Cinema

Premiado filme paraguaio As Herdeiras chega aos cinemas de Curitiba

Por: Ricardo Sabbag Zipperer
Premiado filme paraguaio As Herdeiras chega aos cinemas de Curitiba

O cinema sul-americano é pouco pródigo em sua produção além do que se faz no Brasil e, principalmente, na Argentina. Destacam-se por vezes filmes chilenos, colombianos e peruanos que vez por outra alcançam destaque internacional. Mas, fora disso, não há uma grande tradição sul-americana que conquiste espaço nos grandes festivais de cinema do mundo.

Neste ano, um filme sul-americano, vindo mais precisamente do Paraguai, surpreendeu quando conquistou o Urso de Prata do Festival de Cinema de Berilm, o segundo mais importante da Europa, atrás somente do Festival de Cannes. As Herdeiras é o primeiro longa do diretor paraguaio Marcelo Martinessi, que, antes disso, era conhecido pela direção de três curtas-metragens que também tiveram boa repercussão internacional.

As Herdeiras não é uma história que poderia se chamar de tipicamente sul-americana. As personagens não são extravagantes, não há grandes paisagens tampouco música. Não fosse pelo espanhol típico da região, o filme poderia se passar como sendo de outra nacionalidade, muito pela herança direta que tem do cinema europeu.

A primeira cena do longa dá o tom do que o espectador pode esperar. Por uma porta entreaberta, a protagonista do filme, Chela (Ana Brun), observa uma mulher que está em sua casa olhando a mobília, escolhendo algo para comprar. Ela desdenha de algumas coisas, se interessa por outras, faz perguntas irritadas à empregada da casa. É uma cena longa, silenciosa, em que o que se enxerga conta mais do que o que se diz.

A história de As Herdeiras é a de duas mulheres que vivem juntas em Assunção há décadas. São herdeiras de famílias ricas que precisam se desfazer de seus bens para manter seu padrão de vida. Chela é discreta, quieta, enquanto Chiquita (Margarita Irun) é faladora e esperta. A ponto de estar na iminência de ser presa por fraude em suas transações comerciais.

A ausência de Chiquita cria um espaço na vida de Chela que, incialmente, ela não sabe como ocupar. Acaba se tornando uma espécie de motorista particular de um grupo de mulheres ricas que saem para jogar cartas umas nas casas de outras. É quando ela conhece Angy (Ana Ivanova), que vai colocar sua vida de pernas para o ar.

O silêncio e o ritmo lento da história desse triângulo amoroso só é quebrado pelas visitas de Chela a Chiquita na penitenciária, retratada como uma típica cadeia latina. Enquanto Chela tem dificuldades para visitar a companheira naquele ambiente, Chiquita parece tranquilamente adaptada àquela realidade ruidosa. Da prisão, faz planos do que mais vender do patrimônio das duas.

Essa irrupção no cotidiano de Chela acaba por afastá-la do convívio da parceira de anos para a nova amizade com Angy, mais jovem, vívida e aventureira. Ao seu lado, ela sente o ímpeto de explorar a cidade, seus arredores, e fazer coisas novas.

As Herdeiras é um filme para quem não se incomoda com uma obra silenciosa, de ritmo cadenciado, cuja força é uma história singela sobre mulheres complexas. É, também, um excelente exemplar de uma cinematografia paraguaia que, mesmo incipiente, mostra que tem muito a dizer.