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Cineasta estreia em ficção com pitadas autobiográficas em “Deslembro”

Por: Luiz Gustavo Vilela
Cineasta estreia em ficção com pitadas autobiográficas em “Deslembro”

Flávia Castro morou na França do final de sua infância ao começo de sua adolescência, nos anos 1970. Retornou com a anistia e reabertura política para encontrar um Brasil que já não reconhecia, mas que, ainda assim, “era um período de esperança”, como contou em entrevista por telefone. É essa mistura de sentimentos que norteia Deslembro, seu mais novo trabalho como roteirista e diretora que estreou no dia 20 de junho nas salas de Curitiba. Assim como em Diário de Uma Busca (2010), seu primeiro documentário, é a memória dos anos de chumbo da história recente brasileira que está no centro do jogo dramático que ela propõe. Dessa vez, porém, usando a ficção como tabuleiro.

Em Diário de Uma Busca a diretora tenta entender a situação da morte de seu pai, o jornalista Celso de Castro, que foi encontrado já morto no apartamento de um ex-oficial nazista. Tudo isso embalado no contexto da Ditadura Militar. Flávia, porém, não estava interessada tanto assim em elucidar o caso, mas sim em refletir sobre como a militância contra o regime ditatorial deixou marcas profundas nela e em sua família. Deslembro, como o próprio título adianta, parte desse mesmo caldeirão de emoções, articulando memória, perda e política. “Durante a montagem do Diário de Uma Busca eu ficava pensando muito nessa coisa da memória no cinema, pensando no que era um trabalho de memória, como seria isso de uma forma mais livre, mais lúdica, indo mais fundo na subjetividade do que o documentário me permitia. Acho que, acabando o Diário, eu continuei com essa vontade de aprofundar”, revela.

O filme de ficção é centrado em Joana, papel da estreante Jeanne Boudier, uma adolescente que, como Flávia, retorna para um Brasil que já não se parece com um lar depois de passar pelos anos de formação na França. Ela pouco conhece os sambas e bossas de Vinícius de Moraes e Toquinho que faziam a cabeça de seus jovens conterrâneos e se identifica mais com os rocks de Jim Morrison e Lou Reed – e a maneira como Joana vai aos poucos mergulhando na cultura brasileira, se encantando pela música e cenários, é uma das muitas delicadezas de Deslembro. O cenário do Rio de Janeiro, menos familiar que o de Paris, reforça o estranhamento de seu universo interno que, além de tudo, busca se conciliar com a descoberta do amor, do sexo e da falta do pai, um desaparecido político.

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Quando perguntada sobre a relação entre criadora e criatura, Flávia pensa que “talvez seja menos da minha história e mais das sensações do personagem, que foram de mim para a Joana. Tem muitos pontos da minha história que se misturam com a dela, mas eu penso muito mais na relação com a literatura, com a música, nas sensações de ter chegado ao Brasil, depois da volta com a anistia, mais do que na história mesmo”. Ela, porém, reforça o que considera como diferença: “eu não tive um pai desaparecido político, não tive essa dor e essa busca que ela tem no filme. A minha história é diferente. Mas acho que, sem dúvida, as impressões dela, as sensações, a forma como ela está no mundo no momento em que ela chega no Brasil, adolescente, é muito próxima da minha própria experiência.”

Em princípio, podem não parecer tão distantes assim as histórias de Flávia e Joana. Ambas partem da ausência da figura paterna, vazio decorrente da violência de estado perpetrada pela Ditadura. Mas a diretora sempre soube do paradeiro de seu pai. Seu vazio tem forma definida. Os desaparecidos políticos, ao contrário, eram colocados num limbo tanto afetivo quanto jurídico-burocrático. A personagem sequer sabe se deve chorar a falta de um homem morto ou foragido, status afetivos de outra ordem. Muito da força de Deslembro vem da forma como este vácuo emocional é abordado.

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Impressionismo

Flávia Castro nunca se interessou em “resolver” a chaga da Ditadura Militar Brasileira com seus filmes. “Apesar de ser um filme que se inscreve na grande história do Brasil, acho que estou sempre me interessando pela pequena história, pela vida cotidiana, pela historinha da pessoa. Dos indivíduos, que são atravessados ou atropelados pela grande história, então acho que neste sentido sim a gente quis fazer uma coisa mais intimista mesmo”, disse. Assim é sua própria história, em Diário de uma Busca, e a de Joana, em Deslembro. No caso deste último, porém, a narrativa exige uma composição estética que ajude a veicular estes sentimentos tão caros para a diretora.

A opção pelos closes, por exemplo, pode parecer em princípio uma forma de contornar as limitações orçamentárias. O céu do Rio de Janeiro é o mesmo hoje ou em 1975. Assim, enquadrar os personagens de baixo para cima, com seus rostos tomando boa parte do quadro, resolve uma série de problemas. Mas não é apenas isso. “Para mim o norte é que tudo o que a gente via era o interior da Joana. A cenografia foi toda pensada como o estado emocional da Joana, ponto”, revela Flávia. Recriar a Paris ou o Rio de Janeiro, portanto, sequer faz sentido, e os eventuais objetos de cena e carros da época que estão lá atendem mais a uma demanda de fruição do público, que pode facilmente se distrair com marcas de modernidade, do que qualquer outra coisa. “Não fizemos uma reconstrução de época meticulosa. Ela é muito mais impressionista do que precisa”, completa.

A expansão do universo interno de Joana é demonstrada pela paleta de cores do filme. “Tinha uma ideia de que Paris era quente e o Rio era frio. Que o Rio era invernal, e com cores frias, e Paris era mais tropical”, diz Flávia. Um conceito que vai contra toda a convenção estilística das duas cidades, mas que atende ao propósito de Deslembro. A diretora credita a felicidade na composição visual ao encontro com a curitibana Heloisa Passos, que fez a direção de fotografia, e a carioca Ana Paula Cardozo, diretora de arte, o que permitiu que o filme tivesse um olhar eminentemente feminino, algo raro em produções cinematográficas. “Acabou sendo uma equipe feminina, porque esses encontros foram muito fortes, mas não foi uma escolha de princípio”, completa.

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