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“IT – 2”: A volta do palhaço sem graça

Por: Luiz Gustavo Vilela
“IT – 2”: A volta do palhaço sem graça

Como deve ser de conhecimento dos fãs da obra de Stephen King, It: A Coisa (2017) adapta apenas a metade da história do livro original. Como era de se esperar, portanto, neste final de semana chega aos cinemas brasileiros a continuação, It: Capítulo Dois, dirigido pelo mesmo Andy Muschietti do primeiro, o que garante a coesão estético-narrativa. Tão coeso, na verdade, que a sensação de ver os dois juntos, uma sessão de cinco horas no total, se assemelha mais a uma maratona de série do que a assistir dois filmes diferentes. Por outro lado, através deste novo trabalho o diretor consegue iluminar o tema central que está soterrado pela aventura de horror do primeiro. Neste díptico a infância é um período terrível e os traumas vividos nesta fase irão criar adultos quebrados que, por sua vez, não conseguirão proteger outras crianças, num ciclo vicioso perpétuo de aterramento.

Em It: A Coisa, o Clube dos Otários, Bill, Ben, Beverly, Richie, Mike, Eddie e Stan – vividos por Jaeden Martell, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer e Wyatt Oleff, respectivamente –, enfrenta uma criatura metamorfa que provoca e se alimenta dos medos das crianças. Sua encarnação favorita é como o terrível palhaço Pennywise, quando é interpretado por Bill Skarsgård. Ainda no primeiro filme eles descobrem que os desaparecimentos acontecem em intervalos de 27 anos e fazem uma promessa de retornar no próximo ciclo de ataques. É aí que It: Capítulo Dois começa, com a reunião dos mesmos “Otários”, agora adultos, retratados por James McAvoy, Jay Ryan, Jessica Chastain, Bill Hader, Isaiah Mustafa, James Ransone e Andy Bean, respectivamente também.

No universo de It os adultos são omissos, apáticos ou abusadores. Ou todas estas coisas. O ciclo de violência é exemplificado mais fortemente pela relação entre um dos bullies que atormenta os Otários e seu pai, ambos psicopatas brutalizados, característica que é aproveitada por Pennywise em seu benefício. Mas não apenas isso. Beverly se casou com um homem que a trata com a mesma violência com que seu pai a tratava; Eddie, um hipocondríaco paranoico, cresce para se tornar um avaliador de risco, igualmente paranoico; Bill escreve ficção de horror, mimetizando na fantasia as experiências da infância – um duplo de King, famoso entre outras coisas por traduzir seus traumas pessoais em ficção. Todos eles, mais ou menos metaforicamente, foram paralisados pelo momento mais cruel de suas infâncias, incapazes de seguir em frente.

A dimensão psicológica da trama sequer é escondida. Em dado momento os Otários descobrem que há um ritual capaz de aprisionar a criatura. Para isso, porém, vão precisar resgatar símbolos afetivos de seu passado. Cada um deles mergulha em suas próprias lembranças traumáticas para conseguir estes objetos. Mais do que os objetos, todavia, é a jornada pelo universo interno que os permitirá enfrentar Pennywise quando o momento derradeiro chegar. O psicodrama é, claro, potencializado pelos poderes do monstro, ainda interessado em devorar aqueles que o derrotaram 27 anos atrás. O afundar nas memórias, portanto, é literal e potencialmente mortal. É dessas situações que Muschietti extrai as sequencias de pesadelo que sustentam as quase três horas de It: Capítulo Dois.

Horror infantil

Levando em consideração seu primeiro longa, Mama (2013), o que parece ter atraído Muschietti para dirigir os dois Its foi justamente a relação entre o universo infantil e o adulto. Em Mama duas irmãs são resgatadas da floresta e dadas aos seus tios. A entidade sobrenatural que cuidou delas até ali não fica nada feliz em perder suas crias e atormenta a família recém-formada. Como é possível que a mente crie blindagens para o horror que é ser criança, mesmo na mais idílica das cidades pequenas americanas, como é a ficcional Derry onde se passa o filme. Ao envelhecer, o mecanismo de defesa do cérebro faz com que as memórias mais aterradoras da infância se tornem doces. Mas o medo está lá, esperando apenas o gatilho ideal para despertar, não importa em qual idade.

Em todos os três longas o horror é usado de forma apenas marginal em relação ao melodrama. No primeiro filme temos um drama doméstico, refletindo sobre a adoção e como uma família pode se estruturar. Em It: A Coisa a aventura juvenil é entrecortada pelas aparições do monstro, mas no fundo é uma fábula sobre enfrentar seus próprios medos e se tornar apto para o mundo adulto – não por acaso alguns dos rituais de passagem da infância para a vida adulta são bem marcados e igualmente traumáticos, como a primeira menstruação, o bar mitzvah, o primeiro amor, etc. A beleza de It: Capítulo Dois está em, justamente, mostrar como estes rituais geram marcas profundas da psique humana por não serem nunca bem resolvidos.

Os dois Its, como filmes de terror, são apenas medianos. A criação e sustentação do clima de tensão é apenas passável e os eventuais sustos ficam entre o previsível e o desnecessário. O interesse está em outro lugar. O horror que estes personagens vivenciam vem da falta de diálogo e empatia entre as gerações. Beverly, criada apenas por seu pai, não tem com quem conversar sobre as mudanças em seu corpo. Bill vive com a culpa de se sentir responsável pela morte do irmão mais novo que o idealizava, mas seus pais se recusam a oferecer consolo, mergulhados em seu próprio luto. Eddie, o hipocondríaco, se casa com uma mulher parecida com sua mãe, superprotetora e igualmente germofóbica. A chave para derrotar Pennywise, agora que eles próprios são adultos, está em justamente não se permitir esquecer o trauma e entender como sua identidade foi moldada por ele.

Derry, afinal, é uma cidade do silêncio. Mesmo diante de um dos ciclos de ataque, com crianças desaparecendo com bastante frequência, os Otários seguem andando livres, sozinhos e sem supervisão pela cidade. Mais do que um buraco do roteiro, é mais uma forma de reforçar a distância cognitiva que há entre o universo infantil e o adulto. Estes mesmos adultos, não custa lembrar, foram crianças 27 anos antes, perdendo amigos e familiares para o esquecimento da fome de Pennywise.