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Documentário reconstrói o cinematográfico assalto a banco que teve 300 reféns e acabou aplaudido

Por: Anderson Gonçalves
Documentário reconstrói o cinematográfico assalto a banco que teve 300 reféns e acabou aplaudido

Um dos grandes sucessos da Netflix nos últimos anos, o seriado espanhol La Casa de Papel conta a história de um grupo de criminosos que bola o plano perfeito para assaltar um banco. Uma das estratégias do grupo é conquistar a simpatia da população, fazendo ela ficar a favor dos bandidos e contra a polícia. Surreal, mas não irreal. Talvez os roteiristas da série nem saibam, mas a criação deles guarda semelhanças com um episódio ocorrido há 31 anos em Londrina, no Norte do Paraná.

Em 10 de dezembro de 1987, aniversário da terceira maior cidade do Sul do Brasil, sete homens armados invadiram uma agência do Banestado – antigo banco estatal paranaense, privatizado e adquirido pelo Itaú em 2000. Dentro da agência, localizada no centro de Londrina, mais de 300 pessoas, entre funcionários e clientes, são mantidas reféns. Após sete horas, os assaltantes deixam o prédio levando um grupo de 14 reféns. Em meio a uma multidão que se aglomerou para acompanhar o episódio, o bando deixa o local sob aplausos e gritos de apoio.

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O desfecho inusitado é apenas um dos elementos que tornam o episódio aquilo que se convencionou chamar “um assalto cinematográfico”. Trinta anos depois, literalmente. Desde a última quinta-feira (6), está em cartaz em Curitiba o documentário Isto (não) é um Assalto, dirigido pelo londrinense Rodrigo Grota, que reconstitui a história daquele que até hoje é o mais longo sequestro envolvendo um grande número de reféns no Brasil. Em Londrina, o filme está em cartaz há duas semanas, onde já fez mais de 1,3 mil espectadores, marca considerável para uma produção totalmente local, exibida em apenas duas salas.

Rodrigo Grota contou à Gazeta do Povo que a ideia surgiu no final da década de 1990, quando era estudante de jornalismo e conheceu Paulo Ubiratan, repórter que foi um dos personagens do assalto. Ao passar em frente à agência e tomar conhecimento do que estava acontecendo, o jornalista se ofereceu para entrar no banco. Os assaltantes aceitaram e Ubiratan acabou ajudando nas negociações com a polícia. “O Paulo me disse: ‘alguém tinha que fazer um filme sobre isso’. Em 2003 comecei a trabalhar com cinema e em 2012 nasceu o projeto”, diz o diretor.

A partir dali, foram anos de pesquisa, que resultaram em 30 horas de material bruto e 50 entrevistas com pessoas que viram e participaram do episódio sob diversos ângulos: reféns, policiais, jornalistas e, possivelmente, o personagem principal da história: Moreno, um dos sete assaltantes, apontado como o líder do bando. “Não queríamos apresentar uma versão simples do que aconteceu, nem glorificar os bandidos. O que fizemos foi uma crônica que retrata um pouco do que é o Brasil, multifacetado e cheio de contradições”, explica Rodrigo.

O roubo

Eram aproximadamente 11 horas do dia 10 de dezembro de 1987 quando sete homens armados e com os rostos encobertos entraram no prédio de três andares que abrigava a maior agência bancária de Londrina. Eles renderam os vigias e logo anunciaram o assalto, pedindo a quantia de 30 milhões de cruzados, o equivalente a 10 milhões de dólares (em valores atuais, cerca de R$ 38 milhões). “O Alvaro Dias, que era governador à época, determinou que fossem pagos os 30 milhões, mas na agência só tinha 20. O gerente então saiu à rua e percorreu várias agências coletando o dinheiro que faltava”, relata o diretor.

Foram sete horas até que os assaltantes conseguissem o dinheiro e a polícia atendesse outra reivindicação do grupo, um ônibus com os vidros encobertos para poderem fugir rumo ao estado de São Paulo. Do lado de fora, cerca de 5 mil pessoas se aglomeraram para acompanhar o que acontecia. Era o governo do presidente José Sarney e, após dois planos econômicos, a crise continuava a castigar os brasileiros. Com boatos de que o assalto seria uma ação contra o governo, a população se voltou a favor dos ladrões. “As pessoas começam a torcer pelos bandidos devido ao ódio contra o sistema bancário”, relembra Rodrigo. Na saída, uma multidão eufórica aplaudia os criminosos.

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Não foi apenas entre a população que os assaltantes ganharam simpatia. “Em todos os relatos, os reféns contaram que foram muito bem tratados. Após algumas horas, depois que a tensão inicial passou, virou uma espécie de confraternização”, conta o cineasta. Há relatos de ladrões que deram dinheiro a alguns reféns e até uma funcionária do banco que teria tido um romance com Moreno, líder do bando. O plano de fuga, porém, não foi longe. Dias depois, seis dos sete assaltantes foram capturados e 25 milhões recuperados. O sétimo integrante da quadrilha jamais foi encontrado.

Os depoimentos

Para produzir Isto (não) é um Assalto, foram gastos apenas R$ 45 mil, orçamento de um curta-metragem. Tão desafiador quanto fazer mais com menos foi colher os relatos para o documentário. A equipe do filme foi a programas populares de rádio e televisão, e criou uma página no Facebook para buscar pessoas que, de alguma maneira, participaram do episódio. O mais difícil, porém, foi encontrar Moreno. “Quando conseguimos encontrá-lo, ele não queria participar do filme. Foram seis meses de negociação até que ele aceitou dar um depoimento em áudio, sem imagens.”

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Moreno (cujo nome verdadeiro não foi divulgado) ficou preso até 2006, quando terminou de cumprir a pena pelo crime. Em uma entrevista concedida após ser preso, disse que, ao contrário do que se supunha, não havia um plano concreto para o assalto. Após sair da cadeia, Moreno entrou para uma igreja evangélica em Londrina e abandonou o crime. Na pré-estreia do filme, que aconteceu na cidade em 21 de novembro, ele surpreendeu ao comparecer à sessão. “Ele conversou com alguns reféns que também estavam lá, disse a todos que mudou de vida e pediu que não o julgassem, pois pagou pelo que fez. Muitos foram lhe dar os parabéns e até tiraram foto com ele.”

Além de Curitiba, Isto (não) é um Assalto entrou em cartaz também em Ponta Grossa. Os produtores negociam para lançar o documentário em outras capitais brasileiras e inscrevê-lo em festivais do Brasil e do exterior. Por enquanto, o saldo é considerado positivo. “Conseguimos mais de mil espectadores em Londrina, somente com divulgação boca a boca. Acredito que por ser um episódio que tem situações tragicômicas, mostra um pouco dessa relação do brasileiro com o espetáculo, um pouco da nossa passionalidade”, conclui o diretor, que está em seu segundo longa após a ficção Leste/Oeste, lançada no ano passado.