Cinema

Primeiro filme de grande porte a usar Curitiba como cenário completa 50 anos em sessão especial

Por: Anderson Gonçalves
Primeiro filme de grande porte a usar Curitiba como cenário completa 50 anos em sessão especial

Na Curitiba da década de 1960, três personagens de classes sociais distintas e com diferentes ambições vivem um triângulo amoroso. Mário é um bancário dividido entre o engajamento político e a ascensão social fácil. Cristina é uma universitária de família abastada com ideias à frente do seu tempo. E Neusa, uma jovem da periferia que questiona sua situação social enquanto sonha com um casamento bem-sucedido. É nessa trama de amor e conflitos que se desenrola Lance Maior, o filme dirigido por Sylvio Back que se tornou um marco da cinematografia paranaense e está completando 50 anos de seu lançamento.

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Para marcar esse meio século de história, nada mais justo que criatura e criador retornem ao berço. Na próxima quarta-feira (24), a Cinemateca de Curitiba sedia uma sessão especial de Lance Maior, com a presença do diretor Sylvio Back, um dos maiores nomes da história do cinema paranaense. O evento também vai marcar o lançamento do livro A Formação de um Cineasta: Sylvio Back na Cena Cultural dos anos 1960, de Rosane Kaminski, sobre a carreira do cineasta (leia mais sobre a obra na próxima página).

Alguns elementos ajudam a entender porque Lance Maior é tão importante. Um deles é o ineditismo. Foi o primeiro longa-metragem dirigido por Back, até então um jornalista e crítico de cinema que tinha em seu currículo alguns curtas-metragens. Como assistente de produção e fazendo uma ponta como ator, outro jovem que despontaria décadas mais tarde, Sérgio Bianchi (diretor de Cronicamente Inviável e Quanto Vale ou É Por Quilo?, entre outros). Foi ainda o primeiro filme de Regina Duarte, estrela de telenovelas que naquela época já era chamada de “namoradinha do Brasil”. Ela compunha o trio de protagonistas ao lado de Reginaldo Farias e Irene Stefânia (morta em janeiro do ano passado).

Um dos fatos mais significativos, contudo, é que foi o primeiro filme de grande porte a ter Curitiba como cenário principal. Praça Tiradentes, Passeio Público, Largo da Ordem, Boca Maldita e a Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de Antonina, no litoral paranaense, são alguns dos locais por onde desfilam os personagens. Quando o longa estreou em 1968 no extinto Cine São João, na Desembargador Westphalen, o público lotou a sala por três semanas. “As pessoas queriam ver a cidade na tela do cinema, era algo inacreditável”, relembra Back.

O cineasta lembra ainda outras curiosidades relacionadas à produção. Reginaldo Farias foi escalado para o papel principal a poucas semanas das filmagens, após a desistência de um astro da época (cujo nome Back prefere não revelar). Já para convencer Regina Duarte, tida desde o início como a atriz ideal para o papel de Cristina, Back foi a São Paulo, onde ela encenava uma peça, e, “na maior cara de pau”, entregou o roteiro no camarim. Dias depois ela aceitou o convite, com a condição de que o pai ou a mãe acompanhassem as filmagens. “A mídia caiu de pau em cima de mim, dizendo que era um absurdo o cinema brasileiro recorrer à televisão”, diverte-se o diretor.

Retrato existencialista

O roteiro de Lance Maior foi escrito a seis mãos. Além de Back, a história tem como autores o escritor Nelson Padrella e o jornalista Oscar Milton Volpini, que queriam fazer um retrato da juventude na década de 60. “Aquela foi uma década luminosa, para o bem e para o mal. Fomos juntando histórias pessoais e alinhavando o roteiro. Foi uma parceira inexplicável, não se sabe onde termina um de nós e começa o outro. O filme é quase um autorretrato nosso e da nossa geração”, conta o cineasta, que, contrariando muitos colegas, quis fazer um filme com um viés menos político e mais existencial.

O resultado é um filme que, lançado em plena ditadura militar, até tem seus momentos de abordagem política. Porém, fala mais de sexo, poder, dinheiro, sonhos e frustrações, com toques de amargura e humor. “O meio cinematográfico brasileiro estava tomado por uma polêmica sobre essa questão da comunicabilidade. Observava-se, de um lado, a radicalização crescente das propostas experimentais que haviam desembocado num cinema agressivo e, de outro, a defesa de uma necessária reconciliação entre obra e público. Quando Lance Maior estreou nas salas de cinema, agradou ao público e também foi muito bem recebido pela crítica”, diz Rosane Kaminski, que pesquisou a fundo a obra e a carreira de Back.

“O filme não tem um objetivo, não é redentor, utópico. É sobre uma condição social, psicológica e antropológica em que cada personagem, a seu modo, faz seu alpinismo”, resume o diretor, que também garante não ter se apegado às influências de uma única cinematografia. “Ele tem uma estética torta que procura transmitir a cinefilia que nós tínhamos à época. Eu sempre fui apaixonado pelo cinema italiano, mas o cinema americano me ensinou as melhores e piores lições. E tinha toda a bagagem dos filmes europeus, japoneses, de vários lugares, que víamos no cinema.”

Volta pra casa

No mês passado, Lance Maior foi exibido em cópia 35mm restaurada no Festival de Brasília, onde estreou em 1968 e faturou dois prêmios, de melhor atriz para Irene Stefânia e melhor cartaz. Homenageado, Sylvio Back se disse emocionado com a reação da plateia. “As pessoas tinham as mesmas reações da época, riam dos mesmos chistes, era como se o público nunca tivesse saído da sala”, descreveu. O longa já havia sido reexibido no mesmo palco em 2008, celebrando os 40 anos de seu lançamento.

Rosane Kaminski aponta aspectos que fazem com que o filme permaneça atual, mesmo depois de 50 anos. “O filme problematiza a rigidez da estrutura social, o preconceito de classe, a ambição, a vontade de ascensão social, a exploração de um ser humano por outro, a solidão das pessoas no ambiente urbano que se moderniza, entre outros temas que permanecem nos inquietando, meio século depois de seu lançamento”, ressalta. “Nos nossos tempos de exacerbação dos individualismos na ‘sociedade do desempenho’, Lance Maior faz reverberar esse vazio de uma geração marcada pela ausência de projetos coletivos.”

Agora, Back retorna com seu filme não apenas à cidade onde o longa foi concebido, mas onde ele viveu por décadas e consolidou sua carreira de cineasta. Aos 81 anos e morando no Rio de Janeiro desde a década de 80, não sabe descrever com precisão a sensação de estar de volta. “Quando se é jovem, a gente não imagina que vai estar com 80 anos e ficar contemporâneo de um filme. Não passou pela minha cabeça que fosse reencontrá-lo em Curitiba tanto tempo depois, mas é como um filho, que a gente acaba cuidando dele para sempre.”