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Roger Waters exibe “ele não” 30 segundos antes do limite da Justiça Eleitoral

Por: Sharon Abdalla e Andrea Torrente
Roger Waters exibe “ele não” 30 segundos antes do limite da Justiça Eleitoral

Como era de se esperar, Roger Waters mais uma vez se manifestou contra o presidenciável Jair Bolsonaro durante seu show no estádio Couto Pereira, em Curitiba, na noite deste sábado (27). Sob ameaça de ser multado por desrespeitar a lei eleitoral, o cantor exibiu a escrita “Ele Não” no telão atrás do palco apenas 30 segundos antes do limite estabelecido pela Justiça Eleitoral.

“São 9h58. Nos disseram que não podemos falar sobre a eleição depois das 10h da noite. É lei. Temos 30 segundos. É nossa última chance de resistir ao fascismo antes de domingo. Ele Não! São 10:00. Obedeçam a lei.", disse o ex-líder do Pink Floyd. A manifestação política começou no meio da canção "Welcome to the Machine".

Veja o momento do protesto contra Jair Bolsonaro

O posicionamento dividiu o público: foi um misto de “Ele Não”, vaias e "Mito" até as frases terminarem de passar no telão. Quando a música voltou, o público continuou em parte gritando “Ele Não” e em parte vaiando por cerca de 40 segundos.

bolsonaro roger watersNo meio do show, Waters exibiu mais uma vez a polêmica lista de políticos de direita e extrema-direita. O último nome, o de Jair Bolsonaro, foi coberto com uma tarja preta. Poucos minutos antes, durante a célebre música "Another Brick in the Wall", adolescentes encapuzados e com roupas de presidiários entraram e ficaram em pé no palco. Em seguida, tiraram o capuz, o macacão e mostraram camisetas pretas com escrito "Resist". Quando apareceu no telão a escrita "Resist Neofacism", parte do público voltou a gritar "Ele Não". Outras pessoas entoaram "Fora PT" e xingamentos ao ex-presidente Lula.

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As frases no telão trouxeram também convites a resistir contra Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, à escravidão moderna, ao tráfico de seres humanos, ao antissemitismo, à guerra, entre outros. Nem Donald Trump foi poupado. A cabeça do presidente americano apareceu no corpo de um bebê e de um porco nas imagens projetadas no telão durante a música "Pigs". Durante sua execução, um porco inflável gigante, com a frase "Seja Humano", circulou pela plateia.

Clima foi de festa

Uma experiência sensorial. Assim pode ser descrito o show que o roqueiro britânico Roger Waters apresentou um Curitiba. O palco, que ocupou toda a largura de um dos lados do campo do Couto Pereira, e um telão gigantesco de altíssima definição exaltaram ainda mais as canções que fazem do fundador e ex-baixista do Pink Floyd uma lenda viva do rock mundial.

Apesar da manifestção política, o clima foi de festa. Logo no início da apresentação, a canção "Time" deu o tom do que seria a noite: um show de luzes, efeitos cênicos e uma qualidade sonora cujas caixas de som faziam o corpo e a mente vibrarem. Em todas as músicas, sem exceção, estes elementos estavam fortemente presentes e em link direto com suas letras.

roger waters couto pereira

Quando os acordes de "Wish You Were Here", décima canção do extenso set list soaram, o público foi à loucura e respondeu cantando com Waters e fazendo ecoar o estádio. O ponto alto da noite, no entanto, ficou por conta do clássico "Another Brick in the Wall", partes 2 e 3. As 41.480 pessoas que lotaram o estádio e esgotaram os ingressos entoaram este que é um dos hinos do rock and roll.

Foi nesta música, também, que o tom de protesto, presente em todo o show e em todas as apresentações da turnê "Roger Waters Us + Them" no Brasil apareceu de forma mais contundente. Adolescentes encapuzados e vestidos de presidiários entraram no palco e fizeram uma espécie de fila enquanto Roger entoava a canção. Depois, se despiram do capuz e do macacão e trouxeram a palavra "Resist" escrita em branco sobre uma camiseta preta.

Ao final da canção, o músico deixou o palco para um intervalo de cerca de 20 minutos, tempo no qual frases pedindo resistência contra o "neofacismo", o "tráfico e a escravidão de pessoas", a "poluição dos oceanos" e em "favor dos animais" foram projetadas no telão. A famosa lista que relaciona os neofacistas, segundo Waters, trouxe o nome do presidenciável Jair Bolsonaro com uma tarja preta.

