Cinema

Antes de estrear Avatar 2 você precisa ver no cinema Alita: Anjo de Batalha

Por: Por Luiz Gustavo Vilela
Antes de estrear Avatar 2 você precisa ver no cinema Alita: Anjo de Batalha

Antes de lançar o segundo O Exterminador do Futuro (1991) James Cameron precisou fazer O Segredo do Abismo (1989). O motivo: testar a modelação digital que criaria as insanas sequências de ação com o Exterminador se tornando metal líquido em O Julgamento Final. A trama de exploração submarina era apenas uma desculpa para desenvolver a tecnologia que iria mudar o cinema para sempre. Alita: Anjo de Combate (2019), de Robert Rodriguez, parece ter a mesma função, servindo como forma de avançar as técnicas que estão sendo usadas para os próximos Avatar e ainda tirar um troco com as bilheterias.

Já tinha algum tempo que Cameron comprou os direitos para adaptar o mangá de Yukito Kishiro, mas com a demora na produção das continuações de Avatar (mais quatro filmes estão anunciados) ele talvez tenha chegado à conclusão que jamais conseguiria fazer Alita tão cedo. Assim entra em cena Robert Rodriguez, servindo, com o perdão da piada, de avatar para Cameron que estaria livre para se dedicar aos seus aliens azuis. A escolha não é de todo inusitada. Rodriguez, com bem menos orçamento, fez obras visualmente impactantes, como os dois Sin City (2005, 2014) ou os três Pequenos Espiões (2001, 2002 e 2003).

Como o projeto é originalmente de Cameron, Alita parece muito mais um filme seu do que de Rodriguez. As marcas de estilo do último, como cortes rápidos para atravessar cenas dramáticas, ou a presença de Danny Trejo (hoje, mais conhecido como Machete), desaparecem em função das estruturas que já vimos em filmes do diretor de Avatar. O universo grandioso e variado, a obsessão tecnológica, a humanidade em crise auto-infligida refletindo uma pseudo consciência sócio-ambiental. De O Exterminador do Futuro a Avatar, todo o cinema de Cameron perpassa essas obsessões temáticas e Alita não é diferente. Única concessão ao diretor texano talvez tenha sido a escalação da latina Rosa Salazar como Alita.

Todo o filme se resume, então, a satisfazer a obsessão pelo avanço tecnológico de Cameron. Isso faz com que Alita, assim como Avatar antes dele, seja um deleite para os olhos, mas com pouca ressonância quando chega ao fim. Qualquer ensaio de reflexão mais profunda, como a relação entre corpo, memória e identidade, ou conflito de classes, ou a mortalidade como característica humana por excelência, até aparece, mas é imediatamente atravessado por uma cena de ação vertiginosa ou melodrama superficial.

Fotorrealismo

A realidade é uma questão central para o cinema. É, afinal, uma forma de arte que se confunde com o mundo que retrata. Desde a primeira exibição dos irmãos Lumière, em que as pessoas se assustaram com a imagem de um trem vindo na direção delas, o cinema se colocou em conflito com o real, seja lá o que isso for. Mais de cem anos depois o paradigma, ao menos quando pensamos nas grandes produções, é outro. Como tornar o irreal real? Como fazer um corpo que na verdade não existe parecer factível? E, talvez mais importante, executando proezas físicas que são impossíveis, mas possuindo um ar de verossimilhança.

Alcançar o fotorrealismo, a imagem fidedigna, é algo que sempre esteve no horizonte de James Cameron, desde o hoje distante O Segredo do Abismo. Com Avatar ele conseguiu chegar a um novo patamar, criando através de computação gráfica um universo que parece real, com peso, densidade e textura, usando a tecnologia de captura de movimentos para transmitir micro-expressões do corpo e do rosto para os modelos digitais. É uma reconciliação inesperada entre o realismo típico do cinema e da fotografia (por ter relação direta com o que está sendo retratado) com a fabulação da pintura e da escultura. A expectativa, então, era que Alita impressionasse ainda mais do que Avatar, mas não é o que acontece.

Em Avatar, Cameron usou uma estratégia interessante: ele piorou um pouco a qualidade das poucas imagens captadas de modo convencional. Assim, todo o universo parece visualmente coeso. Meio emborrachado, mas coeso. Alita faz uma composição dupla, mesclando imagens "reais" da computação gráfica, como acontece nos novos Planeta dos Macacos (2011, 2014 e 2017), por exemplo. Na comparação, a composição entre os dois tipos deixa óbvio que a imagem gerada por captura de movimentos ainda é inferior em relação à outra.

Isso não quer dizer que Alita, a personagem, ou os outros andróides não sejam incríveis. Os movimentos são fluidos e naturais. O mesmo vale para as expressões faciais, que impressionam pela capacidade de traduzir as emoções e conflitos internos de Alita. Há, inclusive, avanço tecnológico real ao fazer os personagens humanos tocarem nos gerados por computação. Algo que, se fosse mal feito, poderia transformar um momento com pretensão de ser emocionante em vergonhoso com muita facilidade.

Muita batalha, pouco anjo

Apesar de ter imagens que deslumbram – e a sequência de Motorball, o popular e brutal esporte deste mundo, é, com o perdão do clichê, de tirar o fôlego –, o que sustenta qualquer filme é a narrativa. Sem a "historinha", seria como assistir alguém jogar videogames por duas horas (ainda que, convenhamos, as novas gerações de fato veem exatamente isso no Youtube). E chega a ser incrível como Alita: Anjo de Combate falha tão fundamentalmente na estrutura de seu roteiro, escrito por Rodriguez, Cameron e a experiente Laeta Kalogridis.

Em uma história minimamente bem estruturada, a trama é uma consequência das ações dos personagens. Em Alita, como é comum em muitos grandes filmes hollywoodianos, acontece o contrário. Os personagens mudam de inclinação para atender uma demanda de direção da narrativa. Se é preciso conflito dramático, Alita se rebela. Se é preciso melodrama, ela se enamora, e assim por diante.

O exemplo mais gritante é o de Christoph Waltz, que aqui interpreta o Dr. Ito, responsável por achar Alita no ferro-velho onde caça peças para remendar as pessoas da cidade que possuem próteses. Figura paterna, sua atitude em relação à protagonista muda radicalmente, do protecionismo ao incentivo ao medo a depender do que a trama necessita. E nem um ator do quilate de Waltz consegue desenvolver decentemente seu personagem – não custa lembrar que, em um de seus mais conhecidos trabalhos, ele fez até mesmo um nazista se tornar interessante.