Cinema

Melhor filme do ano: “A Forma da Água” acerta mais do que erra

Por: Sandro Moser
Melhor filme do ano: “A Forma da Água” acerta mais do que erra

Com 13 indicações para o Oscar e mesmo com acusações de plágio no roteiro,o filme A Forma da Água levou a estatueta de melhor filme do ano, no último domingo (04). 

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O 10º longa-metragem do diretor mexicano Guilermo Del Toro é, antes de tudo, um filme de seu tempo. A começar pelas paixões extremas que já despertou na crítica internacional: as cotações vão de obra-prima à bobagem constrangedora.

A Forma da Água é uma fábula poética em defesa das diferenças. Um quadro de exuberância visual com toque hipster em que sobressai a assinatura de seu criador. No fundo, é um filme de monstro, gênero que é a paixão declarada de Del Toro.

Neste caso, o monstro é uma criatura anfíbia capturada durante o período da Guerra Fria pelo governo americano na Amazônia onde era uma espécie de divindade para “os selvagens”. A criatura vira um trunfo americano que começava a perder a corrida espacial para os russos e passa a ser estudado em um laboratório secreto.

Uma faxineira muda (a ótima Sally Hawkins) do laboratório se encanta pela criatura e começa um delicado jogo de sedução que inclui ovos cozidos e tap dancing. Neste encontro da bela com a fera, Del Toro se ocupa de amalgamar a maior parte das questões estéticas e políticas de seu tempo criando uma espécie de “Et, o extraterrestre” da era Trump.

O mexicano atira para todos os lados e acerta mais do que erra. Quem é fã do universo onírico e expressionista dos monstros de Del Toro, o verá em sua versão mais elegante. Ao lado da caprichada direção de arte de época, a fotografia Dan Laustsen deixa o filme úmido e belo, em tons de verde e azul.

A trama tem algo de sincretismo e pastiche do cinema de gênero americano: é uma história de amor com surpreendente tensão erótica, é thriller de espionagem da guerra fria, é um filme de monstro, sobretudo, mas com toques de comédia nostálgica e usa sem dó os arquétipos e clichês de cada um destes modelos.

O clima retrô contrasta com a edição ágil e cheia de efeitos, mais contemporânea impossível. Há incalculáveis referências ao cinema do passado, algumas mais evidentes como o Mostro da Lagoa Negra, A Bela e a Fera, Casablanca, musicais da Metro e muitas mais e uma sensacional trilha sonora nostálgica.

Do ponto de vista político, o roteiro discute as questões mais quentes da contemporaneidade como o convívio com as diferenças, a intolerância, o imperialismo violento das nações, a tragédia ambiental eminente, os limites da ciência.

Assim, há muitas razões para gostar ou desprezar A Forma da Água, mas poucas para recebê-lo com indiferença.

Plágio

Na véspera da estreia brasileira do filme, a produção de A Forma da Água enfrenta uma acusação de plágio no roteiro escrito por Del Toro e Vanessa Taylor (Divergente). Quem contesta a originalidade do filme é o espólio do dramaturgo Paul Zindel.

Segundo a família Zindel o filme teria usado sem crédito o argumento da peça Let Me Hear You Whisper, de 1969, onde a zeladora de um laboratório governamental também acaba se apaixonando por uma criatura aquática (no caso, um golfinho), além de outras semelhanças em cenas e diálogos específicos.

Um representante da Fox Searchlight, estúdio por trás de A Forma da Água, negou em nota oficial as acusações, ressaltando que o diretor Guillermo Del Toro não conhecia a peça de Zindel. "Sr. del Toro construiu uma carreira ao longo de 25 anos, na qual fez 10 filmes e sempre foi muito aberto sobre as suas influências. Se a família Zindel tem perguntas sobre esse trabalho original, estamos abertos para conversar."