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Opinião: crise de criatividade em Pets 2 resulta em repetição de piadas

Por: Anderson Gonçalves
Opinião: crise de criatividade em Pets 2 resulta em repetição de piadas

A entrada da tecnologia 3D na animação na década de 1990 foi, sem sombra de dúvida, um marco na história do cinema. O movimento iniciado com Toy Story em 1993 representou não somente um importante avanço técnico, mas alçou o gênero tratado até então como predominantemente infantil a um novo patamar. Produções como Shrek, Procurando Nemo, Wall-E e Os Incríveis se tornaram clássicos contemporâneos ao aliar qualidade artística e apelo popular, ganhando reconhecimento da crítica e bilheterias polpudas.

A consequência natural desse fenômeno foi a profusão de sequências, que aliam a comodidade de uma receita já preparada com a expectativa do público em rever na tela seus personagens queridos. Mas como toda fórmula repetida à exaustão um dia perde o encanto, parece que chegamos a um novo momento. Pets: A Vida Secreta dos Bichos 2, que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (27), é um caso sintomático da crise de criatividade que acomete os estúdios de animação, que vêm apostando nas sequências para compensar o insucesso com novos produtos.

O primeiro Pets foi lançado em 2016 pela Illumination Entertainment, braço da Universal Studios responsável pelas animações Minions e Meu Malvado Favorito. A ideia era divertida: um grupo de animais de estimação se aventura por Nova York enquanto seus donos estão fora de casa. Ainda que o resultado final não trouxesse grandes novidades, o filme apresentava algumas boas sacadas, principalmente para quem gosta e tem animais em casa. O público adorou. Pets arrecadou mais de US$ 875 milhões e se tornou a sexta maior bilheteria mundial daquele ano.

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US$ 875 milhões

Arrecadou o primeiro Pets em 2016, tornando-se a sexta maior bilheteria nos cinemas daquele ano.

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Logo, não tardou para que chegasse às telas o segundo episódio. Dessa vez, a trama divide os personagens em três narrativas. Os cães Max e Duke viajam com seus donos para uma fazenda e experimentam a dureza da vida no campo; enquanto isso, no prédio onde moram, a cadela Gigi precisa se passar por uma gata para enfrentar uma horda de felinos; e o coelho metido a herói Bola de Neve e junta a um novo personagem, a cachorrinha Chloe, para resgatar um tigre que sofre maus tratos. As três histórias acabam convergindo para o desfecho, que irá reunir todos os personagens.

Se o primeiro Pets já divertia com certa moderação, o segundo é ainda menos inspirado. Entre uma boa piada aqui e ali, o filme acaba repetindo cacoetes de gênero, com altas doses de correria, perseguição e lutas animadas. Para os pequenos, pode ser o suficiente para entreter sem cansá-los. Mas para quem se acostumou com o padrão mais exigente estabelecido por Disney e Pixar, com personagens carismáticos e roteiros criativos, o sentimento é de frustração.

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Público aprova

Ainda que a qualidade deixe a desejar, é bem provável que Pets 2 não decepcione nas bilheterias. Seu iminente sucesso seria apenas a confirmação de um fenômeno perceptível ao olhar as estatísticas dos últimos anos, de que é mais seguro apostar em uma sequência do que arriscar com algo inédito.

Por ironia, o ano de 2016 foi o último em que houve um certo protagonismo de animações inéditas. Além de Pets, entre as 15 maiores bilheterias do ano estavam Zootopia, Moana e Sing. A que mais arrecadou, contudo, foi Procurando Dory, sequência de Procurando Nemo. Em 2017, esse posto ficou com Meu Malvado Favorito 3, única animação a superar a marca de US$ 1 milhão.  Ainda assim, as novidades Viva – A Vida é uma Festa e O Poderoso Chefinho tiveram bons desempenhos.

No ano passado a coisa mudou de figura. As animações com melhor desempenho foram Os Incríveis 2, WiFi Ralph: Quebrando a Internet (sequência de Detona Ralph) e Hotel Transilvânia 3. As outras duas produções que aparecem em seguida nessa lista são O Grinch e Homem-Aranha no Aranhaverso, que não são exatamente originais, visto que repaginam personagens já conhecidos e adaptados anteriormente.

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Para esse ano, o cenário visto até o momento não é muito diferente. Por enquanto, os melhores resultados de animações nas bilheterias foram de Como Treinar seu Dragão 3 e Uma Aventura Lego 2. Além de Pets 2, as grandes apostas estão em Toy Story 4, em cartaz desde a última quinta-feira (20), e Frozen 2, que estreia em novembro. Em contrapartida, produções com histórias inéditas, como É o Bicho, Parque dos Sonhos e Ugly Dolls fracassaram nos cinemas. Restam ainda poucas novidades, como Playmobil: o Filme e Um Espião Animal.

O ano de 2020, porém, promete novidades além do “mais do mesmo”. O grande lançamento preparado pela Pixar é Onward (“para a frente”, em tradução livre), sobre dois irmãos adolescentes elfos, que vivem em um mundo mágico sem humanos. A Disney, por sua vez, prepara um projeto que reuniria o premiado compositor Lin-Manuel Miranda (de Moana) e Byron Howard, diretor de Zootopia. Pelos lados da Fox, já foi anunciado o lançamento de Ron’s Gone Wrong, que narra a amizade entre um garoto pobre e um robô num futuro próximo.

Vozes famosas

A exemplo do que aconteceu em Hollywood, no Brasil o fortalecimento da animação serviu também como uma nova oportunidade para atores. Como mais um chamariz para os espectadores, nomes conhecidos do grande público têm emprestado suas vozes para personagens animados. Em Pets 2, o elenco conta com Danton Mello, Dani Calabresa, Luis Miranda e Tiago Abravanel.

Assim como no primeiro filme, Tiago dá voz ao personagem Duke, um cão estabanado e divertido. “Ele tem características parecidas com as minhas, é um personagem brincalhão e de coração gigante, fiquei muito fã dele”, contou o ator em entrevista à Gazeta do Povo. Um dos desafios do trabalho, de acordo com ele, foi o fato de a voz que faz a dublagem original ser diferente da dele. “Tive que incorporar as minhas características vocais e interpretativas sem que o personagem perdesse sua essência.”

Além de Pets, Tiago Abravanel também trabalhou na dublagem das animações Detona Ralph, WiFi Ralph e no live action Mogli – O Menino Lobo. “Eu tiro o chapéu para os dubladores profissionais, é um trabalho gigantesco que a gente não faz ideia. Muitas vezes, é um desafio ainda maior que o dos atores porque é preciso transmitir toda a emoção da história usando unicamente a voz”, afirma.

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