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Roteiro histórico: onde encontrar o legado dos alemães em Curitiba

Por: Bruno Gabriel, especial para a Gazeta do Povo
Roteiro histórico: onde encontrar o legado dos alemães em Curitiba

O legado dos imigrantes é facilmente visto quando se anda pelas ruas do Centro de Curitiba, principalmente por conta da arquitetura da região. Porém, cada vez se discute menos a influência que cada povo teve no desenvolvimento da capital paranaense. Por exemplo, quais foram as contribuições materiais que o povo alemão trouxe para Curitiba? Ainda é possível visitar pontos turísticos que resgatem a cultura germânica?

Para responder a questões como essas, a turismóloga Bianca Berwig Silva, que é descendente de alemães, realizou um estudo sobre essa influência étnica em Curitiba. Sua pesquisa chegou a servir como base para a realização de um tour pelo Centro Histórico da capital, no qual se evidenciavam traços da imigração germânica nas construções locais. “É forte a influência deles no que conhecemos da cidade hoje, o que fica claro nas técnicas construtivas das edificações. Mas isso também está presente na culinária, na religião e em manifestações culturais”, afirma.

Fachada do edifício onde moraram as famílias Hauer e Frischmann. Foto: Bruno Gabriel

Bianca explica que os alemães chegaram à capital paranaense em 1830, mas que outras ondas de imigração aconteceram durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Para se estabelecer na cidade, era comum que criassem grupos isolados, com a construção das próprias escolas, igrejas e clubes. “A concentração dessa imigração acabou ficando mais clara em alguns dos bairros da cidade, como São Francisco, Hauer, Pilarzinho e Vista Alegre”, cita.

No São Francisco, uma das localidades que concentravam o maior número de famílias germânicas era a Rua 13 de Maio, que chegou a ser conhecida como Rua dos Alemães. Isso fez com que muito do que criou nas redondezas tivesse a influência desses imigrantes. Perto dali, por exemplo, foi construído o Colégio Progresso. Sediado onde hoje se encontra a Praça 19 de Dezembro, ele foi fundado por imigrantes evangélicos-luteranos vindos de Joinville, na segunda metade do século 19. A maior parte dos descendentes dos alemães luteranos costumava matricular os filhos na escola, que foi destruída devido ao alargamento da Rua Barão do Serro Azul, na década de 1930.

Praça 19 de Dezembro, onde funcionava o Colégio Progresso. Foto: Divulgação

Um olhar mais atento ao entorno da Praça Tiradentes também traz a percepção de elementos trazidos com os imigrantes alemães. O primeiro deles é a fachada da antiga Farmácia Stellfeld. Como o próprio nome indica, ela pertenceu ao imigrante alemão Augusto Stellfeld, sendo também sua moradia e de sua família. Construída em 1866, utilizou uma técnica construtiva característica de edificações germânicas, o teto inclinado. A pesquisadora Bianca Berwig Silva também chama a atenção para o relógio do sol, localizado na parte superior da casa. Hoje, a construção abriga três lojas, entre elas a Casa China.

Fachada da antiga Farmácia Stellfeld. Foto: Bruno Gabriel

Quase ao lado, onde atualmente se vê a loja Riachuelo, existia o Palácio Frischmann. Construído entre 1898 e 1901, recebeu a família Hauer e, mais tarde, foi comprado por Francisco Frischmann.  Diversos comércios funcionaram no prédio, que também servia como residência para tais famílias alemãs. Bianca ainda cita a Galeria Schaffer, localizada na rua XV de Novembro. Ela foi fundada em 1981 e recebeu diversos tipos de lojas e empreendimentos, sendo os principais o Cine Groff e a Confeitaria Schaffer.

Parte do prédio original da Confeitaria Schaffer, na Rua XV. Foto: Letícia Akemi/Arquivo Gazeta do Povo

A pesquisadora comenta que nem sempre os elementos arquitetônicos mencionados são reconhecidos como parte do legado étnico alemão. Para ela, é necessário que exista maior incentivo aos roteiros turísticos locais, com o entendimento do que cada espaço representa.  “Vejo a necessidade da valorização do legado étnico alemão da cidade como parte da história da formação da cidade de Curitiba”, diz.

Pensando nisso, indicaremos a seguir alguns pontos ligados à imigração alemã e que podem ser facilmente visitados na capital.

Relógio centenário na Rua Riachuelo

Relógio instalado pelo alemão Roberto Raeder. Foto: Bruno Gabriel

Quem passa pela Rua Riachuelo, quase esquina com a Travessa Tobias de Macedo, dificilmente nota um relógio instalado em uma das edificações históricas da região. O prédio foi sede da Relojoaria Raeder, propriedade do imigrante alemão Roberto Raeder. Ele adquiriu a loja em 1893, instalando em sua frente um relógio trazido diretamente da cidade de Leipzig (Lípsia). Atualmente, o relógio não funciona mais, mas sua estrutura continua disponível para quem quiser vê-la.

