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Letrux volta a Curitiba com show sobre o “banal e sensacional”

Por: Flávia Schiochet
Letrux volta a Curitiba com show sobre o “banal e sensacional”

Assistir a um show de Letrux é hipnose na certa. Não por acaso: Letícia Novaes, antes de ser a mulher à frente da banda e por trás das letras, pertence ao palco. Estudou artes cênicas, escreve, canta, interpreta e entretém desde de meados dos anos 2000 – em 2008 formou Letuce, um duo que terminou em 2016.

Há dois anos, equilibra uma rotina de entrega em shows como Letrux e disciplina nas coxias como Letícia. A dinâmica se repete toda semana desde o lançamento do disco de estreia, Noite de Climão, em meados de 2017.

Letrux volta pela segunda vez a Curitiba em menos de seis meses com o show. Sua primeira apresentação foi em novembro no Hermes Bar; desta vez, volta para uma apresentação ao final da tarde do segundo dia de Coolritiba, 11 de maio, em ambiente aberto e ensolarado.

“O burburinho vai crescendo. A gente tem tocado músicas que não estavam no repertório da outra vez [que estivemos em Curitiba], então tem coisas novas. Vejo muita gente que foi no show, gostou e acaba comentando nas redes sociais que vai de novo, chama os amigos. O boca a boca conta muito nesse caso”, contou Letícia, por telefone, ao Guia Curitiba.

Confira os principais trechos da entrevista:

Como é a preparação para encarnar um personagem que fala de tantas facetas do amor, paixão e tesão em uma mesma noite?

De alguma maneira eu sou uma pessoa muito… eu sou maluca. Porque eu consigo ser disciplinada e espontânea ao mesmo tempo. Eu estudei teatro, você ensaia um monólogo não sei quantas vezes, apresenta aquilo não sei quantas vezes e cada dia é um dia. O ator é um ser vivo, né?

Tem uma beleza na repetição. Clarice Lispector escreveu que a solução do enigma é a própria repetição do enigma. Às vezes você só entende o enigma se o repetir setecentas vezes.

Como recarrega a pilha para repetir essa intensidade no palco há dois anos?

Eu saio do show e não consigo dormir depois. Às vezes você sai às 2h do show e às 5h tem que estar de pé para um voo. É puxado, rola quase um atletismo.

Eu não bebo antes do show. É muito raro. Eu gosto desse estado de concentração, de olho no olho, de sobriedade, eu acho o máximo. Depois do show eu sempre bebia, até para dar uma baixada, porque é o palco que me deixa louca [risos]. Então bebia uma garrafa de vinho para baixar. Até que minha fonoaudióloga me disse que o pior momento para beber é depois do show, porque as cordas vocais estão muito ativas. É como se eu estivesse colocando álcool em um machucado ralado. Eu fiquei muito mais disciplinada e concentrada.

Disciplina para escrever todo dia, cuidar da voz antes e depois dos shows e se apresentar com entrega. Foto: Divulgação

Bebo de vez em quando, socialmente, mas acaba o show e eu tento falar baixo. A galera afina guitarra, pluga teclado e depois podem se estragar maravilhosamente bem. Eu também gostaria, mas eu sou muito disciplinada pra me machucar em um momento da minha vida em que estou crescendo profissionalmente. E claro que sinto uma agonia de não poder beber, uma agonia de ter que ir pro hotel e pedir uma canja [risos].

Sobre cantar esses assuntos intensos toda noite, isso não me cansa. Engraçado. Eu acho um processo maravilhoso. Toda noite eu entendo as letras de uma maneira, toda noite alguém me olha da plateia e sente alguma coisa, é bacana. Não sinto o cansaço da repetição das letras. Sinto o cansaço de dormir, acordar cedo, pegar avião. O show em si ainda me alimenta e me cura muito.

Como você avalia seu trabalho em composição desde o Letuce até esse primeiro álbum solo?

Eu sempre fui muito honesta e verdadeira com minhas emoções. Nunca fiz música para fazer sucesso, pensando “aqui vai ser o refrão”. Sempre foi um processo muito espontâneo e sensorial. Nem sempre escrevo sobre mim, mas a sensação tem de passar por mim, mesmo que seja ficção.

Antes do Letuce eu tive outra bandinha de rock. Sempre foi sobre amor, meu assunto sempre foi observação da vida que ao mesmo tempo é banal e sensacional. Eu sempre fui essa pessoa de observar o mundo e criar poesia em cima disso mesmo, do cotidiano, do amor.

Em uma entrevista você falou que o próximo álbum será sobre emoção. Em que estágio estão? É possível escrever sobre outra coisa?

Ainda estamos compondo, estou em momento de gestação. A gravação do segundo disco será no final do ano. Ainda é sobre emoção e amor e sempre vai ser sobre isso.

Tem algum exercício que desbloqueie ou catalise seu processo criativo de composição?

Eu sou muito adepta do espontâneo, mas eu tenho noção da importância da prática e do exercício. Todo dia eu leio. Quem quer escrever bem – desculpa – tem que ler. Estou sempre lendo algum livro, seja romance, poesia, o que for. Todo dia eu escrevo, nem que inclua uma poesia, uma legenda do Instagram. Eu reflito, elaboro, escolho um verbo, penso em sinônimos, acho que aquela frase é batida, eu medito, eu melhoro. Eu tenho práticas, eu sou espontânea, mas é aquela frase do Picasso: a inspiração se encontra trabalhando. Então eu não dou mole, eu trabalho muito.

As primeiras mulheres artistas que marcaram Letícia foram Clarice Lispector, Maria Bethânia e Janis Joplin. Hoje, é "cada vez mais quem eu gostaria de ser. E livre". Foto: Divulgação

Quem eram as pessoas que despertavam seu interesse quando você pensava “eu também quero fazer música”?

De alguma maneira eu sempre fui muito atenta a mulheres cantando, mulheres dirigindo [filmes], atuando. Eu ficava muito mexida, porque eu só via nome de homem. Desde criança, eu via um monte de autor homem e, de repente, Clarice Lispector. Eu fiquei “nossa…”. Na música, talvez a primeira grande foi Maria Bethânia, que pensei “o que que é isso?” e internacional foi Janis Joplin. Elas talvez tenham sido as primeiras que me deram a sensação de transferência.

Tem alguma inspiração recente?

Agora há muitas mulheres [produzindo], mas não penso mais no “quero fazer isso”. É bom admirar mulheres, ter parceiras mulheres, mas é muito bom ter referências quando você está moldando sua personalidade. Claro que estamos sempre mudando. Tenho 37 e estou cada vez mais sendo quem eu gostaria de ser. E livre.

Por mais diversas que sejam as histórias sobre amor que você tenha cantado em Noite de Climão, tem alguma situação que ficou de fora?

Teve uma música que não entrou no disco, mas que a Fafá de Belém gravou [em 2019]. Se chama “Alinhamento energético”. É uma música muito atual, até penso que é muito melhor ela ter saído hoje que em 2017. Ficou maravilhosa na voz dela. Fala sobre estar vivo hoje em dia, sobre as pessoas estarem ansiosas, sobre o mundo estar horroroso e você ter que respirar pra entender e aceitar o mundo.

Mas acho que tudo que saiu no Climão era pra ter saído, eu não guardei nada. O novo álbum é um novo processo de composição.

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