Cinema

Mel Gibson e Sean Penn estrelam filme sobre a criação do dicionário inglês

Por: Luiz Gustavo Vilela
Mel Gibson e Sean Penn estrelam filme sobre a criação do dicionário inglês

Existem dois desafios bastante complexos na produção de um filme como O Gênio e o Louco (2019), de Farhad Safinia. Ambos são, inclusive, um tanto óbvios. O primeiro está na própria matéria sobre a qual a narrativa se debruça, que é a ambiciosa confecção do Dicionário Oxford de Língua Inglesa. Um compêndio dedicado a não apenas catalogar e definir cada uma das palavras existentes e em uso, mas também a encontrar sua origem linguística, aplicação literária e transformações de significado ou semântica através de ocorrências na literatura. A questão que se impõe, então, é em como traduzir em imagens uma história sobre palavras. Desafio este, não custa lembrar, que se coloca diante do cinema desde suas tenras origens – menos de 10 anos separam a exibição dos irmãos Lumière do lançamento de Viagem à Lua (1902), conhecido filme de Georges Méliès, que adapta o livro de Júlio Verne.

Para resolver esse problema Safinia mergulha na história das duas principais mentes por trás da empreitada. De um lado James Murray (Mel Gibson), linguista autodidata que toma para si a empreitada dentro da Universidade de Oxford – gerando ciúmes e desconfiança da comunidade acadêmica, já que ele não havia passado pelos ritos acadêmicos, considerados fundamentais pelos colegas, ainda que absolutamente elitistas. De outro, a figura mais curiosa desta história, William Chester Minor (Sean Penn), médico americano internado em um manicômio depois de sua paranoia e pavor persecutório ter lhe feito assassinar um homem inocente.

O encontro entre as duas mentes, tão delirantes quanto apaixonadas pelas palavras, acontece quando o método escolhido por Murray começa a dar frutos. Em uma carta aberta publicada em jornais e colocada junto de edições novas de livros, o personagem de Gibson faz um pedido para que as pessoas enviem exemplos de como as palavras foram usadas no que foi publicado de literatura ao longo dos séculos – de preferência com uma citação retirada do material, criando assim uma cartografia de significados. A literatura sendo, aqui, um reflexo da cultura. Uma dessas cartas chega nas mãos de Minor, que rapidamente resolve alguns dos problemas que a equipe (ainda parada na letra “A”) da Universidade enfrentava.

O filme abraça o melodrama, explorando, em parte, a relação entre Murray e Minor, que encontram, um no outro, uma mente tão aguçada e curiosa quanto a suas próprias. Infelizmente, talvez por falta de registros presentes no material original – o filme é baseado no livro O Professor e o Louco: Uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do dicionário Oxford, de Simon Winchester –, Safinia recorre aos conflitos familiares de Murray, que se torna o clichê do pai ausente, e de Minor, que procura se redimir do crime tentando amparar a viúva do homem que matou, personagem vivida por Natalie Dormer, atriz que merece papéis melhores.

Quem dirige diretores?

As melhores partes de O Gênio e o Louco envolvem os encontros de Mel Gibson e Sean Penn. Pena serem tão poucos, especialmente em um filme que se sustenta na premissa da relação entre esses homens (o contato ter sido mais frequente via cartas do que presencialmente parece ser um dos motivos, mas é justamente nestes pontos que a liberdade poética é mais do que bem-vinda). Ao mesmo tempo, porém, é da intensidade destes dois atores que aparece o segundo e crucial desafio enfrentado por Farhad Safinia.

Foto: Divulgação

Como, afinal, dirigi-los de forma adequada? Como exercer a autoridade diante, justamente, deles.

Gibson e Penn são, ao lado de George Clooney, dois dos mais importantes diretores-atores em atuação. O primeiro fez obras de peso, como Coração Valente (1995) e A Paixão de Cristo (2004) – e só não seguiu produzindo com tanta frequência graças a escândalos de sua vida pessoal envolvendo antissemitismo e racismo. O outro, que também coleciona sua parcela de polêmicas na vida pessoal, é responsável por jovens clássicos como A Promessa (2001) e Na Natureza Selvagem (2007). São filmes marcantes, importantes culturalmente, além de pessoais e universais em igual medida, o que pode ser justificado como problemático no caso de um trabalho como A Paixão de Cristo.

Safinia, talvez intimidado, escolhe a rota da segurança. O Gênio e o Louco, como resultado, pode até não ser completamente desprovido de charme, claro, mas falha em qualquer ambição maior do que ilustrar uma nota de rodapé histórica – por mais importante que seja a contribuição do Dicionário Oxford para a humanidade. O charme persiste muito em razão das atuações, particularmente da dupla protagonista. Os arroubos paranoides de Penn e o carregado sotaque escocês de Gibson são ótimos na tela. Porém, todas as outras escolhas parecem simplórias e pouco originais. O que é curioso, considerando as experiências pregressas tanto do diretor quanto do próprio processo de desenvolvimento do filme. Safinia é roteirista de Apocalypto (2006), um feito de Gibson na direção, mas sem resposta do público e até hoje é celebrado em pequenos grupos cinéfilos. Acompanhar de perto o trabalho de Gibson serviu de pouca inspiração, considerando o resultado morno de O Gênio e o Louco.

O Gênio e o Louco passou pelo que se costuma chamar na indústria de “inferno da produção”, em que um projeto passa por várias mãos e atravessa inúmeras reuniões executivas até receber o sinal verde. O envolvimento e Gibson e Penn (mais notadamente o primeiro) era preocupante, posto que sua fama vinha com uma acentuada carga negativa em tempos que o racismo finalmente se torna algo tóxico na carreira. Reabilitado, com até mesmo indicações ao Oscar pela direção de Até o Último Homem (2016), a produção ganha sinal verde. Até chegar a esse ponto, nomes como o de John Boorman, de Esperança e Glória (1987) e Amargo Pesadelo (1972), passaram pelo desenvolvimento do roteiro. Boorman não é creditado no filme, mas seu nome ainda consta como colaborador do roteiro na página do IMDB (confiável site que reúne informações sobre filmes). Não parece que nenhuma de suas contribuições tenha chegado à versão final.