Na segunda parte do show, quatro chaminés se ergueram por detrás do palco, cujo telão projetava a imagem de uma fábrica. Em seguida, rajadas de led cortaram a pista e formaram uma pirâmide sobre a plateia, seguida de raios com as tradicionais cores do prisma que é símbolo do Pink Floyd. Por diversas vezes, o cantor percorreu a extensão do palco para cumprimentar não somente quem estava na pista, mas também nas arquibancadas do Couto Pereira.

Antes do show

Antes mesmo de o show começar o assistente de montagem Markus Vinícius Farias já tinha recordações da passagem de Roger Waters por Curitiba. Trabalhando na montagem do palco e no carregamento dos instrumentos desde às 8h deste sábado (27), trabalho que só termina na manhã deste domingo (28), ele ganhou de presente da produção do show duas baquetas e três palhetas da banda.

"Achei muito massa, pois é a primeira vez que recebo um presente de uma banda. É um reconhecimento do meu trabalho", disse. Além de levar para casa as lembranças, Markus ainda presenteou a chefe e um dos colegas com duas das três palhetas.

Outra felizarda da noite era a pequena Julia Lemos, de 11 anos. Como presente de aniversário, comemorado neste sábado (27), ela ganhou da mãe Maria Augusta Lemos e do pai Ricardo Henrique Ferreira os ingressos para curtirem o show em família.

"Ela se interessa por música, faz aula de violão, conhecia as músicas, mas não sabia quem era o Roger Waters. Por isso atendemos ao pedido dela de vir ao show para comemorar o aniversário", contou Ferreira, que declarou ser fã do artista e do Pink Floyd desde a adolescência.

Relembre como foram as manifestações políticas de Roger Waters em seus shows no Brasil:

São Paulo

No primeiro show da sua turnê no Brasil, no dia 9 de outubro, o músico foi vaiado pelo público que o assistia em São Paulo. As vaias começaram no início do show, no Allianz Park, quando Waters criticou o que ele considera um crescimento do autoritarismo no mundo.

“Vocês têm uma eleição muito importante daqui a três semanas. Sei que isso não é da minha conta, mas devemos sempre combater o fascismo. Não dá para ser conduzido por alguém que acredita que uma ditadura militar pode ser uma coisa boa”, afirmou.

Durante a canção “Eclipse”, as palavras “Ele Não” apareceram enormes no telão. O público reagiu com um misto de poucos aplausos e muitas vaias.

Em outro momento do show, um texto no telão pedia resistência contra os neofascistas, exibindo uma lista de países e políticos que incluía “Brasil – Jair Bolsonaro”.

O músico fez outro show em São Paulo, no dia 10 de outubro. Um coro na pista começou a gritar “Ele Não” e a arquibancada reagiu com vaias. Novamente foram exibidos no telão nomes de líderes como Vladimir Putin, da Rússia, e Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa. Mas, ao contrário do primeiro dia, em que o nome de Jair Bolsonaro fechava a lista, podia-se ler: “Ponto de vista político censurado”. O nome do candidato do PSL à Presidência apareceu só depois no telão.

Brasília

Na noite de 13 de outubro, o músico exibiu novamente a tela em que lista políticos como neofascistas, em show no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Mais uma vez, no lugar onde o nome de Jair Bolsonaro apareceu na primeira apresentação de Waters em São Paulo, havia uma tarja com os dizeres “ponto de vista político censurado”.

A insinuação foi o suficiente para provocar uma batalha de gritos “Ele Não” e “Ele Sim”, vaias e aplausos no estádio.

Salvador

Na capital da Bahia, o astro britânico levou ao palco da Arena Fonte Nova, na noite de 17 de outubro, 12 crianças em situação de vulnerabilidade social. Vestidos como presidiários americanos, de macacão laranja e capuzes pretos na cabeça, as crianças também vestiam uma camiseta trazendo o escrito “Resist”.

Waters voltou a exibir no telão a frase “ponto de vista censurado” no show de Salvador. O músico também fez uma homenagem ao mestre Moa do Katendê, assassinado no dia 7 de outubro após uma discussão sobre política.

Rio de Janeiro

Em seu show no Rio de Janeiro, no dia 24, Waters prestou homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março. Ele chamou ao palco, no Maracanã, a viúva de Marielle, Mônica Francisco, a irmã Anielle Franco e a filha da vereadora, Luyara Santos. O músico vestia uma camisa com os dizeres “Lute como Marielle Franco”.

No show do Maracanã, por diversas vezes, eleitores contrários a Bolsonaro puxaram o coro “Ele Não”, mas foram abafados por vaias dos apoiadores do capitão reformado.

Um grupo de 12 crianças e adolescentes do projeto social “EducaGente” participou do coro em “Another Brick in the Wall (Part 2)”.