Cinema

Comédia histórica A Morte de Stalin chega aos cinemas esta semana

Por: Ricardo Sabbag Zipperer
Comédia histórica A Morte de Stalin chega aos cinemas esta semana

Quando era presidente dos Estados Unidos, Barack Obama ficou conhecido por “pedir” às redes de televisão para assistir episódios de suas séries favoritas antes que fossem ao ar. Uma delas era House of Cards, um drama da Netflix que mostra a trajetória de um político inescrupuloso (Kevin Spacey, antes dos escândalos de abuso sexual) que escala as estruturas de poder até se tornar presidente dos EUA.

House of Cards fez muito sucesso devido à dramaticidade de suas tramas violentas e, não à toa, se tornou referência até para a política brasileira – durante o episódio do impeachment de Dilma Rousseff, o personagem de Spacey foi comparado à exaustão com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

Era outra série americana, no entanto, um pouco menos popular que o drama da Netflix, que os políticos tomavam como referência de verdade dos bastidores de Washington: a sitcom Veep, produzida pela HBO e estrelada por Julia Louis-Dreyfus (de Seinfeld). Em Veep, a graça está nas relações mundanas entre a vice-presidente dos Estados Unidos e os funcionários de seu gabinete e da Casa Branca. Como toda vice, a veep precisa encontrar temas para protagonizar, representar o presidente em eventos de menor importância e se ver com parlamentares com objetivos nem sempre republicanos. É satírica e, ao mesmo tempo (ou até por isso), bastante realista.

O criador de Veep é o cineasta Armando Iannucci, escocês filho de pais italianos, conhecido por outras comédias de bastidores políticos, como a série The Thick of It, da BBC, e o filme Conversa Truncada, de 2009. Iannucci dirigiu Veep até 2015, quando deixou o programa para se dedicar ao longa que estreia essa semana no Brasil: A Morte de Stalin – uma nova sátira política, dessa vez ambientada na Rússia, mais precisamente no gabinete de Josef Stalin durante um episódio bastante importante na história da União Soviética: a morte do ditador, em março de 1953.

Alta traição

Historicamente, a morte de Stalin antecedeu um período de conflitos internos entre os ministros do Partido Comunista para estabelecer quem sucederia o líder morto e ganharia o controle do partido e da máquina de comando do regime soviético. Foi um tempo de embate especialmente entre o ministro do Interior e comandante do NKVD, a polícia política do stalinismo, Lavrenty Béria (Simon Russell Beale), e o chefe do Politburo em Moscou, Nikita Krushchev (Steve Buscemi), um dos conselheiros mais próximos de Stalin (Adrian McLoughlin).

É nesse ambiente de alta traição, paranoia e carnificina do stalinismo – que resultou em 60 milhões de mortes –, que o filme de Iannucci, adaptação de uma história em quadrinhos dos franceses Fabien Nury e Thierry Robin, se instala. Surpreendido pela morte inesperada do Secretário-Geral (de causas até hoje desconhecidas), o círculo íntimo do ditador entra em um processo de autoflagelo até conseguir estabelecer a sucessão de Stalin sem trair os seus desígnios – ou o que se entendia que eram seus desígnios naquele momento da história. Spoiler: vai dar morte.

A face mais obscura do stalinismo é o pano de fundo necessário para Iannucci criar uma narrativa cômica que cava fundo no humor negro. A cena de abertura do filme dá a medida: a rádio Moscou toca um concerto de Mozart executado ao vivo por orquestra. O diretor da rádio recebe um telefonema do gabinete de Stalin. O camarada avisa que vai mandar buscarem na rádio uma gravação do concerto daquela noite. O problema é que o concerto não estava sendo gravado. O diretor, então, corre para o auditório e manda que ninguém saia – nem a plateia –, porque a orquestra precisará se apresentar novamente, agora para fazer uma gravação. “Não se preocupem. Ninguém será morto”, diz ele.

