Exposições

MON recebe exposição do artista plástico chinês Ai Weiwei, um dos melhores do mundo

Por: Anderson Gonçalves
MON recebe exposição do artista plástico chinês Ai Weiwei, um dos melhores do mundo

Assim que se sobe a escada que dá acesso ao chamado “Olho” do Museu Oscar Niemeyer (MON), a cena já impressiona. À frente, uma junção de banquinhos de madeira forma uma obra única. Do lado direito, um grande painel iconográfico com um fundo amarelo que salta aos olhos. À frente desse painel, um grupo de pessoas trabalha limpando e organizando dezenas de caranguejos de porcelana coloridos. Do lado esquerdo, um conjunto de raízes de árvores e, ao fundo, um tanto escondido na iluminação sutil, um enorme bote de plástico negro. Estamos no universo de um dos principais artistas contemporâneos, o chinês Ai Weiwei.

Esse foi o cenário que a reportagem da Gazeta do Povo encontrou na última terça-feira (23), quando começava a ser montada a exposição Ai Weiwei Raiz, que a partir da próxima sexta-feira (3) estará aberta ao público curitibano, depois de passar por Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile), São Paulo e Belo Horizonte. Até o dia 28 de julho estarão à mostra mais de 40 obras e 15 vídeos do artista, desde trabalhos icônicos até obras inéditas nascidas de uma imersão profunda de Weiwei no Brasil e suas tradições.

“Ali tem uma imagem do Ai Weiwei pelado, quero ver se você consegue encontrar”, desafia Marcello Dantas, apontando para o painel à direita da escada. “Toda obra dele tem algum truque escondido”, acrescenta o curador e idealizador da exposição. Uma história que começou em 2011, quando ele convidou o artista chinês para criar uma obra que abordasse sua relação com o Brasil. Cinco dias depois, Weiwei foi preso em decorrência de seu ativismo crítico ao governo chinês. Foram mais quatro anos de prisão domiciliar, até que em 2015 os dois se encontraram na Alemanha, para onde Weiwei se mudou, e começaram a planejar o trabalho.

Segundo Dantas, o título da exposição, Raiz, está diretamente ligado à história de Ai Weiwei. Filho de Ai Qing, um dos poetas mais importantes da história da China, ele cresceu em meio à Revolução Cultural, campanha político-ideológica conduzida pelo então líder do Partido Comunista, Mao Tsé-tung. “A revolução tinha o objetivo de apagar a memória, tudo que estivesse relacionado à velha China deveria ser queimado. Isso marcou profundamente Ai Weiwei, que sempre se preocupou em buscar as raízes que foram perdidas”, explica.

Raízes essas que estão presentes de diversas formas na mostra. Seja na composição de banquinhos usados por artistas chineses há 200 anos, ou em sua obra clássica Dropping a Han Dinasty Urn (Deixando cair uma urna da dinastia Han), uma sequência de fotos em que o artista derruba uma urna cerimonial de cerca de 2 mil anos de idade – que poderá ser vista também em uma versão com peças de Lego. Ou literalmente, como as raízes de árvores já extintas, encontradas em sua passagem pela Bahia, que se transformaram na obra Sete raízes. “Quando ele se deparou com aquilo, montou um ateliê no local e chamou um grupo de pessoas para trabalhar nas esculturas. Ele nem precisou ir atrás de algo que representasse a exposição, a representação veio até ele”, diz Dantas.

Uma das razões que levou Ai Weiwei a vir ao Brasil, segundo o curador, foi a tradição do país em trabalhos com cerâmica, madeira e artesanato. O contato com diversas comunidades e manifestações regionais inspirou o chinês a produzir obras inéditas, utilizando madeira, sementes, cerâmica, raízes e couro. O público do MON também poderá conferir o documentário Uma Árvore, que retrata a descoberta de uma árvore de pequi de 31 metros de altura e mais de mil anos, que está sendo reconstruída em ferro fundido.,

Arquiteto e ativista

Maior exposição já realizada por Ai Weiwei, Raiz terá em Curitiba uma versão menor daquela apresentada em São Paulo. Mas contará com obras conhecidas mundialmente. Caso de Forever Bycicles, em que foram reunidas mais de mil réplicas de bicicletas em aço; Sunflower seeds, composição feita com milhões de sementes de girassol pintadas à mão por artesãos chineses; e Moon chest, uma série de baús em madeira com aberturas que apresentam as quatro fases da lua.

“O Ai Weiwei trabalha mais como um arquiteto, pegando as coisas e trabalhando novas formas a partir dos seus encaixes”, ilustra Marcello Dantas, que aponta outra característica importante de seu trabalho: a contemporaneidade. “É um artista que está sempre ligado no que está acontecendo no mundo. Ele usa as redes sociais, mobiliza pessoas, atua em causas importantes, é um contraponto à ideia do artista que trabalha isolado em seu ateliê”. Prova disso é que seus trabalhos em geral têm caráter coletivo, envolvendo uma média de 100 pessoas.

Um exemplo desse envolvimento com temas atuais é Law of Journey – que estará em exibição no MON – um bote inflável com bonecos concebido em 2017, em meio ao debate sobre a crise dos refugiados na Europa. Ou ainda Panda to Panda, feito em parceria com Edward Snowden, o ex-analista que revelou o sistema de espionagem dos Estados Unidos. A dupla destruiu documentos secretos e usou os papéis picotados para forrar ursos panda de pelúcia, que foram comercializados mundo afora. “É uma forma de dizer que qualquer um pode ser um agente criminoso”, diz Dantas.

MON em evidência

As negociações para trazer a exposição Ai Weiwei Raiz a Curitiba tiveram início no ano passado, como revela a diretora-presidente do MON, Juliana Vosnika. Em razão do custo elevado, ela foi viabilizada graças ao patrocínio da Copel. “Essa exposição é muito significativa, retoma a vinda de um artista de grande importância internacional ao museu”, ressalta. A expectativa é atrair visitantes não apenas de Curitiba e do Paraná, mas de toda a Região Sul. Existe ainda a possibilidade da vinda do artista chinês à cidade durante o período da exposição.

Juliana lembra que a nova exposição dialoga com outras mostras em cartaz no museu. Uma delas é Ásia: a Terra, os Homens, os Deuses, que conta com uma seleção de mais de 200 peças provenientes de dez países asiáticos, num recorte da coleção de 3 mil peças doadas ao museu pelo embaixador Fausto Godoy em 2018. A outra é Ivens Machado – Mestre de Obras, de um dos nomes importantes da arte contemporânea no Brasil.

Para a diretora-geral da Secretaria de Estado da Cultura, Luciana Casagrande Pereira, a obra de Weiwei é altamente relevante por dialogar com questões contemporâneas como liberdade de expressão, autoritarismo e direitos humanos. “Uma das nossas diretrizes é a inovação e, nesse contexto, uma exposição como essa é muito expressiva.”