Cinema

Na mesma semana em que estreia Rei Leão, filme mostra a realidade africana

Por: Luiz Gustavo Vilela, especial para a Gazeta do Povo
Na mesma semana em que estreia Rei Leão, filme mostra a realidade africana

Uma curiosa coincidência acontecerá em alguns cinemas brasileiros neste final de semana. A maioria das salas estará ocupada com Rei Leão, de Jon Favreau, a nova versão da animação clássica da Disney, dessa vez em roupagem fotorrealista. Algumas poucas telas (em Curitiba, nenhuma), porém, deverão exibir Jornada da Vida, pequeno filme francês que examina a experiência de imigrantes africanos que abraçaram o modo de vida europeu, já que passaram toda sua vida no Velho Continente. As duas obras partem do cenário africano, tentando balancear exotismo e drama. Todavia, enquanto a produção da Casa do Mickey está interessada em apresentar um épico shakespeariano – nunca custa lembrar que a saga de Simba é diretamente inspirada em Hamlet –, a contraparte francesa busca o cenário do Senegal para apresentar um homem à sua ancestralidade.

A trama de Jornada da Vida parte de dois pontos distintos do Globo. De um lado, Seydou Tall, vivido por Omar Sy, um popular ator, descendente de senegaleses, que se tornou autor ao publicar suas memórias, que foram em seguida amplamente elogiadas e celebradas. De outro, Yao, papel do jovem estreante Lionel Louis Basse, morador de uma pequena vila no interior do Senegal cuja admiração por Tall só aumentou depois de ter lido seu livro. Os dois se encontram em Dakar, onde o primeiro está a convite de um festival, promovendo a autobiografia, e o segundo irá lhe encontrar, querendo nada mais que um singelo autógrafo. Algo no olhar da criança, em parte por não ter podido trazer seu filho para o país de seus ancestrais, comove o ator, que decide então fazer a jornada até a pequena vila, do outro lado do país.

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O mérito da direção de Philippe Godeau, que também assina o roteiro junto de Agnès de Sacy, está em evitar as armadilhas melodramáticas dos grandes conflitos. Particularmente os típicos dos road movies hollywoodianos. A jornada de Seydou e Yao é mais próxima – ainda que, definitivamente, menos eficiente – do que Nicolas Roeg criou em Uma Longa Caminhada (1971), do que a de uma comédia romântica ao estilo Comer, Rezar e Amar (2010), de Ryan Murphy. Em todos estes filmes a viagem marca a transformação interna dos personagens, que aprendem algo sobre si mesmos enquanto se deslocam pelo espaço. Jornada da Vida se apoia nas bucólicas paisagens agrestes do Senegal, combinadas com as cores e particularidades culturais do país, para ressaltar a experiência do imigrante. Este, descolado de suas raízes, jamais será novamente africano (algo no jeito de se portar o faz se destacar na multidão, como nos lembra Gloria, a personagem de Fatoumata Diawara), mas também jamais consegue se ver como um europeu pleno.

A escalação de Omar Sy, mais conhecido no Brasil pelo seu trabalho em Intocáveis (2011), de Olivier Nakache e Éric Toledano, é ideal para Jornada da Vida, já que ele também é um ator francês de pais africanos – o pai é senegalês e a mãe do país vizinho, a Mauritânia. Ele próprio encarna a história de sucesso da imigração, se tornando funcionalmente integrado à cultura europeia, mas ainda assim sem descolar sua identidade da origem ancestral. É um conflito interno de Seydou, e do próprio Omar em certa medida, que explode na perspectiva histórica. A mesma França que colonizou o Senegal, se aproveitando das riquezas naturais e da força de trabalho barata, impondo sua língua e cultura, agora trata este povo como um “outro”.

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Ao invés de apresentar um drama de imigrantes tendo que balancear sua herança cultural na conturbada França contemporânea, como nos filmes desenhados para ganhar destaque no Festival de Cinema de Cannes, Godeau escolhe outro caminho. O interessante em Jornada da Vida está no exame do ponto de vista senegalês, mesmo sendo uma abordagem superficial e questionável. Omar Sy, apesar de ter todo o componente genético dos povos que lá habitam, nunca é visto como um igual. E a câmera reflete essa diferença a todo o tempo. Ele é “branco”, chega a dizer Yao, demonstrando que a questão racial está muito mais ligada às construções sociais do que a afiliação familiar.

“O destino é Deus viajando escondido”

Seria um exagero dizer que as paisagens do Senegal são mero artifício exótico, mas não demora a ficar óbvio que a câmera de Godeau nunca chega a captar uma imagem que de fato esteja ligada ao conflito interno de Seydou. A aparição recorrente dos icônicos baobás chega a ser fetichista. Se conseguimos acompanhar as transformações pelas quais ele passa através do de seu percurso o mérito é muito mais da delicadeza da composição de Sy, do que pela relação entre a câmera e o mundo que ela busca apreender. O ator, com razão, parece mais preocupado em construir um personagem introspectivo, que primeiro tenta ler o ambiente para depois se posicionar. A obra apenas se beneficia dessa escolha.

Jornada da Vida nunca chega a ter o impacto dos filmes de um diretor africano de fato, como os dirigidos pelo também senegalês Djibril Diop Mambéty, ou os experimentos sócio-cinematográficos do francês africanista Jean Rouch. São, evidentemente, patamares bastante ambiciosos, que de alguma forma estão no horizonte de Godeau, mas, assim como a relação entre Tall e o Senegal, este filme nunca chega lá completamente. E nem poderia. É possível que o diretor tenha se preocupado com seu lugar de fala. Ele, afinal, é um francês branco e, portanto, colonizador. Sabedoria (parcial, pois é uma armadilha das pautas identitárias inescapável dos tempos atuais) que as dezenas de títulos como produtor devem ter lhe dado.

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Ainda assim, é interessante notar como um passeio cosmético por Dakar, tanto do personagem quanto do diretor, aos poucos vai se transformando em outra coisa. Seydou não se aproxima da sua identidade africana por ter simplesmente passeado pelo continente, mas entende, ao menos em parte, seu lugar no mundo ao reconhecer aquilo que não pode mais ser. Sua mudança não está em apenas compreender os códigos culturais locais, entendendo o tamanho da desfeita que há em não estender a visita quando alguém lhe oferece comida, por exemplo. Ela, a mudança, está em aceitar como estes rituais de alguma forma, mesmo que sutilmente, tiveram uma forte influência em sua constituição. Tall percebe quem ele é ao compreender quem ele jamais poderá ser.

Yao tem um amigo que quer ser ator e pergunta para Tall se ele teria alguma dica. O personagem de Sy diz que não possui treinamento formal, mas que era bom em observar as pessoas a sua volta, conseguindo rapidamente replicar seus trejeitos e maneirismos. Sua falta de identidade o tornou um recipiente vazio a ser preenchido pela vida alheia, algo que se reflete na tela – e o cinema tem um longo histórico de celebrar atores cuja maior qualidade é exatamente a capacidade de se permitir habitar por outras personas, como Peter Sellers, por exemplo. A África e o Senegal não oferecem a substância para preencher este vazio, mas ele, pelo menos, agora saberá o tamanho do seu recipiente.

A mente ocidentalizada de Seydou lhe informa que cada acidente no percurso da viagem é apenas isso: um acidente. Uma série de pequenos acontecimentos que poderiam ou não ter acontecido de forma diferente. Uma senhora de uma vila onde ele parou por conta de uma embreagem quebrada, oferecendo uma outra visão de mundo, singelamente, lhe diz: “O destino é Deus viajando escondido”. O caminho para sua nova identidade está aberto.