Cinema

Do sertão para o mundo: Bacurau faz nome do cinema brasileiro

Por: Anderson Gonçalves
Do sertão para o mundo: Bacurau faz nome do cinema brasileiro

Dez anos separam o início do projeto de Bacurau do seu lançamento nos cinemas, realizado na última quinta-feira (29). Desde 2009, quando os diretores pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles conceberam a ideia de um longa passado em uma cidade fictícia no sertão nordestino, muita coisa aconteceu. Para os próprios diretores, uma década que serviu para o amadurecimento necessário ao projeto e possibilitou o cenário em que o filme chega às telas: premiado internacionalmente, com pré-estreias concorridas pelo país e já consagrado como um dos principais lançamentos nacionais deste ano.

Em maio, Bacurau conquistou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, um dos mais importantes da cinematografia mundial, em um feito inédito para o cinema brasileiro. Seguiram-se mais premiações, em festivais de Munique (Alemanha) e Lima (Peru). Por pouco, o filme não foi indicado para buscar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro do ano que vem. Em uma disputa acirrada, foi preterido por A Vida Invisível, de Karïm Ainouz, também premiado em Cannes.

Além dos prêmios, a expectativa em torno de Bacurau vem de outros fatores. Um deles é Kleber Mendonça Filho, um dos principais nomes do cinema brasileiro dessa década, responsável por O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016). Outro é a carga política do filme, como ressalta o próprio Kleber em entrevista à Gazeta do Povo: “há uma combinação muito inusitada entre o filme e o sentimento presente no nosso país nesse momento, de conflitos e problemas que são recorrentes em nossa história, como corrupção, violência e injustiça.”

A história se passa em um futuro próximo (“daqui a alguns anos”, informam os créditos iniciais) na cidade que dá título ao filme, um pequeno vilarejo encravado em algum lugar do sertão nordestino. A narrativa começa com o enterro da matriarca local, que deflagra uma série de acontecimentos misteriosos, como o desaparecimento da cidade do mapa, a perda de sinal dos celulares e mais mortes. Revelar mais detalhes sobre a trama é estragar a experiência pela qual o espectador irá passar ao longo das 2 horas e 11 minutos de projeção.

Ação com sotaque brasileiro

Designer de produção dos longas anteriores de Kleber Mendonça, Juliano Dornelles conta que a ideia de Bacurau surgiu em 2009. “Nós temos uma parceria antiga, de lá para cá fizemos muita coisa juntos, mas a ideia de fazermos esse filme sempre esteve presente. Levou tempo porque tínhamos outros projetos, estávamos buscando financiamento e, no fim, isso foi bom porque possibilitou o amadurecimento necessário. Mas a essência do filme é a mesma desde o início”, garante Juliano.

De acordo com ele, a ideia sempre foi de fazer um filme de gênero, usando elementos de ação e aventura, mas falando muito de questões brasileiras. “De 2009 para cá muita coisa aconteceu e houve um avanço de ideias pouco civilizadas, a instituição de um discurso muito próximo de momentos difíceis da humanidade. Começamos olhando nossas experiências do passado e terminamos achando muitos pontos de convergência com o que estava acontecendo ao nosso redor. Acho que todas essas questões estão presentes em Bacurau”, diz Juliano.

“Esse filme nasce de uma paixão muito grande pelo cinema americano, que foi quem nos educou, em especial aquele feito nos anos 70, e pelo cinema italiano dos anos 60”, acrescenta Kleber sobre as influências para sua realização. É possível encontrar referências ao cinema cru e violento de Sam Peckimpah, ao western clássico de Sergio Leone e até mesmo a distopia futurista da franquia Mad Max. Porém, em uma atmosfera genuinamente brasileira, em meio ao cenário árido do sertão, o sotaque nordestino, as crenças populares e o populismo político. “Sempre tivemos a ideia de realizar um cinema popular, que dialogasse com o público”, resume Dornelles.

Diversidade e fortalecimento

Na avaliação dos diretores, é essa característica popular, aliada à temática com questões contemporâneas, que vem garantindo ao filme uma carreira bem-sucedida antes mesmo da estreia. Ao mesmo tempo que Bacurau tem conquistado a crítica em festivais internacionais, , também foi aplaudido em sessões de pré-estreias lotadas por todo o Brasil. “O filme se passa em uma comunidade aparentemente pobre e de pessoas simples, mas que, na verdade, são pessoas fantásticas. Esse talvez seja o grande efeito da história sobre o público, que tem reagido de maneira muito forte”, diz Kleber.

Uma das sessões realizadas antes do lançamento oficial aconteceu na pequena cidade de Barras, no Rio Grande do Norte, que sediou as filmagens. “É um povoado minúsculo, que tem uns 80 habitantes. Quando a gente chegou para fazer a exibição, havia mais de 2 mil pessoas, foi algo incrível”, relembra Juliano.

A reportagem conversou com os diretores na última segunda-feira (26), um dia antes do anúncio de A Vida Invisível como o representante brasileiro para disputar uma vaga no Oscar. Kleber não escondia a expectativa de que Bacurau fosse o escolhido, mas enfatizou que, mais importante que isso, é o momento do cinema brasileiro como um todo. “ Nunca existiu um momento tão forte, com tanta diversidade como estamos vendo hoje. Se olharmos os principais festivais internacionais deste ano, o Brasil esteve presente de maneira espetacular, sem precedentes. Querer questionar essa indústria e causar desemprego não faz o menor sentido.”

“Gringo curitibano”

O elenco de Bacurau é retrato da universalidade presente no filme. Um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira, Sonia Braga, atua ao lado de atores amadores, recrutados na região onde o longa foi filmado. Também fazem parte o veterano ator alemão Udo Kier e nomes brasileiros em ascensão, como Karine Telles e Silvero Pereira. E até Curitiba está representada, com o americano Brian Townes, que reside na cidade desde 2011, atuando no cinema e no teatro.

“Há uma combinação muito inusitada entre o filme e o sentimento presente no nosso país nesse momento, de conflitos e problemas que são recorrentes em nossa história, como corrupção, violência e injustiça.”

Kleber Mendonça Filho, diretor de Bacurau.