Cinema

Diretor de O Sexto Sentido estreia filme que fecha triologia prometida há 20 anos

Por: Marden Machado
Diretor de O Sexto Sentido estreia filme que fecha triologia prometida há 20 anos

Nem sempre é bom quando um artista chama muito a atenção em seus primeiros trabalhos. Quando o cineasta realizou O Sexto Sentido, em 1999, M. Night Shyamalan foi apontado como gênio. Por conta da grande surpresa daquele filme, criou-se, a partir daí, uma enorme expectativa em relação aos seus trabalhos seguintes, muitos deles irregulares, é verdade. O lançamento nesta semana de Vidro encerra uma trilogia prometida desde o ano 2000, quando ele escreveu e dirigiu Corpo Fechado. A referida trilogia parecia esquecida, até que em 2016, com Fragmentado, uma cena inesperada no finalzinho despertou novamente a expectativa. E, claro, muitas teorias foram elaboradas pelos fãs.

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No final dos anos 1990 Shyamalan era um ilustre desconhecido. Ele havia escrito e dirigido apenas dois filmes: Playing With Anger, em 1992, onde também era o ator principal; e Olhos Abertos, em 1998. O primeiro foi pouquíssimo visto. O segundo deu a visibilidade necessária para emplacar o terceiro longa, O Sexto Sentido, que completa duas décadas este ano. A partir daí, tudo mudou.

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M. Night nasceu Manoj Nelliyattu Shyamalan, na Índia e foi criado nos Estados Unidos. Mais precisamente na cidade de Filadélfia, na Pensilvânia, região onde costuma situar suas histórias. Roteirista e diretor habilidoso, ele contou em O Sexto Sentido o drama do Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis), psicólogo infantil que carrega a terrível lembrança de um jovem paciente seu que ele não conseguiu ajudar. O destino colocou em seu caminho um garoto de oito anos, Cole Sear (Haley Joel Osment), detentor de um problema similar. Dr. Crowe vê em Cole uma chance de redenção.

“Eu vejo gente morta”. Esta revelação feita pelo menino pega o médico de surpresa. Shyamalan conduziu seu filme com uma segurança pouco comum em diretores em início de carreira. Utilizando efeitos especiais de maneira econômica e tendo as personagens, todas elas muito bem construídas, como foco principal da história, O Sexto Sentido nos capturou por completo e fez muita gente rever o filme para comprovar a "peça" pregada pelo diretor.

Depois do estrondoso sucesso do filme, criou-se uma grande expectativa em relação ao seu trabalho seguinte. A resposta veio com Corpo Fechado, lançado em 2000, que muitos consideram, até hoje, a obra-prima do diretor. O filme trazia duas personagens: David Dunn (Bruce Willis), uma pessoa “inquebrável”, em referência ao título original, e Elijah Price (Samuel L. Jackson), o “senhor Vidro”. Como dá para perceber, um era o extremo oposto do outro.

Realizado em uma época onde os filmes de super-heróis não desfrutavam do sucesso de público que possuem hoje, Shyamalan fez uso da mitologia dos quadrinhos, onde todo super-herói possui um arqui-inimigo com habilidades contrárias às suas. Preste atenção na comovente seqüência em que Dunn mostra para o filho uma matéria de jornal com seu primeiro feito. Corpo Fechado não era uma adaptação de HQ. Tratava-se de uma história original criada pelo cineasta. Para os fãs de quadrinhos foi um deleite encontrar elementos narrativos e referências ao universo dos heróis mascarados. Tudo mostrado de maneira bastante realista. Willis e Jackson, perfeitos em seus papéis, estão de volta em Vidro.

Historicamente, naquele ano de 2000, os filmes adaptados de histórias em quadrinhos não eram tão populares como hoje. Além do Superman, de 1978, e do Batman, de 1989, e da estreia dos X-Men, de Bryan Singer, a oferta era muito pequena. Ainda mais quando se mostrava o universo dos heróis de maneira realista. Mesmo nos quadrinhos, era muito raro. Isso talvez explique o fracasso de Corpo Fechado em seu lançamento.

