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Festival de Curitiba completa 28 edições com mais de 400 atrações

Por: Anderson Gonçalves
Festival de Curitiba completa 28 edições com mais de 400 atrações

Lá se vão quase 30 anos desde que um grupo de cinco jovens estudantes resolveu que era necessário fazer alguma coisa para movimentar a cena cultural de Curitiba. A proposta era ousada, ainda mais para quem não tinha nenhuma experiência na área: criar um grande festival de teatro, reunindo alguns dos maiores nomes do segmento no país. Muitos achavam que não daria certo, mas a turma insistiu. Tanto insistiu que, a partir da próxima terça-feira (26), as atenções do meio teatral se voltam à cidade, como acontece desde 1992. Com a participação de artistas de destaque nacional e internacional, será aberta a 28ª edição do Festival de Teatro de Curitiba.

O evento, que começou com uma seleção de 14 espetáculos de nomes de peso como Cacá Rosset, Antunes Filho, José Celso Martinez Correa e Fernanda Montenegro, cresceu e se expandiu para outras áreas. A edição 2019 conta com mais de 400 atrações espalhadas por 80 espaços culturais da cidade. Além da Mostra Oficial, grande chamariz de público, apresenta há alguns anos a mostra paralela Fringe e eventos dedicados a comédia, teatro infantil, variedades e gastronomia. No ano passado, o público total passou de 215 mil pessoas.

Como de praxe, estrelas para a nova edição não faltam: Regina Casé, Mel Lisboa, Cláudia Abreu, Gregório Duvivier, Leandra Leal… Mas nem só de famosos vive um festival que se tornou o maior e um dos mais longevos do país. “Tentar acompanhar o entorno, avaliar o contexto e entender as tendências, enfim, se manter atualizado é o nosso grande desafio. Acredito que isso faz o festival continuar relevante depois de tanto tempo”, afirma Leandro Knopfholz, diretor do festival e um dos jovens que idealizaram e criaram o evento em 1992.

A Curitiba que assistiu à primeira edição era bem diferente da atual, como atesta uma reportagem publicada pela Gazeta do Povo. “Há anos, muitos anos mesmo que Curitiba não centralizava a atenção da cultura nacional com um evento do peso e da expressão do Festival de Teatro de Curitiba”, diz o texto, que reflete o impacto que o evento teve na cena cultural. “Com essa iniciativa, Curitiba quebra a hegemonia do eixo Rio-São Paulo e transfere para o Sul as propostas que só os privilegiados moradores destes dois estados tinham condições de assistir. O público participou de cada espetáculo com a emoção de quem está sendo privilegiado com o que há de melhor em produção teatral na atualidade.”

Marília Gabriela, uma das várias estrelas que passaram pelo festival ao longo da história. Foto: Divulgação. 

Vinte e sete anos depois, o festival mantém a tradição de trazer novidades quentes ao público. A atual edição conta com sete estreias nacionais, algumas vindas do exterior. Aquele que Cai, criação do coreógrafo, bailarino e acrobata francês Yoann Bourgeois, considerado um dos nomes mais criativos e inovadores do gênero, será encenada pela primeira vez no Brasil. Assim como As Comadres, primeiro espetáculo encenado fora de Paris pela diretora francesa Ariane Mnouchkine, fundadora do Théâtre du Soleil.

“Tem muita coisa que o público curitibano não teria a oportunidade de assistir se não fosse o festival”, destaca Leandro. Isso inclui não apenas espetáculos da Mostra Principal, mas também das mostras paralelas, abertas a novidades e experimentações. “Uma grande parte das atrações não são economicamente viáveis, mas a gente não olha apenas por esse viés. É nosso dever também olhar pelo viés artístico, sempre trazer uma programação relevante e com um discurso coerente.”

