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Luz, tecnologia, ação e Will Smith na pele de um grande assassino! Saiba mais sobre o filme “Projeto Gemini”

Por: Luiz Gustavo Vilela
Luz, tecnologia, ação e Will Smith na pele de um grande assassino! Saiba mais sobre o filme “Projeto Gemini”

O mais novo trabalho de Ang Lee, Projeto Gemini, não é o primeiro nem será o último a se sustentar na ideia de um duplo (doppelgänger, para os puristas). De O Duplo, de Fiódor Dostoiévski, à O Homem Duplicado, dirigido por Denis Villeneuve, passando por Looper, de Ryan Johnson, ou pelo bem menos elegante Replicante, estrelado por Jean Claude Van-Damme, a ficção é cheia de reflexões sobre individualidade e existência a partir do conceito de uma cópia exata nossa que estaria andando por aí. Dessa vez temos Will Smith na pele de Henry Brogan, um veterano assassino contratado pelo governo americano que pretende se aposentar. Seus planos de tranquilidade vão por água abaixo quando descobre uma conspiração, o que coloca sua cabeça a prêmio. Seu maior desafio: uma versão mais jovem de si mesmo, desenvolvido pela Gemini do título.

O filme é uma trama de espionagem clássica, em que a conspiração é revelada através da coleta de pedaços de informação seguida de cenas de ação pirotécnicas em diferentes partes do planeta – Colômbia, Hungria e EUA. Há algum subtexto psico-existencial no enredo, em que o personagem de Smith é confrontado com uma versão mais jovem, rápida e inexperiente de mesmo. O clone é alguém que ainda não cometeu os erros que de que Brogan hoje se arrepende, ele ainda está com a alma intacta. Salvar sua cópia, de alguma forma, é salvar a si mesmo. Outros trabalhos de Lee também contrabandeiam mensagens edificantes em histórias fantásticas. Seu Hulk parte do complexo de Édipo freudiano e o celebrado As Aventuras de Pi reflete sobre a relação entre Deus, natureza e sociedade.

Em todos os seus filmes, todavia, o que costuma chamar atenção é o espetáculo visual. Mesmo seu Hulk borrachudo deveria ser um feito tecnológico, não tivéssemos visto pouco antes o Gollum de Peter Jackson em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, o que contaminou positivamente nosso olhar. Ainda assim, obras como O Tigre e o Dragão e o já citado As Aventuras de Pi são provas de como Lee é capaz de unir ambição narrativa com avanço técnico. Projeto Gemini só é diferente no sentido de que a trama é bastante rasteira – ainda que, convenhamos, divertida. A história não passa de uma desculpa para que tenhamos oportunidade de testemunhar o que ele é capaz de fazer ao unir projeção de 60fps com o 3D, experiência batizada pela campanha de marketing dos cinemas como 3D+. 

A sigla fps significa Frames Por Segundo. Desde a época do cinema mudo estabeleceu-se (com algumas variações) que os filmes seriam captados em 24 quadros por segundo, padrão replicado mesmo quando se trocou o quadro da película pelo frame digital. Ao aumentar para 120 a quantidade de frames, Lee pode trabalhar mais com a luz, permitindo que elaboradas sequencias de ação de Projeto Gemini pudessem acontecer tanto sob do Sol do Caribe, em Cartagena, quanto na penumbra de uma catacumba de uma catedral de Budapeste. Outro ganho para o diretor é a mobilidade da câmera. Com maior qualidade da imagem não é mais necessário partir de um enquadramento e iluminação tão rígidos, permitindo algumas cenas de ação mais elaboradas. Essa é a grande diferença deste filme para o anterior, A Longa Caminhada de Billy Lynn, também filmado em 120fps.

A versão que virá aos cinemas brasileiros não será exibida em 120fps. Há, inclusive, relatos de que mesmo nos EUA não há salas de cinema com projetores preparados para exibir Projeto Gemini em sua qualidade máxima. Segundo a assessoria da Paramount, que distribui o filme no Brasil, nas salas em 3D de Curitiba as cópias serão exibidas em 60fps, feitas a partir da máster original do filme, de 120fps. O 3D+ é uma experiência curiosa. Se, por um lado, a imagem fica lavada, com cara de série de TV, por outro, é bem-vinda a possibilidade de um filme em 3D em que conseguimos enxergar tudo o que está na tela, não apenas a ação no centro da imagem e olhe lá.

Tirando isso, Ang Lee não dá muito motivo para justificar a captação em 120fps ou mesmo o 3D. Como é um filme de ação relativamente genérico, com exceção de um ou outro momento – a sequência em que o jovem clone espanca Brogan usando golpes de motocicleta é tão absurda quanto divertida. O que sobra é alguma tentativa de uso dramático aqui e ali em que a profundidade de campo e a manipulação do foco são usadas de forma que um diretor menos habilidoso ou com menos recursos teria que recorrer à decupagem. Ou seja, nada que encante ou interesse ao espectador médio de filmes de ação relativamente genéricos.

Curiosamente, não é o 3D+ a tecnologia que provavelmente irá chamar a atenção do público. Apesar de não ser novidade, Lee lança mão de um complexo e mais ou menos eficiente processo de rejuvenescimento digital para conseguir que o Will Smith atual enfrente uma versão de si mesmo com a cara dos anos de Um Maluco no Pedaço. Ainda que a técnica ainda não seja perfeita, há um notável avanço do que já vimos em outras produções anteriores. Basta comparar o esforço para manter câmera e ator parados quando o efeito foi utilizado em Homem-Formiga, da Marvel, em 2015, para mostrar um jovem Michael Douglas. Nesse sentido, a mobilidade de Will Smith, por mais que lembre aqui e ali uma certa estética de videogame, é bastante impressionante.

O incômodo é mais marcado na primeira cena dramática, em que o jovem clone (Júnior, como é chamado) conversa com seu pai adotivo, Clay Verris, o verdadeiro vilão da trama, vivido por Clive Owen. Depois, talvez por esta sequência ter sido feita de maneira particularmente apressada, talvez por nos acostumarmos com o efeito, o estranhamento se reduz um pouco dali em diante, permitindo que mergulhemos mais no filme. A sorte de Ang Lee é que, diferente do que aconteceu com seu Hullk, eclipsado por Gollum, dessa vez o filme concorrente estreia apenas no próximo mês. Pelas prévias, o processo de rejuvenescer Robert De Niro e Al Pacino para The Irishman, próximo lançamento de Martin Scorsese, vai no mínimo incomodar bem menos.