Cinema

Filme Anna traz história de mais uma bela assassina do francês Luc Besson

Por: Luiz Gustavo Vilela
Filme Anna traz história de mais uma bela assassina do francês Luc Besson

O francês Luc Besson tem um fetiche por jovens bonitas, magricelas e mortais. Esta preferência, digamos, estética lhe permitiu criar toda uma galeria de femme fatales ao longo de seus anos como diretor. Desde Nikita: Criada Para Matar (1990), hoje um clássico cult, com duas séries televisivas derivadas, até Lucy (2014), em que Scarlett Johansson transcende espaço e tempo despois de consumir drogas, passando, claro, por O Profissional (1994), filme que revelou Natalie Portman para o mundo. Anna – O Perigo Tem Nome, que estreia na próxima semana em todo o Brasil, é a mais nova adição em sua lista de assassinas problemáticas e cheias de estilo.

Faz sentido, por um lado, que Besson retorne para sua zona de conforto. Seu trabalho anterior, o neo-noir espacial Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017), foi a mais cara produção europeia até então, custando mais de 200 milhões de dólares – o diretor chegou a abrir mão de seu salário para poder viabilizar a empreitada. Caso fizesse sucesso, a ideia era desenvolver um contexto de produção industrial de cinema no Velho Continente que rivalizaria com Hollywood. O filme, apesar de ter seus bons momentos, foi um fracasso (para os padrões dos grandes estúdios, já que a bilheteria empatou o orçamento). Sem poder fazer continuações de Valerian, resta a Besson repetir o que sempre fez bem.

Anna, vivida por Sasha Luss, é resgatada de uma vida de abuso e consumo de drogas para ser treinada em espionagem, combate e técnicas de assassinato. Assim como Nikita, com a diferença de que a mais nova personagem é uma russa recrutada pela KGB e não uma agência governamental genérica. Sua identidade secreta é a de uma jovem modelo em uma vida de luxo e festas, o que lhe dá acesso à boa parte de seus alvos. A trama é ambientada no final dos anos 80, com o fim do Bloco Soviético servindo de pano de fundo, ao mesmo tempo em que reforça o retorno de Besson a suas origens. Esse, afinal, é o mesmo período em que ele começou a dirigir filmes.

A intenção de Besson, porém, não é apenas repetir Nikita. Anna – O Perigo Tem Nome tem aspirações mais elegantes do ponto de vista estético-narrativo. As cenas de ação, ainda que não pareçam necessariamente novas, têm vida e urgência. A sequência do restaurante, a primeira e mais longa delas, colocada em um momento em que ainda não vimos como Luss se vira em combate corpo a corpo, faz o público temer pelo seu destino, o que é uma sensação sempre bem-vinda em um filme de ação. É, em parte, o que a limitação orçamentária e tecnológica impedia de ser executado em Nikita, mas lidando em um universo mais realista do que Lucy. É na estrutura da trama, porém, que estão as maiores ambições de Besson.

Todo o filme é construído de forma pendular, avançando a retrocedendo no tempo. Cada nova reviravolta na trama é imediatamente seguida por um letreiro no qual se lê “seis meses antes”, dando a vez a um longo flashback que irá explicar o que acabamos de ver. Para Besson essa estratégia é um artifício de estilo, telegrafada logo no começo do filme em que Anna aparece como uma pobre vendedora de matrioskas, as bonecas russas que se encaixam em sequência, as menores dentro das maiores – apesar de ser uma metáfora relativamente óbvia, o diretor e roteirista faz questão de explicá-la didaticamente, duvidando da capacidade de seu público compreender por si só.

O que começa interessante, porém, logo se torna enfadonho. Filmes de espionagem, subgênero que este Anna se subscreve, costumam ter uma grande reviravolta final, que se sustenta ou não, dependendo da habilidade do roteirista. Cada novo “seis meses antes” (e, creia-me, são muitos), portanto, evoca a sensação de que a trama chega ao desfecho. Como isso acontece a cada 15 minutos, a impressão é que as duas horas de exibição não acabam nunca.

Mulheres e mulheres

Luc Besson foi o responsável por, praticamente sozinho, viabilizar um cinema de ação em que as mulheres podem ser as protagonistas. Em particular, ao não sacrificar a feminilidade para justificar o desempenho nas cenas de ação, como em muitos faroestes ou na franquia Alien – ainda que de forma repetida ele recorra à batida e problemática fórmula do abuso sexual como fato definidor das personalidades. O cinema, porém, já avançou bastante desde o tempo em que Nikita era transgressor. Filmes como Kill Bill (2003 e 2004), de Quentin Tarantino, A Vilã (2017), de Byung-gil Jung, ou Atômica (2017), de David Leitch, são mais interessantes, tanto discursiva quanto visualmente, apesar de, em muitos sentidos, só existirem por causa do trabalho do diretor francês. Isso para nem falar nos recentes – e igualmente intrigantes – filmes baseados em quadrinhos.

Na comparação com Atômica, em particular, Anna empalidece. Ambas, afinal, são tramas de espionagem ambientadas no contexto dos últimos momentos da Guerra Fria. O filme de Leitch, porém, tem sequências de ação mais elaboradas visualmente – a cena do cinema e o plano-sequência final já entraram para a história do cinema –, além de apresentar uma Alemanha Oriental que se parece com a ideia que temos de um país em frangalhos. A Moscou e a Paris de Besson, ao contrário, parecem com as atuais, não com o que foram 30 anos atrás. Além disso, a Lorraine Broughton de Charlize Theron é uma personagem consideravelmente mais coesa do que Anna, mesmo que Luss tenha uma quantidade maior de elementos para trabalhar.

Besson ainda tenta rearticular seus clichês para o contexto atual. Anna, ao contrário de Nikita, não vê o trabalho como um fim em si, mas como um meio para conquistar sua própria independência. As agências de espionagem, por outro lado, a percebem apenas como uma ferramenta. Parte da metáfora da boneca russa está na definição da identidade da personagem para além dos contextos de dominação – do namorado abusivo, dos espiões manipuladores, das agências de modelos exploradoras, etc. Parte do problema está no fato de que a boneca do lado de fora não parece interessante o suficiente para que o espectador queira abrir para ver como são as outras.