Cinema

Sessão especial de cinema debate os resquícios da ditadura militar no Brasil

Por: Amanda Milléo
Sessão especial de cinema debate os resquícios da ditadura militar no Brasil

O reencontro de Joana, uma adolescente que vive exilada com a família em Paris, na França, com os traumas deixados pela ditadura militar brasileira na sua história foi o mote que levou os assinantes da Gazeta do Povo ao cinema na manhã deste sábado (22).

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Em parceria com o Espaço/Z e o Cinesystem, o Clube da Gazeta do Povo exibiu o filme “Deslembro”, primeira ficção da documentarista e roteirista Flávia Castro, para cerca de 20 assinantes, que em seguida participaram de um debate com o jornalista e crítico Marden Machado e Clóvis Gruner, professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Depois do filme, o crítico Marden Machado e o historiador Clóvis Gruner debateram o contexto histórico da narrativa com os assinantes da Gazeta do Povo (Foto: Amanda Milléo / Gazeta do Povo)

Joana, assim como muitos brasileiros que viveram apenas parte da história recente do país, está disposta a se esquecer do passado. Tanto que a cena inicial mostra a jovem rasgando o passaporte, documento que a levaria de volta ao Brasil com a família após a Anistia, final da década de 1970, começo de 1980. O medo em voltar se traduz também no medo em descobrir o que houve com seu pai, Eduardo, um dos “desaparecidos” do período.

“O filme retrata a experiência da ditadura em pessoas que viveram de outra forma o momento, como a Joana. Há um lugar-comum entre os historiadores que o passado é uma terra estrangeira, o que nem sempre é verdade. Às vezes é um vizinho próximo, distante a uma cerca baixinha, como a ditadura. É um passado/presente ainda incômodo, não elaborado. Para nós não é uma terra estrangeira, como não é para a Joana”, comenta Clóvis durante o debate após o filme para os assinantes.

Uma das participantes do debate, Lislei Charan, servidora pública de 38 anos, percebeu o silêncio que o filme traz sobre o assunto, já que foi conduzido pela perspectiva da adolescente, mas destaca que esse também é um sentimento atual no país: “A mãe da personagem também foi deixando o assunto de lado, como acontece hoje. Quem não viveu, não sabe direito, e muita gente só prega o lado bom, da ordem, da segurança, mas esconde e não quer se lembrar do lado ruim”, cita.

Lislei e Marcelo Charan vieram pela primeira vez à sessão especial de cinema para os assinantes da Gazeta do Povo (Foto: Amanda Milléo / Gazeta do Povo)

A lembrança da ditadura é resgatada pela figura da avó, representada pela atriz Eliane Giardini, e pela música brasileira que a personagem se espanta ao reconhecer. “A Joana passa a se reestabelecer com o Brasil e com o pai pela música. É o samba que o amigo do pai canta para ela, é a música do Noel Rosa que embala o seu romance, e é a figura do Ernesto, o namorado, que não gosta de rock, mas prefere o samba”, explica o crítico, Marden Machado.

Tanto o filme quanto o debate são fundamentais para os dias atuais, segundo Marcelo Charon, servidor público de 40 anos, assinante e participante do debate. “Achamos a proposta muito legal, por ser também um filme nacional e de assunto importante, em voga. Ainda mais hoje em dia, em que se discute sobre a mudança na terminologia da época, deixando de lado o termo ‘ditadura’. É importante para relembrarmos”, comenta Marcelo.

Sessões especiais de cinema

As sessões especiais de cinema do Clube da Gazeta do Povo acontecem uma vez ao mês. Para participar, os assinantes devem ficar atentos ao site do Guia da Gazeta do Povo para garantir a inscrição gratuita.