Filmes

Programação de cinema veio diretamente do frio

Por: Luiz Gustavo Vilela
Programação de cinema veio diretamente do frio

Aos cinéfilos curitibanos não foi dado o direito de reclamar da presença massiva de blockbusters e filmes de herói nas salas de exibição. Pelo menos não neste final de maio, início de junho. A cinemateca de Curitiba apresenta O Cinema Segundo Pasolini, mostra dedicada à obra do Mestre italiano Pier Paolo Pasolini, que é parte do festival de cultura italiana Mia Cara Curitiba.

Dia 6 de junho começa o 7º Olhar de Cinema, festival que traz mais de 150 filmes de todo o mundo, muitos em estreia nacional ou mundial. Entre os dois eventos, como se já não fosse suficiente, está o Festival Ponte Nórdica, na Caixa Cultural entre os dias 29 de maio e 3 de junho, se colocando confortavelmente no feriado de Corpus Christi, facilitando para quem tiver interesse comparecer.

>> Após prejuízo, Paramount cancela novo Transformers para 2019

>> Han Solo — Uma História Star Wars revê o passado do herói da saga

>> Roteiro: bares em Curitiba com chope até R$ 10

A curadora do festival é Tatiana Groff, produtora cultural com 20 anos de experiência – 15 deles só no Festival Internacional de São Paulo. Seu interesse pelo cinema nórdico começa pelos radicais do manifesto Dogma 95 – movimento que pregava certa pureza da produção através de um conjunto de regras –, como Lars Von Trier, Thomas Vinterberg e Susanne Bier. “Meu contato não começa pelos classicões, [Ingmar] Bergman e [Carl Theodor] Dreyer eu conheço depois”, conta, apontando a questão geracional da formação cinéfila. Destes primeiros filmes se desenvolve uma relação que permite a parceria com o Instituto Cultural da Dinamarca, promovendo a Mostra de Cinema Dinamarquês. Em pouco tempo, porém, esta mostra se transforma no Festival Ponte Nórdica, ampliando para além da produção da Dinamarca, as da Suécia, Noruega, Islândia, Finlândia e Groenlândia.

A primeira edição do Festival foi montada em consonância com a definição de uma política pública de equidade de gênero no audiovisual definida pela Suécia, que acabou sendo adotada por diversos outros países. Segundo Tatiana, “ao invés de fechar em filmes só de mulheres, invertemos a lógica estabelecida no mercado, de que era mais ou menos 20 ou 30% de mulheres diretoras para 70 ou 80% de homens”. A ideia é que cada edição dê um passo à frente, o que fica bem claro quando vemos os 11 filmes que serão exibidos.

Viagem cultural

O cinema nórdico não é exatamente desconhecido pelos brasileiros que estiverem minimamente interessados. Além de alguns filmes dos diretores já citados, é sempre possível ter visto aquele eventual indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, como é o caso de A Caça (Jagten, 2011), de Vinterberg; Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown, 2012), de Felix Van Groeningen; The Square: A Arte da Discórdia (The Square, 2017), de Ruben Östlund; e, claro, Depois do Casamento (Efter brylluppet, 2006) e Em Mundo Melhor (Hævnen, 2010), ambos de Bier, que chegou a levar para casa a estatueta dourada pelo último. Ainda que sejam filmes importantes, são insuficientes para compreender as complexidades culturais relativas a estes países.

Além disso, são todos filmes da Dinamarca, Suécia ou Noruega, que são países cuja cultura é mais dominante. Islândia e Groelândia, ao contrário, são países cuja produção cultural raramente ultrapassa suas próprias fronteiras. Daí a importância de um filme como Sumé – O Som da Revolução (Sumé: Mumisitsinerup nipaa, 2014), de Inuk Sillis Hoegh, que será exibido na terça, 29 de maio, 16h30, e na sexta, 3 de junho, 14h30, documentário sobre a revolucionária banda Sumé, com integrantes de ascendência Inuit e canções compostas e executadas em groelandês. Na década de 70, com um som que de alguma forma antecipava The Clash e Sex Pistols, reivindicava a cultura Inuit, dos povos nativos da Groelândia, como resistência política à dominação dinamarquesa, que ainda existe.

Outro destaque é Long Story Short (Lang historie kort, 2015), de Mary el-Toukthy, exibido na quinta, 31 de maio, e domingo, 3 de junho, ambas sessões 16h30. Seria uma comédia romântica absolutamente banal, não fosse seu formato episódico, acompanhando um grupo de amigos e seus encontros e desencontros amorosos ao longo do tempo. É um filme, como é comum nessas produções, que chama atenção pela naturalidade como encara a questão do amor homossexual, colocando um casal lésbico na trama sem necessidade de ser panfletário. Elas simplesmente existem e têm problemas tão mundanos quanto qualquer outro casal. Neste sentido, Tatiana destaca o Garotas Perdidas (2016), de Alexandra-Therese Keining, que será exibido no sábado, 2 de junho, 16h30, “que é leve, quase bobinho, voltado para o público adolescente e estética fantástica e que por acaso lida com a questão trans”.

A equidade, nesta segunda edição, vai além do gênero. Como o nome mesmo indica, Mary el-Toukthy, a diretora de Long Story Short, possui ascendência egípcia. O mesmo vale para Milad Alami, diretor de O Conquistador (The Charmer, 2017), que será exibido no primeiro e no último dia do Festival, 19h30. O filme acompanha um imigrante que precisa usar seu poder de sedução para garantir sua estadia na Dinamarca. O próprio diretor, “meio sueco, meio iraniano, que vive hoje na Dinamarca”, segundo Tatiana, usa sua origem Iraniana para refletir sobre a condição de expatriado e sua relação com o novo país e as pessoas que ali vivem.

Painel discute diversidade audiovisual

O Festival Ponte Nórdica promove ainda o painel “Diversidade no Audiovisual: Brasil e Países Nórdicos”, com mediação da curadora Tatiana Groff, que acontecerá no sábado, 2 de junho, 19h30. Irão participar Eliane Ferreira, produtora e proprietária da Muiraquitã Filmes; Heloísa Machado, representante da ANCINE; e Anders Hentze, agente cultural e músico dinamarquês, além de diretor adjunto do Instituto Cultural da Dinamarca. Entre os temas, o debate deverá cobrir a promoção da diversidade e equidade de gênero, a regionalização e a internacionalização. Um dos casos apresentados é de Aurora, próxima produção do brasileiro Karim Ainouz, de Praia do Futuro (2014), que será financiado pela Noruega e outros países nórdicos.