Filmes

Filme recorde de bilheteria conta a história do preso mais antigo da Argentina

Por: Sandro Moser
Filme recorde de bilheteria conta a história do preso mais antigo da Argentina

Depois de sucessos como o filme O Clã e Relatos Selvagens, a bola da vez é O Anjo, dirigido por Luiz Ortega e principal fenômeno de público e crítica na Argentina nos últimos anos.

O filme produzido por Pedro Almodóvar estreia nesta quinta (18) nos cinemas brasileiros com o lastro de ter arrecadado cerca de 6 milhões de dólares nas salas argentinas e ter feito carreira nos festivais pelo mundo.

A trama é baseada numa lenda verdadeira: a vida de Carlos Robledo Puch, um jovem portenho de classe média. Inteligente, falava três idiomas, gostava de ler, tocava piano e era um dos destaques populares das escolas que frequentou.

Entre março de 1971 e fevereiro de 1972, Puch matou pelo menos 11 pessoas (algumas pelas costas ou enquanto dormiam), estuprou duas mulheres e cometeu ao menos 17 roubos a mão armada.

Quando foi finalmente preso, por conta dos cachos loiros que emolduravam seu rosto adolescente, foi apelidado pela imprensa de O Anjo de Morte e se tornou uma celebridade.

Depois de seu julgamento rumoroso se tornou uma lenda da criminologia latino-americana e segue preso em Buenos Aires há 46 anos, o encarcerado mais antigo da história da Argentina.

Quem interpreta Puch é o jovem estreante Lorenzo Ferro que é brilhante ao explorar a principal veia narrativa do filme que é a contradição entre a aparência física e a origem familiar do protagonista e a violência dos crimes por ele cometidos.

A interpretação de Ferro tem a frieza amoral que a trama pede e cria um tipo inesquecível de um psicopata manipulador e perseguido por seus próprios conflitos sexuais.

Na versão dirigida por Ortega, muitos dos atos criminosos eram uma forma de impressionar seu cúmplice, Ramon, por quem no fundo sentia desejo sexual.

Ramon é interpretado por Chino Darín (filho do ator Ricardo Darín) que parece ter herdado do pai o talento e o poder da onipresença nas melhores produções argentinas.

Esta liberdade narrativa tem a assinatura dos produtores – os irmãos Almodóvar – e servem para não discutir muito a fundo as motivações das ações de Puch. Algo que mereceu crítica por parte da imprensa argentina e teria, ao que consta, enfurecido o próprio Puch em sua cela.

Para o filme, porém, funciona perfeitamente. Violento e perturbador na narrativa, o filme é esteticamente uma festa. A ambientação numa Buenos Aires setentista é excepcional e a trilha sonora, com sucessos locais e versões de hits mundiais da época é personagem da trama.

O elenco é um caso à parte e traz Cecilia Roth, Mercedes Morán, Luis Gnecco e Peter Lanzani.

O Anjo foi selecionado para a Mostra Um Certain Régard, do Festival de Cannes, em 2018, esteve no Festival de San Sebastián e de Toronto.

No ano passado, integrou as programações do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ferro ganhou os prêmios de melhor ator no Festival de Havana e Fenix de 2018.