Arranjei um cachorro

Encontrar graça nos absurdos do regime comunista é o maior desafio e êxito de A Morte de Stalin, que consegue ressaltar o ridículo das maquinações políticas e a loucura provocada pela concentração de tamanho poder em um único homem. Em outra cena, os personagens de Krushchev e de Vyacheslav Molotov (Michael Palin, do Monty Python), o antecessor de Stalin, discutem a morte da mulher de Molotov, condenada por traição. Acreditando que estão grampeados, o próprio Molotov atesta a perfídia da esposa, chamando-a de traidora. Krushchev concorda. Nisso, Béria aparece trazendo consigo a mulher. Ela não estava morta. O chefe do NKVD manteve-a confinada em segredo durante todo esse tempo. Mas e a condenação por traição? Tudo um esquema, arranjado. Eles riem e se abraçam. “Tenho tanto para te contar”, diz Molotov à mulher: “Arranjei um cachorro”.

O personagem de Béria é o fio condutor de A Morte de Stalin. Um dos maiores carniceiros do regime, cometeu incontáveis crimes, incluindo o abuso sexual de crianças e adolescentes que escolhia a dedo e que devolvia à família fazendo a menina carregar cinicamente um buquê de flores. Em 2003, promotores militares russos levaram a público 47 volumes que compunham o processo penal contra ele. Eram centenas de nomes de vítimas de uma lista escrita à mão.

Mas além de predador sexual, Béria também detinha o controle da inteligência soviética, o que permitiu que reunisse farta documentação que comprometia seus pares. Esse controle, aliado ao modo como manipulava Georgy Malenkov (Jeffrey Tambor), o vice-secretário-geral de Stalin, colocou-o na berlinda da história, fazendo com que os demais membros do gabinete acabassem se unindo contra ele.

Entre os melhores

Não há clima pesado, no entanto, que não possa ser vencido pelo humor de A Morte de Stalin. O filme está entre os quatro melhores do ano segundo o site Metacritic, que agrega a média das críticas recebidas internacionalmente pelos filmes. Boa parte desse mérito se deve ao elenco reunido pelo diretor, encabeçado por Beale, veterano do teatro britânico, e por Buscemi (de Boardwalk Empire), que interpreta Krushchev, o homem que veio a suceder Stalin de fato.

Ao escancarar os absurdos do núcleo duro do stalinismo com grande ironia, o filme revela o quão ridículos podem ser os maiores complôs políticos históricos. E que não se resumem à Rússia comunista. Poderíamos “transferir” A Morte de Stalin para outro episódio político atual, fosse no Brasil, fosse nos Estados Unidos. Aliás, são comuns as interpretações que encontram em A Morte de Stalin uma crítica à América de Donald Trump. A obra, entretanto, foi filmada em 2016, antes da posse do presidente americano. A crítica, portanto, não é apenas à farsa do comunismo soviético, mas à farsa política universal.

A Morte de Stalin foi banido na Rússia, o que é mais uma mostra que, embora distante dos anos de chumbo do stalinismo, o país ainda não conseguiu criar uma boa relação com a liberdade de expressão. O filme em si demonstra as razões que levam a isso: a perversidade do regime totalitário sufocou, por anos a fio, o surgimento de vozes dissonantes. E não é o desaparecimento de sua maior liderança que muda o estado das coisas da noite para o dia. Aliás, esse é o maior mal que persegue os confrades do comandante. “Stalin destruiu o status quo e construiu um novo”, diz Béria a Malenkov. O que devem fazer seus sucessores? Preservar o pensamento de Stalin? Ou reformar a União é o que seria justamente seu desejo para o futuro?

Não faz diferença. Como no Ministério da Verdade orwelliano, o Partido Comunista soviético muda a história conforme a conveniência. Líderes políticos que “desapareciam” eram simplesmente apagados dos retratos oficiais. A própria ideia de farsa do filme é emprestada da história: exaltado como líder supremo quando da sua morte, Stalin acabou renegado pelo regime para futuramente ser exaltado de novo. Poder rir do ridículo é um remédio para tratar dos absurdos do passado e do presente.