Cinema

Filmes de horror são destaque na programação dos cinemas

Por: Luiz Gustavo Vilela
Filmes de horror são destaque na programação dos cinemas

Com o lançamento de alguns importantes filmes de horror nos últimos anos, desenvolveu-se a crença de que o gênero estaria vivendo um novo e melhor momento. Termos como "pós-horror" ou "horror elevado", entre outros tantos, entraram em disputa na busca de definir o que seriam estas obras em que os elementos característicos são usados para discutir a sociedade. Ao mesmo tempo, uma nova ala surgiu defendendo que títulos como A Bruxa (2015), de Robert Eggers, ou Corrente do Mal (2014), de David Robert Mitchell, entre tantos outros, não são ruptura, mas sim um desenvolvimento natural do gênero, que sempre teria se interessado por questões para além do sangue e do susto.

Este momento, no Brasil, é particularmente interessante para debater o atual estado do cinema de horror. Na última semana estreou, com bastante sucesso, Nós, de Jordan Peele, trabalho que desenvolve e expande alguns dos temas de seu trabalho de estreia, Corra!. Nesta, chega aos cinemas Suspíria: A Dança do Medo, de Luca Guadagnino, ambiciosa refilmagem do clássico de 1977 de Dario Argento. Ambos são filmes de horror, esteticamente belos, que refletem o seu tempo, usando o gênero para meditar sobre questões contemporâneas. Ainda assim, são tributários de outros títulos importantes ao longo da história do cinema.

Em Nós, Lupita Nyong'o vive Adelaide, uma mãe que lida com um trauma de infância durante as férias da família. A tensão se estabelece quando uma outra família, idêntica à sua, chega em sua casa de veraneio. Partindo da premissa relativamente simples, da relação com o duplo e o medo do isolamento, Peele trata tanto de questões raciais, como em Corra!, quanto sociais, expandindo seu leque. Um dos temas centrais está em, por exemplo, como as classes médias e altas devem seu conforto à exploração das mais baixas. Estas, por sua vez, não se insurgem por falta de consciência de classe e organização. E, sem muito pudor, aponta como a diferença real entre elas o acesso a cultura e educação.

Suspíria, por outro lado, parte da estrutura narrativa do clássico de Argento, em que uma jovem bailarina americana, vivida por Dakota Johnson, vai à Berlim da Cortina de Ferro para integrar um grupo de dança. Lá, vê sua sanidade se esvair quanto mais claro fica que as diretoras da companhia são bruxas de verdade. Em relação ao original, Guadagnino aprofunda as questões políticas do filme, enquanto aposta mais em ousados movimentos de câmera e menos no uso expressivo de cores para criar a ambientação. Na versão contemporânea há maior empenho em destacar o contexto social, com o conflito entre as duas Alemanhas ganhando proeminência, e as coreografias se tornando intrincados rituais de magia, em uma combinação rara entre forma e conteúdo.

Que horror!?!

Como adiantado acima, existem a rigor duas alas no debate sobre o estado atual do gênero horror – que, para o desespero de alguns pesquisadores e especialistas do gênero, uso sem distinção do termo terror. De um lado, os que apostam em um novo momento, com produções que irão usar os artifícios e clichês para trabalhar questões sociais em oposição ao gore ou ao torture porn, em que (majoritariamente, mas nem sempre) o sangue as vísceras são um fim em si. De outro, estão os que veem nestes novos trabalhos a mera continuidade de uma longa tradição.

Historicamente o horror funciona como metáfora ou comentário sobre o espírito de seu tempo. No período entre guerras, na mesma Alemanha que chocava o ovo da serpente, cineastas como F.W. Murnau e Fritz Lang faziam filmes expressionistas que davam vazão ao medo coletivo com a ameaça do nazi-fascismo. Muitos dos cineastas e diretores europeus deste período – entre outros tantos – emigraram para os EUA e lá estabeleceram o que se convencionou chamar de Cinema B – faroestes menores, terror e noir, em que a paranoia da caça às bruxas comunista dava o tom dos filmes.

Filmes como Suspíria e Nós tornam mais difícil perceber esse período como uma ruptura. O primeiro, obviamente, por ser uma refilmagem. Mas ainda: uma atualização de um dos maiores expoentes dos giallos, os filmes de horror italianos da década de 1970, que não economizavam no sangue, quase sempre em um vermelho vibrante. Dario Argento é um dos mais conhecidos diretores dessa época, responsável diretamente pelo estabelecimento, nos EUA, do slasher, filmes em que, em geral, um assassino em série retalha suas vítimas de forma criativa.

Nós se baseia em uma rede mais intrincada de referências. Uma das primeiras imagens mostra, por exemplo, um VHS de C.H.U.D. – A Cidade das Sombras (1984), de Douglas Cheek, em que uma sociedade de canibais vive sob Nova York. Uma cuidadosa referência, já que uma sociedade subterrânea é um tema caro a Peele em seu filme. Mais até: Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, é uma influência clara e chega a ser citado visualmente, temperado, claro, com os temas de John Carpenter em filmes como Halloween (1978) ou Eles Vivem (1988), em que o horror é um veículo para o comentário social.

Além disso, parte de uma estrutura conhecida, do grupo isolado em uma casa de veraneio de filmes como A Noite dos Mortos Vivos (1968), de George A. Romero, que nunca fugiu de usar seus filmes como metáfora política, a O Segredo da Cabana (2011), de Drew Goddard, que coloca o subgênero em perspectiva. Isso passando ainda por A Morte do Demônio (1981), de Sam Raimi, e Violência Gratuita (1997), de Michael Haneke, o primeiro uma celebração e o segundo, uma dura crítica ao cinema de horror.

O horror, o horror

Carpenter é um ponto nevrálgico para refletir sobre este momento do horror. Halloween, por exemplo, é bastante tributário dos giallos, sendo responsável em grande parte pela definição da estrutura pela qual os slashers se desenvolveram. Ao mesmo tempo, é um exercício ímpar de estilo, com o plano-sequência de abertura rivalizando com outros clássicos da história do cinema, como o de A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles. Se já não fosse o suficiente, reflete em parte o que há de terrível nos subúrbios americanos, reduto das classes médias brancas que deveriam ser ilhas de paz e tranquilidade.

Eles Vivem vai além. Coloca um trabalhador braçal se deparando com uma grande conspiração alienígena em que as ferramentas da comunicação de massa são usadas para domesticar o grande público. Os aliens vivem entre os humanos, disfarçados, se aproveitando da força de trabalho. A distinção entre os humanos e os inimigos é nebulosa, ideia que irá ser aproveitada visualmente tanto em Suspíria quanto em Nós, de formas diferentes e igualmente interessantes. A metáfora sócio-política, portanto, vem entranhada aos filmes, permitindo que o público se relacione com ela de forma afetiva, diferente de obras que são frontalmente políticas. Enquanto estilo, poucos gêneros dependem e aprofundam a imersão quanto o horror.

***

“A distinção entre os humanos e os inimigos é nebulosa, ideia que irá ser aproveitada visualmente tanto em Suspíria quanto em Nós, de formas diferentes e igualmente interessantes. A metáfora sócio-política, portanto, vem entranhada aos filmes, permitindo que o público se relacione com ela de forma afetiva, diferente de obras que são frontalmente políticas. Enquanto estilo, poucos gêneros dependem e aprofundam a imersão quanto o horror.”