Cinema

Cine Passeio traz de volta os cinemas de rua a Curitiba

Por: Anderson Gonçalves e Sandro Moser
Cine Passeio traz de volta os cinemas de rua a Curitiba

Quem frequentou cinemas até meados da década de 1990 se recorda de uma cena comum: longas filas de espectadores na calçada, ansiosos para assistir aos filmes anunciados por meio de cartazes, letreiros ou grandes pinturas na fachada do prédio. Era a época dos cinemas de rua, que acabou substituída pelos complexos de salas nos shopping centers, em meio a lojas, praças de alimentação e o conforto do ar condicionado. A partir da semana que vem, um pouco desse clima saudosista poderá ser sentido novamente em Curitiba com a inauguração do Cine Passeio, na esquina das ruas Riachuelo e Carlos Cavalcanti, em pleno centro da cidade.

Marcada para as 19h30 da próxima quarta-feira (27), como parte das comemorações pelo aniversário de Curitiba, a inauguração conclui um projeto iniciado há dez anos pela prefeitura da capital. O prédio que abrigou um quartel do Exército foi totalmente reformado e transformado em um complexo com duas salas de cinema, batizadas de Ritz e Luz, dois dos últimos cinemas de rua da cidade. O espaço ainda contará com estrutura para eventos, formação de profissionais e exibições ao ar livre.

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O Cine Passeio preenche uma lacuna na memória afetiva de quem frequentou as dezenas de cinemas de rua que fizeram parte da história de Curitiba: Condor, Plaza, Astor, São João, entre tantos outros. Hoje, existem dois cinemas dessa modalidade ainda em atividade: o Lido, que desde 2006 exibe filmes pornográficos, e a Cinemateca, mantida pela Fundação Cultural com uma programação voltada a mostras especiais e filmes alternativos. Em um meio-termo, há ainda o Guarani, localizado no subsolo do Portão Cultural.

Salas do complexo contam com 90 lugares cada e terão programação permanente. Foto: Hugo Harada

Nesse cenário, é emblemática a forma como será feita a inauguração do novo complexo. A quadra será fechada, para que a própria fachada do prédio histórico seja a primeira tela de exibição. Um clipe de média-metragem contando a história do cinema será exibido na parede, com os espectadores posicionados na rua e na calçada. Em seguida, as portas serão abertas para que os convidados conheçam o espaço. Nessa primeira noite, as salas exibirão apenas curtas-metragens e trailers.

A abertura ao público de fato acontece no dia seguinte, quinta-feira (28), às 19 horas, com a exibição do filme Albatroz, de Daniel Augusto. A sessão especial contará com a presença do diretor e dos atores Alexandre Nero e Maria Flor. “Nós sempre fizemos questão que a primeira exibição fosse de um filme nacional, pois uma das propostas do Cine Passeio é a valorização do cinema nacional”, explica Marden Machado, um dos curadores da programação do complexo de cinemas, junto com o cineasta Marcos Jorge. Os ingressos custarão R$ 16 e R$ 8 (meia-entrada).

Foto: Hugo Harada / Divulgação.

Um ciclo que se fechou

As jornalistas Luciana Cristo e Nívea Miyakawa lançaram em 2010 o livro 24 Quadros – uma viagem pela Cinelândia curitibana, que conta a história dos cinemas de Curitiba e as memórias de proprietários, trabalhadores e frequentadores dessas salas. A obra aponta como episódio determinante para a extinção dos cinemas de rua a inauguração do Shopping Curitiba, em 1996, tendo como grande novidade a abertura de seis salas de cinema. “Após essa mudança, começaram a chegar os grandes complexos de multissalas de cinema nos shopping centers […]. Soma-se a isso o fato de que, a partir daquele momento, a competição entre as salas pelos principais títulos tornava-se cada vez mais desigual, já que a preferência de exibição dos bons filmes era dada aos associados dessas grandes redes”, relatam as autoras.

O último cinema comercial de Curitiba a fechar suas portas foi o Plaza, na Praça Osório, em 2006. Dois anos depois, foi a vez do Luz, que era mantido pela Fundação Cultural na Praça Santos Andrade. Para Luciana Cristo, o fechamento dos cinemas de rua foi o encerramento de um ciclo não somente em Curitiba. “Os cinemas fizeram parte de um momento importante da cidade. Hoje os hábitos das pessoas são diferentes, tem a Netflix, o deslocamento é mais fácil, a relação com o espaço urbano é outra”, avalia.