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As origens

Escrito por Geraldo Peçanha de Almeida, fruto de uma dissertação de mestrado apresentada em 2002 na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o livro Palco Iluminado: 10 Anos do Festival de Teatro de Curitiba narra as origens e a primeira década do evento. Segundo a publicação, o projeto foi concebido em 1991 por Victor Aronis, Cássio Chamecki, Carlos Eduardo Bittencourt, César Heli Oliveira e Leandro Knopfholz, único que permanece na organização. “A ideia do Festival de Teatro de Curitiba surgiu a partir do questionamento do grupo em relação ao que a cidade de Curitiba oferecia em termos de diversão. Além da música, segundo Victor, a cidade não oferecia outras opções culturais”, relata o autor.

Graças a uma rede de contatos mantida pelos organizadores e apoio financeiro do extinto banco Bamerindus, foi viabilizada a primeira edição do festival, que trouxe a elite do teatro nacional à cidade. A abertura do evento, em 19 de março de 1992, marcou ainda a inauguração da Ópera de Arame. A intenção dos organizadores era que ela acontecesse no Teatro Guaíra, mas o então governador Roberto Requião negou a cessão do espaço por divergências com o Bamerindus. O grupo procurou então o prefeito da época, Jaime Lerner, que decidiu antecipar a construção da Ópera para receber o festival.

Ausente da organização apenas entre 2001 e 2009, Leandro diz que não foram poucas as dificuldades enfrentadas para manter o festival sem que ele perdesse sua relevância. Uma delas, como a de quase todos os segmentos, é a financeira, ainda mais em um país que, em três décadas, enfrentou alta instabilidade econômica. “E existe um desafio que é competir com tantas outras possibilidades que as pessoas têm para aproveitar o tempo. Há 28 anos era de uma forma, hoje é completamente diferente. Então, além das questões burocráticas, há esse grande desafio constante que é o de conversar com o público”, ressalta.

Apresentações teatrais na rua se tornaram uma característica do evento. Foto: Divulgação

Polo formador

Entre tantas mudanças sociais, culturais e econômicas, o Festival de Curitiba permanece sendo uma referência. Em seu blog, a historiadora e crítica teatral Tânia Brandão, que integrou a curadoria entre 2005 e 2015, classifica o festival como “o evento mais importante do teatro brasileiro”. “É sempre uma emoção indescritível ver como a cidade fervilha teatro. No que se refere à grade oficial, ela se manteve fiel à tradição, não sofreu qualquer mudança conceitual de fundo, persistiu sendo uma vitrine da produção teatral brasileira do momento”, afirmou, sobre a edição de 2018.

Para Leandro Knopfholz, um dos principais legados do festival é o seu caráter formador. “É a maior reunião de artistas ao mesmo tempo do Brasil. Produções sediadas em Curitiba se apresentaram no festival e ganharam o país. Atores, diretores, técnicos de várias áreas começaram ou se destacaram aqui. Ao longo desses quase 30 anos criou-se um polo formador, um ponto de referência para as artes”, conclui.

“Tentar acompanhar o entorno, avaliar o contexto e entender as tendências, enfim, se manter atualizado é o nosso grande desafio. Acredito que isso faz o festival continuar relevante depois de tanto tempo.” Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Curitiba e um de seus idealizadores.

Ingressos esgotados

Quem ainda não garantiu ingressos para os espetáculos da Mostra Principal é bom se apressar. Até a última quinta-feira (21), dois deles já estavam com ingressos esgotados: Dogville, estrelado por Mel Lisboa e baseado no filme homônimo de Lars Von Trier, e Sísifo.Gif, solo de Gregório Duvivier. Outro que estava com poucos ingressos disponíveis era O Recital da Onça, monólogo de Regina Casé. Os ingressos estão à venda nas bilheterias do ParkShopping Barigui e do Shopping Mueller, no site festivaldecuritiba.com.br e pelo aplicativo Festival de Curitiba 2019, com valores até R$ 70.

Confira a programação completa: 

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