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Duas Rainhas reenquadra a relação entre Mary Stuart e Elizabeth I pelo viés da política de gênero

Por: Luiz Gustavo Vilela
Duas Rainhas reenquadra a relação entre Mary Stuart e Elizabeth I pelo viés da política de gênero

O título nacional Duas Rainhas (Mary Queen of Scots, 2018), de Josie Rourke, filme que estreia nesta semana em Curitiba, faz um pouco de propaganda enganosa em relação à dinâmica da trama. Acompanhamos aqui, afinal, a trajetória de Mary Stuart (Saoirse Ronan) do momento em que ela retorna da França, onde passou toda sua vida, para sua Escócia natal em diante. Sua presença ali faz com que o balanço de poder seja alterado, já que o país se encontra em uma relação tensa com a Inglaterra, governada por Elizabeth I (Margot Robbie).

Então, em um sentido estrito, o nome não é de fato errôneo. Existem, claro, duas Rainhas em disputa sucessória e que por isso entrarão em atrito. O filme, porém, é focado em Mary, como indica o título original. Mais ou menos como nas duas versões anteriores “mais nobres” (foram muitas adaptações, entre peças, filmes e séries de TV) dessa história, de 1936 e 1971, com Katherine Hepburn e Vanessa Redgrave, respectivamente, no papel central.

O foco está em usar a trajetória de uma como plataforma para compreender a história da outra. Temos então uma monarca estabelecida em Elizabeth, que precisou se masculinizar no imaginário coletivo para conseguir reinar sem ser questionada, abrindo mão do que ela mesma considera como características femininas – o que é potencializado pela varíola que danifica sua pele. Essa masculinização, em parte por não ser marcada visualmente (ela precisa continuar usando vestidos e maquiagem, afinal), é explicitada em um ótimo diálogo travado com seu conselheiro mais próximo, William Cecil (Guy Pearce). Em contraste, Mary tenta usar sua feminilidade como artifício para conquistar e garantir seu poder, no caso das duas simbolizado no trono inglês e a garantia da linha sucessória. Considerando o desfecho da trama, podemos considerar um empate técnico, inclusive.

A inovação narrativa está no clímax do filme, que irá colocar Mary e Elizabeth frente a frente, algo que boa parte dos historiadores tende a concordar que não aconteceu. John Guy, autor de Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart, livro que serviu de base para o roteiro, discorda. Ele alega ter encontrado evidência documental de que as duas teriam se encontrado e mais: que elas teriam uma relação de cumplicidade, ainda que sempre desconfiadas uma da outra. Daí a necessidade de escalar duas atrizes da estirpe de Ronan e Robbie, ambas já colecionam prêmios e indicações ao Oscar (a vitória é apenas uma questão de tempo).

Com este panorama o roteiro de Beau Willimon, acostumado com tramas políticas pelos anos como produtor e roteirista de House of Cards, e a direção de Rourke, que estreia na função no cinema, mas já veterana das peças de época londrinas, usam essas duas personagens para fazer um duro contraste sobre o que significa ser uma mulher em uma posição de poder. Religião e hereditariedade – há toda a questão do protestantismo versus catolicismo como pano de fundo histórico – são artifícios usados pelos seus inimigos de forma arbitrária para questionar a legitimidade delas no trono. Os casamentos se tornam formas de controle social e guerras são travadas por sempre haver homens que não aceitam ser liderados por mulheres.

Rourke faz questão de apontar como o corpo feminino se torna espaço de disputa política ao evidenciar a camisola manchada de sangue menstrual ou a obsessão das cortes inglesa e escocesa com gravidez – é bastante tocante o momento em que Elizabeth, impossibilitada de ser mãe pela idade e por ter contraído varíola, usa uma parte da saia para ver como seria sua sombra caso estivesse grávida. Honra e lealdade são valores apenas enquanto isso significar a manutenção de um homem no poder, segundo o filme.

Cinema e monarquia

Ao final de Legítimo Rei (Outlaw/King, 2018), de David Mackenzie, um letreiro nos informa que a rebelião de Robert The Bruce (Chris Pine) para assegurar a soberania escocesa contra o domínio inglês foi o que garantiu que a linhagem escocesa unisse os dois países. Três séculos depois, Elizabeth se torna a última dos Tudor, passando o trono para James I, filho de Mary Stuart, dando assim início ao reinado da Casa Stuart. Robert, claro, segue com a rebelião de William Wallace, o mesmo retratado por Mel Gibson em Coração Valente (Braveheart, 1995).

O filme de Mackenzie busca reabilitar a imagem de Robert, retratado como traidor por Gibson. Algo semelhante acontece em Duas Rainhas, já que a relação entre as duas aparece em Elizabeth: A Era de Ouro (Elizabeth: The Golden Age, 2007), de Shekhar Kapur, trabalho que devolve Cate Blanchet ao papel que a consagrou no final dos anos 90. A Mary Stuart de Samantha Morton aparece como um mero peão papista para tentar mitigar o protestantismo inglês, religião “criada” por Henrique VIII para poder se separar e, assim, garantir a linhagem e o poder. Henrique VII, não custa lembrar, é o pai de Elizabeth e teve sua história retratada inúmeras vezes – a minissérie Wolf Hall (2015) é uma boa porta de entrada para saber mais sobre essa história.

A diferença de abordagem entre Duas Rainhas e Elizabeth: A Era de Ouro mostra como o cinema é capaz de “sequestrar” os fatos históricos para usar como veículo ideológico. Os mais de 10 anos que separam os dois filmes também exemplificam como o contexto cultural mudou. Antes as mulheres, por mais poderosas que fossem, eram colocadas como rivais. Agora, a relação é mais complexa e a exploração da nuance é o que move a trama. Por isso, talvez, valha a pena a comparação com A Favorita (The Favourite, 2018), de Yorgos Lanthimos, focado Ana da Grã-Bretanha, bisneta de Jamie I, o filho de Mary Stuart.

Ainda que ambos sejam filmes contemporâneos que investigam a proeminência feminina diante do poder, os 150 anos que separam as trajetórias entre Mary e Ana marcam uma diferença de abordagem. O simbolismo do trono é poderoso suficiente para sustentar uma rainha no Século XVII, coisa que não ocorria no século anterior. Como são filmes lançados em 2018, porém, resistem ao clichê de retratar as mulheres como facilmente manipuláveis, figuras dóceis e inocentes a serviço dos interesses da corte. Mesmo Ana (Olivia Colman), que devota seus afetos e relega poder a suas confidentes próximas, é dona de uma agenda própria e capaz de tomar decisões que irão mover as relações entre seus países.

O contexto cultural atual não permite que uma produção sobre figuras histórias tão proeminentes como Mary, Elizabeth ou Ana as apresente de forma leviana. Por isso é quase impossível refletir sobre elas sem levar em conta seu gênero e o tipo de desafios que elas enfrentaram a partir disso. Duas Rainhas, apesar de retratar eventos acontecidos no apagar das luzes do Século XVI, é um filme claramente interessado nas questões contemporâneas.