Originalmente, a história de Fragmentado estava inserida no primeiro esboço do roteiro de Corpo Fechado. Kevin Wendell Crumb, um homem com múltiplas personalidades, vivido no filme de 2016 pelo ator James McAvoy, era o vilão da trama. O Senhor Vidro era o mentor de David Dunn e juntos combatiam o grande inimigo representado por Crumb. Em especial, A Besta. Para reduzir custos e deixar o roteiro mais objetivo, Shyamalan suprimiu Crumb da história, transformou Elijah Price em criminoso e foi isso que vimos nas telas. A ideia de uma trilogia foi plantada, no entanto, em Corpo Fechado, uma obra bem adiante de seu tempo, não rendeu o que se esperava.

Minimalista
Em Hollywood, é comum ouvirmos dizer que menos é mais. A Visita, que ele escreveu, produziu e dirigiu em 2015, custou apenas cinco milhões de dólares. Uma mixaria para os padrões americanos. E o faturamento chegou perto dos 100 milhões. Shyamalan fez uso do recurso do found footage (aquele tipo de filme metido a documentário com imagens feitas com uma câmera na mão e que são achadas por alguém). 

O roteiro gira em torno de uma mãe (Kathryn Hahn) que manda seus filhos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) para passar uns dias com os avós. Quando chegam lá percebem coisas estranhas no lugar. O detalhe curioso é que a mãe saiu de casa há bastante tempo e nunca mais viu seus pais e os netos, por conseguinte, não conhecem os avós. A Visita colocou o nome de Shyamalan novamente em alta e permitiu ao diretor retomar o controle criativo de sua carreira. Para qualquer artista, não existe coisa melhor.

Chegou então a vez do filme seguinte, aquele que mostraria se ele realmente estava no caminho certo. Com roteiro próprio, Fragmentado conseguiu ir mais longe ainda dentro da nova postura do diretor: menos é mais. Com um custo de nove milhões, a obra faturou 277 milhões ao redor do mundo, apenas nos cinemas. Ele então tirou da gaveta aquela história de Kevin Wendell Crumb, um homem que desenvolveu 23 personalidades distintas – um pouco mais que a Sybill, vivida por Sally Field na famosa minissérie dos anos 1970, que tinha “apenas” 16. 

Ele sequestrara três garotas: Casey (Anya Taylor-Joy), Marcia (Jessica Sula) e Claire (Haley Lu Richardson). No cativeiro, elas são “visitadas” por Dennis, Patricia, Hedwig e A Fera. Algumas outras aparecem em vídeo, sem esquecer as que conversam com a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), psicóloga de Crumb. O desempenho de McAvoy foi assombroso e carregado de sutilezas, para dizer o mínimo. Shyamalan, um cineasta com pleno domínio narrativo, construiu em Fragmentado um clima contínuo de suspense e tensão que nos manteve atentos até o já citado final surpreendente que abriu caminho para a história do novíssimo e aguardado Vidro.

O curioso é que, inicialmente, Shyamalan não pretendia fechar a trilogia. O destino interveio quando próximo do término das filmagens de Fragmentado o diretor recebeu uma ligação de Bruce Willis dizendo que estaria na cidade no dia seguinte e gostaria de visitá-lo. Veio então a ideia de retomar o projeto que previa uma trinca de filmes.

Em segredo absoluto, apenas o diretor de fotografia e o técnico de som ficaram sabendo, Shyamalan levou o amigo Willis para filmar aquela rápida cena no bar onde vemos David Dunn comentando uma reportagem sobre Crumb que passa na TV e fazendo menção ao Senhor Vidro. Dias depois, o cineasta mostrou a sequência para os executivos do estúdio que simplesmente piraram, assim como os espectadores quando a viram nos cinemas.

Assim nasceu Vidro, que finalmente encerra a trilogia iniciada por Corpo Fechado e continuada em Fragmentado. Dunn, Price e Crumb estão de volta e juntos no mesmo filme e espaço. Para aqueles que saíram do cinema 19 anos atrás na esperança de assistir a uma continuação e esperaram pouco mais de uma década e meia para vislumbrar essa possibilidade, este novo filme vem suprir toda a expectativa que foi criada nesse período.