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Como é o antes, durante e depois de um espetáculo do Balé Teatro Guaíra

Por: Maria Coelho
Como é o antes, durante e depois de um espetáculo do Balé Teatro Guaíra

 

Por volta das 18h30, chego ao Guaíra e lá estão eles. A aula – momento em que os bailarinos repetem a coreografia de forma incansável – começou às 18h45 e acabou exatamente às 19h57. O espetáculo estava marcado para às 20h30. Tempo apertado. Mas nem isso foi capaz de tirar a leveza dos dançarinos, que em meio a pliés e tendus, não perdiam a concentração por um segundo sequer. Um trabalho duro, diário, que persiste mesmo minutos antes da apresentação.

Foto: Maria Coelho / Gazeta do Povo.

Os ensaios começaram um mês antes, com encontros todos os dias. O balé com 1h20 de duração era passado dia sim e dia não, para não extrapolar a carga muscular dos bailarinos. Soraya Felício, coordenadora dos ensaios, conta que seu trabalho é chato, já que é responsável por “caçar defeitos e anotar em um caderninho”. Apesar disso, não perde a emoção de vê-los no palco e se diz uma grande fã. Assiste lá da frente e se emociona: “quando começa a arrepiar é que vai dar certo”.

Fim da aula. É hora de correr para o camarim, deixar o corpo cansado adentrar os figurinos e fazer os últimos retoques na maquiagem. O trabalho está apenas começando. Claudia Sibille, uma das bailarinas que interpreta as principais Odette e Odile (cisne branco e negro), conta que fazer um papel desses é bem desafiador: “na estreia em São Paulo eu fiquei bem nervosa, fora de mim, então comecei a fazer meditação meses antes, tenho meu terço, sempre atrás do palco eu ajoelho e rezo”. Ela brinca: “entrega na mão de Deus e vai”. Para Claudia, a entrada principal é a pior parte: “é quando o público te vê pela primeira vez sozinha, mas depois passa, aí começa a fluir, é bem gostoso. Fico focada na técnica e ao mesmo tempo na emoção”. Aos 28 anos, Claudia tem 18 anos anos de carreira e está desde 2017 no BTG. “Sempre foi um sonho participar de uma companhia, ainda mais nesse papel. Só de falar eu fico emocionada”, finaliza.

Foto: Maria Coelho / Gazeta do Povo.

O andar apressado toma conta da coxia, que se torna um amontoado de dançarinos prontos para dar vida à arte. Rose, a costureira do teatro, faz os últimos ajustes ali mesmo, no corpo dos bailarinos. A luz já se apagou, só resta um feixe azul para que ninguém tropece. O relógio marca 20h32. Tocam os três sinos. Vai começar.

O espetáculo

Abre-se as cortinas. O primeiro ato começa sorrateiro, devagar. A rainha oferece um aniversário ao príncipe Siegfried e pede que ele escolha uma esposa entre as convidadas. Ao fim do baile, um grupo de cisnes passa em frente ao local e enfeitiça o príncipe.

Chega o segundo ato, no reino de Rothbart, que transforma a princesa Odette e suas companheiras em cisnes. A aparência humana das jovens só é recuperada a noite. Além disso, o feitiço só pode ser quebrado por um amor verdadeiro. Siegfried então resolve ser o amor que salvará a princesa.

Fim do segundo ato. Intervalo de 15 minutos. Corro para a coxia. Os bailarinos relaxam, é hora de recuperar o fôlego e partir para o próximo. Alguns até desabam no chão. O cansaço é grande.

O terceiro ato começa. Já é possível perceber uma grande emoção tomando conta dos bailarinos, que com seus próprios corpos, fazem o espetáculo crescer como maestros em suas orquestras. Nesta parte da apresentação, Sigfried acredita estar em frente a sua amada Odette, mas na verdade é Odile, filha de Rothbart. Ao dançar com o cisne negro, acaba enfeitiçado e a escolhe como futura esposa, quebrando o juramento feito a Odette.

O quarto ato, talvez o mais emocionante, mostra a tentativa dos cisnes brancos em consolar a princesa, magoada pelo príncipe. Siegfried retorna e explica a Odette como foi enganado por Rothbart. A princesa o perdoa, mas logo uma luta feroz se inicia e encerra-se com o desfecho trágico. O espetáculo se desenvolve numa crescente de sentimentos. As cortinas se fecham, o balé chega ao fim. Os bailarinos são ovacionados pelo público, que os aplaude de pé durante longos minutos.

A hora do alívio

Volto à coxia e encontro Vitor Rosa, responsável por dar vida ao mago Rothbart. Ele conta como é o sentimento de interpretar um personagem tomado por fúria: “você passa por vários níveis de loucura. É uma montanha russa de emoções e é muito gostoso deixar tudo isso passar no corpo. A gente tem o trabalho muscular da cena, e só seguindo a coreografia a risca, com a intensidade que ela pede, já consigo essas camadas de loucura e emoção”, diz.

O que se vê no espaço são muitos abraços e suspiros de alívio. Parte dos dançarinos já está despida, alguns trajam roupões e removem as maquiagens, outros correm para o banho quente após a chuva gelada que cai no palco durante o último ato. O cansaço é enorme mas um sentimento entre todos é unânime: a alegria de ter apresentado um espetáculo tão bonito ao grande público. Missão cumprida. 

Agora é a hora de limpar tudo, enxugar o palco, lavar as roupas e descansar. Amanhã, começa tudo de novo.

O espetáculo acontece hoje (7), às 20h30 e amanhã (8), às 19h, no Guairão. Os ingressos estão esgotados, mas assinantes do Clube Gazeta do Povo têm 50% de desconto na compra de ingressos para todos os espetáculos do Balé Teatro Guaíra.