Cinema

Filme baseado nos ataques ao Hotel Taj Mahal chega aos cinemas

Por: Luiz Gustavo Vilela
Filme baseado nos ataques ao Hotel Taj Mahal chega aos cinemas

Apesar de ter uma relação profunda (ainda que conflituosa) com a realidade, o cinema, não raro, falha em comportar os acontecimentos da vida. Recriações e dramatizações de eventos são geralmente simplificados para caberem em um resumo melodramático de duas horas. Não é o que acontece em Atentado ao Hotel Taj Mahal (2018), de Anthony Maras, que estreia em Curitiba no próximo dia 2 de maio. O segredo do filme está menos em tentar abraçar a totalidade dos eventos, e mais: em formular um discurso coeso, criando uma potente elegia ao que os terroristas querem destruir com seus atos de violência.

Em novembro de 2008 uma organização militante islâmica – identificada pelo filme como Lashkar-e-Taiba, do Paquistão, mas há controvérsia na real autoria – empreendeu uma série de 12 atentados com tiros e bombas por toda Mumbai, na Índia. Ao todo foram 164 mortos e mais de 300 feridos ao longo dos quatro dias de terror. O extenso período de tempo se dá, em parte, por falta de organização e pessoal no combate ao terrorismo, que teve que vir de outras cidades. Os ataques, em princípio espalhados, aos poucos se concentraram em dois hotéis de luxo, símbolos da “decadência ocidental”, na retórica dos fanáticos religiosos. O filme, como o título adianta, acompanha os desdobramentos do que ocorreu dentro do Hotel Taj Mahal, o mais luxuoso da cidade.

O maior acerto de Maras está em conciliar duas estruturas aparentemente conflitantes de cinema. Por um lado, o Atentado ao Hotel Taj Mahal parece se inspirar em Duro de Matar (1988), de John McTiernan, em que um peixe fora d’água se vê preso em uma situação muito maior do que jamais pensou viver. É daí que vem boa parte dos elementos de ação e tensão cinematográfica, deixando o espectador apreensivo. Por outro lado, o filme também abraça o estilo de Robert Altman, cineasta americano que se especializou em usar a câmera para fazer um olhar panorâmico pelas situações. Não seguimos um único personagem que terá um arco de redenção próprio. Ao contrário, ainda que existam papéis de destaque, é possível até argumentar que o grupo de terroristas recebe quase tanta atenção dramática quanto os hóspedes e funcionários do hotel. Sabemos tanto da história pregressa de uns quanto de outros, salvo exceções notórias.

Este curioso combo entre Duro de Matar e Nashville (1975), de Altman, funciona em grande parte por uma inusitada habilidade narrativa de Maras – não custa lembrar que este é seu primeiro longa – através da escolha precisa de quais sub tramas irão receber mais atenção. O drama de dois mochileiros americanos que fogem das ruas para dentro do hotel ajuda a conduzir espacial e narrativamente os acontecimentos, por exemplo, mas logo o foco se altera. Os personagens ganham proeminência à medida em que a história se desenvolve em torno do discurso humanista. Se os terroristas, logo, os vilões, querem atacar valores seculares do ocidente, são eles, os valores, os reais protagonistas.

Daí a importância de apresentar personagens diversos, como Vasili (Jason Isaacs), um oligarca russo surpreendentemente empático, ou Arjun (Dev Patel), um garçom do hotel que professa a fé Sikh e causa um certo “desconforto” em uma hóspede assustada com tudo o que é diferente dela. A cena em questão, bastante tocante, sublinha o limite do alcance do terror, quando o jovem indiano busca o entendimento ao invés do confronto, oferecendo empatia como resposta ao preconceito motivado pelo medo. Os terroristas, ao contrário, são retratados como fundamentalistas que precisam reafirmar a todo o tempo a visão simplista de mundo, do “nós” versus “eles”, o que nem sempre reflete a complexidade do mundo.

A linha narrativa que irá refletir esse conflito de forma mais aberta é a do casal Zahra e David (Nazanin Boniadi e Armie Hammer). Ela, uma indiana muçulmana, e ele, americano secular – vulgar até, pedindo whisky com coca e hambúrguer no restaurante de luxo após Arjun lhe recomendar vinhos finos. Eles têm um filho recém-nascido (pivô de uma das mais tensas cenas do filme) e uma babá branca, o que deixa tudo ainda mais confuso para os terroristas, acostumados a pensar nos muçulmanos como explorados, nunca como parte da elite.

Discurso de realidade

Apesar de articular drama, ação e tensão narrativa, o que impressiona em Atentado ao Hotel Taj Mahal é como o filme não abre mão de sua relação com os fatos. Dois dos produtores do filme, Andrew Ogilvie e Andrea Quesnelle, trabalharam no documentário Surviving Mumbai (2009), sobre os mesmos acontecimentos. O roteiro da versão ficcional, escrito por Maras e John Collee, teve acesso aos depoimentos de sobreviventes – entre eles um dos terroristas que foi capturado – para reconstruir os eventos e as linhas do tempo, garantindo a verossimilhança.

Até mesmo os diálogos dos terroristas, sempre falando ao telefone com o “Irmão Touro”, uma misteriosa figura que controlava suas ações de longe e financiou o ataque, foram transcritos e usados na construção do roteiro. Imagens de televisão reais dos dias do atentado, que já haviam sido usados em Surviving Mumbai, também aparecem nas cenas em que a população assustada acompanha o desenrolar dos fatos.

O trânsito entre o que é fabulação da ficção – nem que seja pelas escolhas narrativas, ritmo, foco ou uso de trilha para aumentar ou aliviar a tensão – e o que é real conferem a Atentado ao Hotel Taj Mahal uma urgência que não se vê no cinema de ação. Pense em como as mortes de personagens de filmes de super-herói parecem desimportantes e pouco emocionantes (em parte, claro, por sabermos que elas logo serão revertidas). Essa é, afinal, a mensagem maior deste trabalho: a falta de empatia e diálogo e a impossibilidade de encontrar um meio termo não é uma bobagem. Pode ser a diferença entre a vida e a morte. A diferença entre a sobrevivência de qualquer noção de civilização e a barbárie que se instaura como alternativa.