Cinema

Novo filme do Woody Allen é sem rumo, como uma roda gigante

Por: Washington Post
Novo filme do Woody Allen é sem rumo, como uma roda gigante

O inspirado nos anos 1950 “Roda Gigante” – novo longa de um dos mais celebrados diretores da atualidade, Woody Allen –, não é um ótimo filme, mas tem que se admitir que o espectador é avisado. Narrado por Justin Timberlake, na pele Mickey Rubin, um salva-vidas e aspirante a dramaturgo em Coney Island, Nova York, o filme, que estreou no Brasil nesta semana, começa com o aviso de que a historia que estamos prestes a ver inclui – suspiro – simbolismo. Se você não gosta disso, Mickey diz, será complicado.

É um sintoma inevitável das pretensões do narrador da história, resultado de seus estudos de pós-graduação em Drama Europeu na Universidade de Nova York (Allen, presumivelmente a inspiração para Mickey, também parece se vangloriar da companhia de Shakespeare e Sófocles, mas o filme pouco avança nesse sentido). O que esse galenteador eloquente não avisa é o quão pesado esse simbolismo será, ou, ainda, com que fins melodramáticos ele será empregado, neste conto de luxúria bem atuado, mas maçante, sem sentido e decepcionante na maior parte do tempo.

A metáfora das chamas – na forma de um incendiário de 10 anos, cuja piromania é frequentemente acompanhada pela música "Kiss of Fire", de Georgia Gibbs – é desenfreada, e o filme é estranhamente “mal passado”.

A história contada por Mickey fala de um triângulo amoroso – no qual ele não é um mero observador, mas também participante, em uma sequência de conexões em que as paixões de duas mulheres colidem como ondas na praia. De um lado está Ginny (Kate Winslet), uma ex-atriz que agora trabalha como garçonete em um restaurante de frutos do mar e está em um casamento infeliz com Humpty (Jim Belushi), um operador de carrossel e alcoólatra em recuperação.

Carolina (Juno Temple), filha de Humpty de seu primeiro casamento, é rival de Ginny pelo afeto de Mickey, que corteja as duas mulheres até que as circunstâncias conspiram para resolver sua indecisão romântica por ele. Esta "solução" vem na forma de mafiosos, interpretada pelos valentões italianos profissionais Steve Schirripa e Tony Sirico de "The Sopranos", que estão à procura de Carolina. Ela parece fugir de seu próprio casamento infeliz, com um Mafioso de quem se tornou informante.

Se isso tudo parece desnecessariamente complicado e irremediavelmente clichê, é porque é. Uma subtrama sobre o filho pirralho de Ginny e Humpty, Richie (Jack Gore), que coloca fogo para cima e para baixo na praia – e no consultório de seu psiquiatra – só piora a situação, dado que não serve a propósito narrativo algum, exceto para ressaltar que o tema de Allen, um desejo perigoso. O diretor ainda filma uma cena com Ginny encoberta bizarramente por nuvem de fumaça, caso você não tenha entendido seu ponto.

A boa notícia é que Timberlake, Winslet e Temple se saem bem na tela e que o design da produção, feito pelo colaborador de longa data de Allen, Santo Loquasto, é lindo de uma forma extravagante. As cenas se alternam entre luzes brilhantes do sol, sem filtro, e um neon vermelho lúgubre.

Mas a história em si é repetitiva, bem como a roda gigante que dá nome ao filme, e que é mostrada, de forma tão pitoresca, aqui e ali, e de novo, no plano de fundo. Tal como o brinquedo, a visão oferecida por “Roda Gigante” pode ser cênica, mas não vai a lugar nenhum – e lentamente.