Um trecho do livro ilustra como era a relação das pessoas com o cinema. “O acontecimento social que era ir ao cinema no auge da Cinelândia curitibana funcionava como um ritual que ajudava a aumentar as expectativas em relação ao filme que seria exibido, pois preparava os frequentadores para entrar nesse ‘novo mundo’. Hoje isso não faz mais sentido. Costumes como esses contrastam com o ritmo alucinado dos frequentadores de cinema de hoje, que fazem do programa mais um entre tantos outros afazeres do dia, o que não os permite, justamente por isso, absorver a essência do filme como gostariam. Celulares inoportunos, barulho constante e pressa – seja na hora de adquirir o ingresso, na entrada do cinema, ao procurar uma poltrona ou na saída da sessão – foram incorporados à nova rotina.”

Mas para a jornalista, mesmo com todas as mudanças tecnológicas, sociais e culturais verificadas nos últimos anos, a essência do hábito de frequentar o cinema permanece. “O que existe em comum entre aquela época e hoje é que as pessoas continuam indo atrás de boas histórias. Para nós, que continuamos gostando de cinema, é interessante observar como esse hábito se mantém, mas de forma completamente diferente.”


Foto: Hugo Harada / Divulgação.

Tecnologia de ponta

Cada uma das salas de projeção do Cine Passeio conta com 90 poltronas, enquanto o espaço ao ar livre tem capacidade para 60 e vista para o vizinho Passeio Público. No projeto dos arquitetos Mauro Magnabosco e Dóris Teixeira, do Instituto de Pesquisa Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), o andar subsolo foi batizado de espaço Valêncio Xavier (em homenagem ao escritor, cineasta e criador da Cinemateca de Curitiba) e vai abrigar estúdios, salas de palestras, cursos de formação em cinema, eventos e o Worktiba Cine Passeio, coworking para produtores de cinema e espaço para exposições. Há ainda uma cafeteria de 105 metros quadrados que será administrado pela Whee Coffeeterie e vai trabalhar com produtos locais como vinhos, cervejas e cafés de produtores da região metropolitana.

Os projetores das duas salas são da marca Christie, modelo CP 2208 com som Dolby 5.1, considerados de alta tecnologia. Segundo o diretor de Ação Cultural da Fundação Cultural, Beto Lanza, as novas salas completam o espectro de cinemas municipais. “Já tínhamos o Cine Guarani que é uma grande sala digital no bairro do Portão. Temos a Cinemateca em que podemos projetar todo tipo de película. E agora temos estas duas salas com qualidade equivalente ou melhor que as melhores salas comerciais”, diz. “Os exibidores do chamado cinema alternativo se ressentiam de ter esta tecnologia somente em salas fora do circuito comercial. Agora temos.”

Batizadas de Luz e Ritz, salas homenageiam antigos cinemas da capital. Foto: Hugo Harada / Divulgação.

Agenda cheia 

Após a abertura, a agenda do Cine Passeio será intensa. No sábado (30), será realizado um evento no Espaço Valêncio Xavier, com homenagens ao fundador da Cinemateca e abertura de uma mostra de filmes de Glauber Rocha. À noite, acontece a primeira sessão ao ar livre, na área externa do terceiro pavimento. Um telão será montado para exibir Estômago, de Marcos Jorge. A sessão é parte do projeto Cinema dos 5 Sentidos, que uma vez por mês terá, além da exibição de um filme, algo que remeta à produção e aos sentidos. No caso de Estômago, serão servidas coxinhas, iguarias que têm papel importante na trama do filme. Está prevista ainda a primeira sessão da meia-noite, na sexta-feira (29), e matinê para as crianças no domingo (31), às 10h30. Os filmes dessas sessões ainda não foram anunciados.

“O que existe em comum entre aquela época e hoje é que as pessoas continuam indo atrás de boas histórias. Para nós, que continuamos gostando de cinema, é interessante observar como esse hábito se mantém, mas de forma completamente diferente.”
Luciana Cristo, jornalista e autora do livro 24 Quadros –uma viagem pela Cinelândia curitibana.

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