Cinema

MIB Internacional Espionagem intergalática: tudo o que você precisa saber do filme

Por: Luiz Gustavo Vilela
MIB Internacional Espionagem intergalática: tudo o que você precisa saber do filme

O escritor americano David Foster Wallace ficou famoso, entre muitas coisas, pela defesa intelectual do poder dos clichês. A ideia, permeada em sua obra e explícita em falas públicas, é a de que algo não se torna um clichê sem ser um signo absolutamente poderoso. Toda a sociedade reconhece e se identifica com obras mesmo que (ou, principalmente quando) elas parecem um rearranjo repetitivo de algo que já foi feito e refeito algumas centenas de vezes. A questão é que o clichê precisa de um arranjo sólido em sua estrutura para que seja possível ser explorado. Olhando de longe, pode parecer o caso, mas infelizmente não é o que acontece em MIB: Homens de Preto – Internacional. E sim, este é o título brasileiro oficial, por incrível que pareça.

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Os primeiros três MIBs (1997, 2002 e 2012), todos dirigidos por Barry Sonnenfeld, partiam de um clichê específico: os filmes de dupla policial com estilos diferentes. No lugar de, por exemplo, Murtaugh e Riggs (Danny Glover e Mel Gibson) dos Máquina Mortífera entraram em cena os Agentes K e J (Tommy Lee Jones e Will Smith). A dinâmica, no fundo, era a mesma. Um mais velho e tradicional e outro mais jovem e selvagem, incorporando estilos diferentes que causam ruído à princípio, mas que depois são fundamentais para salvar o dia. A diferença é que este clichê era inserido no universo da ficção científica, envolvendo aliens diversos e divertidos, escondidos em plena vista em Nova York. Não raro os extraterrestes pareciam mais humanos do que os próprios humanos. O resultado é uma comédia de ação que ainda hoje entretém de forma bastante satisfatória.

MIB: Homens de Preto – Internacional parte de outro clichê, igualmente poderoso, o do cinema de espionagem. Na trama, Chris Hemsworth vive o Agente H. Depois de salvar a Terra da invasão da Colmeia – um vilão genérico de outra galáxia – ele se torna um beberrão, errático e mulherengo, ainda que relativamente eficiente. Um James Bond com um apetite sexual mais diverso (bem mais diverso, já que envolve todo um universo de possibilidades). Em paralelo acompanhamos o recrutamento da Agente M, papel de Tessa Thompson, que recebe como primeira missão ir para Londres e fazer um trabalho burocrático. Sua curiosidade e sagacidade, porém, rapidamente a colocam no meio de uma grande conspiração.

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A rigor não há nada de errado em simplesmente substituir a estrutura do cinema policial pela da espionagem. Ambos permitem um balanço de ação e comédia já testados e aprovados com o público que pode se tornar mais rico com as criaturas e segredos bizarros do universo dos Homens de Preto. Cada beco escuro é uma porta de entrada para uma nova raça, com suas cores e culturas. Para funcionar, porém, o clichê depende de ritmo, que, neste caso, se converteria em charme, coisa que não encontramos em MIB: Homens de Preto – Internacional. Para fins de comparação, a trilogia original de Sonnenfeld, ao contrário, é absolutamente precisa em sua marcação de piadas.

Difícil saber onde o projeto se perdeu. O diretor, F. Gary Gray, já assinou trabalhos em que a agilidade e o ritmo foram cruciais para o sucesso. Desde a refilmagem Uma Saída de Mestre (2003) até o oitavo Velozes e Furiosos (2017), passando pelo seu melhor trabalho: Straight Outta Compton: A História do N.W.A. (2015). Por outro lado, porém, essa não é a primeira vez que Gray assume, com um resultado medíocre, uma franquia de Sonnenfeld. É dele o Be Cool: O Outro Nome do Jogo (2005), continuação de O Nome do Jogo (1995). Curiosamente, o que se perdeu de um para o outro, da mesma forma, eram o ritmo e charme que nem a boa dinâmica entre os atores conseguiu salvar.

Ponto positivo

O filme não é um desastre completo. Há, por exemplo, um ensaio de mensagem socialmente engajada na oposição entre a Colmeia, uma entidade que rejeita justamente a diversidade que torna o universo de MIB interessantes, fazendo com que todos se tornem padronizados. Esta reflexão tem algum interesse pela ambientação londrina do filme, considerando que boa parte do que motivou o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, foi o sentimento xenófobo de boa parte da população. Este tema, infelizmente, não é explorado o suficiente e este novo Homens de Preto se perde nas subtramas de espionagem, dependendo exclusivamente de seus dois protagonistas para funcionar.

E, por um bom pedaço do filme, funciona bem. Thompson e Hemsworth são ótimos em cena, fruto de uma parceria forjada em Thor: Ragnarock (2017). Ela interpreta a Valquíria enquanto ele, claro, fica com o papel-título. No filme do Deus do Trovão, boa parte da diversão está em ver os dois trocando ofensas mútuas. Ajuda, obviamente, ter um diretor especialista neste tipo de atuação, como é o caso do neozelandês Taika Waititi, que em filmes como A Incrível História de Rick Baker (2016) e O Que Fazemos Nas Sombras (2014) usa justamente o ritmo de direção e atuação, combinada com a química dos atores, como trilha do êxito.

Com esse histórico fica difícil não fazer o exercício de imaginar como MIB: Homens de Preto – Internacional poderia ser caso fosse dirigido por alguém como Waititi, com habilidade para criar um universo tão absurdo quanto cômico, além de visualmente interessante, ou caso Gray tivesse a liberdade para expressar todo o potencial que já demonstrou em outros filmes. É triste que a boa química dos atores tenha sido desperdiçada em uma produção que falha não pelos clichês, mas por parecer genérico. E não tem participação especial do Sérgio Malandro que melhore as coisas.