Bosque Alemão

Jardim e portal do Bosque Alemão. Foto: Cassiano Rosário/ Arquivo Gazeta do Povo

O bosque de 38 mil m² foi inaugurado em 1996 como uma forma de homenagem aos imigrantes alemães que se instalaram em Curitiba. Possui diversos equipamentos relacionados à cultura germânica, como o oratório de Bach (réplica de uma igreja presbiteriana), o jardim externo, a Torre dos Filósofos, o Caminho dos Contos e o frontão da Casa Milla (representação de uma das edificações da Rua Barão do Serro Azul, relacionada à imigração alemã).

Comunidade do Redentor

Comunidade Luterana do Redentor, na Rua Trajano Reis. Foto: Bruno Gabriel

Fundada por imigrantes alemães em 1866, a Comunidade Luterana do Redentor teve o primeiro templo construído dez anos mais tarde, seguindo o estilo enxaimel, com hastes de madeira. O projeto do templo foi feito pelo engenheiro alemão Gottlieb Wieland. Contudo, o templo não resistiu e teve de ser reconstruído em 1894. A nova construção foi feita em alvenaria, contando com uma torre. Este templo passou por algumas reformas, mas continua preservado na Rua Trajano Reis, no centro da cidade.

Igreja de Cristo       

    

Igreja de Cristo, localizada na Rua Inácio Lustosa. Foto: Daniel Castellano / Arquivo Gazeta do Povo


Conhecida como “igrejinha”, a Igreja de Cristo (Christkirche) foi construída em 1913. Fica localizada na Rua Inácio Lustosa e até hoje é amplamente frequentada por descendentes alemães. Um dos motivos para isso é o fato de preservar as tradições e elementos litúrgicos da doutrina luterana. Alguns dos cultos são feitos na língua alemã. Sua história já foi contada pela Gazeta do Povo

Padaria América

Padaria América, na Trajano Reis. Foto: Divulgação / Padaria América

Muitos não sabem, mas apesar do nome, a Padaria América foi fundada por alemães. Em 1913, ela recebeu a nomenclatura por conta de sua localização, na Rua América, atual Trajano Reis. O empreendimento da família Engelhardt vendia – e ainda vende – diversos tipos de pães e doces tradicionais alemães, como pão pumpernickel, cuca de uva, torta alemã, bolachas de natal e stollen, um tipo de pão com frutas.  A Gazeta do Povo já trouxe um pouco dessa história

Bar do Alemão             

   

Entrada do Bar do Alemão. Foto: Divulgação

O Bar do Alemão talvez seja o local mais famoso dos associados à cultura alemã em Curitiba. Originalmente chamado Schwartzwald, o estabelecimento traz pratos típicos da etnia, como joelho de porco, salsicha vermelha e marreco, além dos chopps servidos em canecos semelhantes aos que são encontrados na Oktoberfest, importante festa germânica. Fundado em 1979 por descendentes de alemães, teve o cardápio original criado pela esposa de um diplomata da Alemanha. Atualmente o bar também ocupa a Casa Vermelha, que serviu como loja alemã de ferragens.

Cantinho do Eisbein

Joelho de porco, servido com acompanhamentos. Foto: Divulgação

O restaurante Cantinho do Eisbein foi fundado em 1986 por Egon Taruhm, descendente de avós alemães.  O estabelecimento se autointitula como “um pedacinho da Alemanha em Curitiba”, trazendo pratos típicos da culinária da imigração alemã, como eisbein cozido e assado (joelho de porco), kassler (bisteca de porco defumada), hackerpeter (carne de onça), além de marreco recheado.

Catedral Metropolitana Basílica Menor

A construção da Catedral contou com operários alemães. Foto: Daniel Castellano / Arquivo Gazeta do Povo

Embora não seja exatamente uma referência de construção alemã, a Catedral Basílica da Praça Tiradentes pode ser considerada um resultado da imigração germânica. A pesquisadora Bianca Berwig Silva conta que no século 19, as autoridades públicas optaram pela reconstrução da Igreja Matriz. Assim, organizou-se uma comissão de três engenheiros para o projeto, sendo um deles o alemão Gottlieb Wieland. Além disso, grande parte dos operários da obra eram imigrantes alemães e a ergueram no ano de 1893. “Acredita-se que muitos dos detalhes do projeto tenham sido adaptados pelos pedreiros alemães, que faziam seu trabalho conforme em sua terra natal”, relata Bianca. A catedral também conta com o maior órgão da cidade, o instrumento foi trazido da Alemanha.

Clubes e sociedades

Como era comum que os imigrantes alemães criassem grupos isolados, algumas das sociedades que existem até hoje em Curitiba têm ligação com essa comunidade.  Os nomes incluem Sociedade Thalia, Clube Concórdia (hoje incorporado ao Clube Curitibano), Clube Duque de Caxias, Clube Rio Branco, Graciosa Country Club e o Coritiba Foot Ball Club.

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