Filmes

O que faz de “Era uma vez em…Hollywood” 100% Tarantino

Por: Luiz Gustavo Vilela
O que faz de “Era uma vez em…Hollywood” 100% Tarantino

Em muitos sentidos Era Uma Vez Em… Hollywood é uma espécie de síntese da carreira de Quentin Tarantino. Tão violento quanto nostálgico, como toda sua obra, e, ao mesmo tempo, socialmente engajado, usando o cinema, primeiro, como lente para investigar e, segundo, ferramenta para transformar a história. Nem que seja apenas como discurso. É talvez por isso que este seja o filme em que ele finalmente se permite ser fonte de referência para si mesmo. De forma mais descarada, pelo menos, considerando que seu último trabalho, Os 8 Odiados (2015), opera em diálogo com seu primeiro, o já citado Cães de Aluguel – criminosos em um armazém conversam e apontam armas uns para os outros.

Confira os horários do filme 

As piscadas de olho para o público que conhece o cinema de Tarantino acontecem em todos os níveis. Da escalação de elenco, cheia de recorrências (de Zoe Bell a Bruce Dern, para além dos protagonistas), até uma cena pós-créditos relacionada à icônica Red Apple, marca de cigarros fictícia que só existe em seus filmes. Mas a diversão mesmo está na carreira de Rick Dalton, com trechos salpicados ao longo da trama. A série de TV que o fez famoso, Bounty Law, é sobre um caçador de recompensas no Velho Oeste, como em Django Livre, enquanto seu filme de maior sucesso, The 14 Fists of McCluskey, acompanha um plano para matar Nazistas, como em Bastardos Inglórios. Seria autoindulgente, não fosse esta uma trama sobre Hollywood. O resultado é, ao contrário, autoconsciente. Tarantino sabe o tamanho que tem na história do cinema.

Era Uma Vez Em… Hollywood não é, porém, apenas fruto da vontade de Tarantino de se auto afirmar relevante. Boa parte da ambição vem do título, fazendo referência direta aos dois clássicos de Sergio Leone – um de seus heróis pessoais –, Era Uma Vez No Oeste (1968) e Era Uma Vez Na América (1984). Se para o italiano o “Era Uma Vez” apenas descolava seus filmes de uma certa realidade objetiva, Tarantino abraça e distorce a relação com o fato objetivo que são os assassinatos da Família Manson, colocando a obra na dimensão dos contos de fada. Não por acaso Walt Disney é mencionado nominalmente, tornando Sharon Tate uma princesa a ser protegida em seu castelo do mal que a acometerá. É por isso que quando Era Uma Vez Em… Hollywood acaba, particularmente para quem conhece a história e sabe a forma como isso afetou Hollywood, corre-se o risco de sair da sessão genuinamente emocionados, algo até então ainda inédito na filmografia de Tarantino.