aventura Lego 2 sem se importar em absoluto com sua lição moral. Ele é, afinal, tão divertido quanto qualquer coisa que já tenha sido escrita por Miller e Lord. O que quer dizer que haverá uma infinidade de piadas acontecendo a cada minuto. A vontade, como acontecia no primeiro, é de ver dublado uma vez, prestando atenção à ação, pequenas piadas e referências visuais que estão espalhadas por cada imagem e, logo em seguida, rever legendado, com os ouvidos afiados para tentar pescar as mesmas coisas nos diálogos. A dublagem não é ruim, pelo contrário, mas algumas sacadas sempre se perdem no caminho.

O universo de Lego, com versões de praticamente tudo o que se tornou popular na cultura pop, de Star Wars a Star Trek, de Harry Potter a O Senhor dos Anéis e além, é um prato cheio para essas brincadeiras, entregues em velocidade alucinante. Uma simples piada de menos de cinco segundos, que contextualiza viagens no tempo, passa pela TARDIS de Doctor Who, pelo Delorean de De Volta para o Futuro, pelo dispositivo de O Exterminador do Futuro, pela cabine telefônica de Bill & Ted e pela Máquina do Tempo do clássico de H.G. Wells. O ritmo, com o perdão do clichê, é frenético.

Tudo isso vem embalado em uma animação surpreendentemente caprichada, considerando que é um universo construído por blocos de plásticos monocromáticos. Vale a pena prestar atenção no desgaste das pinturas, nas ranhuras e até nas impressões digitais que surgem pela manipulação pelos dedos engordurados das crianças. Este cuidado já impressionava no primeiro filme – compare com as animações de Lego, menos caprichadas, que estão na Netflix –, mas agora, com o desenvolvimento natural da qualidade das técnicas, chega a um novo patamar.

BOX: Relembrando

Uma Aventura Lego (2014)

Na primeira aventura o vilão era o Lorde Negócios (Will Ferrell), um maníaco por controle que não concebia que os diferentes mundos pudessem ser misturados, ou peças usadas para outra coisa que não fosse o seu propósito original. Ele é o avatar de Pai, que queria manter cada kit separado, como peças de colecionador. Emmet (Chris Pratt) é o mais sem graça dos bonecos, um construtor que passa a vida seguindo o plano, até que, por um azar, encontra a Peça de Resistência, se tornando o inimigo número um do Lorde Negócios. Ele se junta a Batman, Wyldstyle, Unikitty (Will Arnett, Elizabeth Banks e Alison Brie), além de vários outros personagens vindos de diversas franquias diferentes, para aprender o necessário para se tornar um Mestre Construtor e derrotar Lorde Negócios.

LEGO Batman: O Filme (2017)

O sucesso de Uma Aventura Lego, com várias cenas roubadas pelo Batman de Will Arnett, permitiu que um filme solo do mini Homem Morcego se tornasse uma realidade. O resultado talvez seja o melhor filme do Batman até então. Contando inclusive o do Christopher Nolan. Nenhum colocou o personagem no divã. Na trama, Batman está em sua melhor forma, mas a solidão eterna deixa um profundo vazio existencial. Ele precisa lidar tanto com um imenso plano do Coringa (Zack Galifianakis) de reunir todos os vilões do panteão do Batman, quanto com a adoção acidental de um jovem garoto (Michael Cera) que quer se tornar seu ajudante. Em Aventura Lego 2 algumas boas piadas são entregues pelo Batman que, segundo seus amigos, "estava sumido" nos últimos tempos.