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Opinião: Turma da Mônica de “carne e osso” funciona tão bem quanto nos quadrinhos

Por: Luiz Gustavo Vilela
Opinião: Turma da Mônica de “carne e osso” funciona tão bem quanto nos quadrinhos

A Turma da Mônica talvez seja uma das maiores propriedades intelectuais do Brasil, se colocando ombro a ombro com O Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, ou mesmo a obra de Machado de Assis. A reverberação e a contribuição cultural são imensas. Ao menos três gerações de brasileiros cresceram vendo o Cebolinha cooptar o Cascão em um Plano Infalível™ para capturar Sansão, o coelho da Mônica, e assim se tornar o “Dono da Lua” – tudo, claro, testemunhado por Magali, que está mais preocupada em mastigar sua melancia com a voracidade que lhe é peculiar. O charme dos gibis sempre esteve em abraçar esta estrutura e alterá-la apenas o suficiente para diferenciar uma história da outra a cada edição.

Ainda que Maurício de Souza, criador da turminha da Rua do Limoeiro, nunca tenha sido avesso a colocar seus personagens em diferentes produtos ou mídias (a animação A Princesa e o Robô ou a série Cinegibi são dois exemplos relativamente conhecidos), só agora eles ganharam uma adaptação com atores reais para os cinemas. Turma da Mônica: Laços estreia esta semana em todo o Brasil, partindo do Romance Gráfico – uso o termo pelas ambições estéticas do projeto – de mesmo nome dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi. O filme, apesar de transpor para as telas a história dos quadrinhos, imprime um tom mais solar, buscando ampliar o público. O resultado, ao contrário do esperado, impressiona.

Na trama, Cebolinha (Kevin Vechiatto), com a ajuda de Cascão (Gabriel Moreira) executa mais um Plano Infalível™ para roubar o coelhinho da Mônica (Giulia Benitte), que passeia tranquilamente com Magali (Laura Rauseo). Dessa vez, porém, ele talvez tenha ido longe demais, abalando as relações entre os integrantes do quarteto. Quando seu cachorro, o esverdeado Floquinho, é sequestrado, a turminha se junta para a missão de resgate. A partir daí acompanhamos tanto as desventuras dos quatro personagens centrais quanto de seus pais, desesperados com o sumiço das crianças. É difícil não perceber os ecos de Os Goonies (1985), de Richard Donner, influência que parece direta aqui.

O que chama atenção de cara é a caracterização dos personagens, dos dentinhos proeminentes da Mônica ao cabelo rebelde do Cebolinha, tudo feito de forma a remeter ao desenho dos personagens nos quadrinhos, mas sem distrair o espectador com exageros caricatos. O visual reforça o caráter historicamente iconoclasta da turminha, em que as peculiaridades individuais são aceitas sem ressalvas. O filme reforça essa dimensão ao incluir a famigerada turma da rua de cima, que fará questão de rir da troca de letras do Cebolinha, ou dos dentes da Mônica, ou não irá suportar o odor corporal de Cascão. O espaço entre as ruas é a linha que separa a ‘tiração de sarro’, manifestação social tipicamente brasileira, do bullying, com potencial destrutivo.

Mérito de Daniel Rezende, que faz de Turma da Mônica: Laços seu segundo longa, depois de Bingo: O Rei das Manhãs (2017), se tornando uma espécie de antropólogo da cultura pop nacional. Seu currículo, claro, é maior que isso, tendo montado os maiores sucessos nacionais, de Cidade de Deus (2002) aos dois Tropa de Elite (2007 e 2010), além de trabalhar com nomes do quilate de Terrence Malick em Árvore da Vida (2011), entre outros tantos trabalhos. Essa experiência garante que o filme não perca ritmo, mantendo o interesse do espectador no desenvolvimento narrativo, permitindo que a trama se espalhe pelo universo de Maurício de Souza.

Mônica arremessa Sansão para atingir Cebolinha e Cascão. O coelho passa por Titi, que está passando uma cantada em uma menina, e também por Jeremias e Xaveco que conversam animadamente. A turminha, em outro momento, caminha pelo cemitério e dá de cara com Cranícola. Cebolinha tem um debate psicodélico com o Louco (Rodrigo Santoro). Nenhum destes elementos está lá apenas de forma decorativa. A Rua do Limoeiro não é apenas um cenário para a aventura, ela está viva, como nas mentes das crianças que cresceram lendo estas histórias. E esta é a maior realização que este Turma da Mônica: Laços poderia alcançar.