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Exposição celebra uma das maiores críticas da arte paranaense

Por: Anderson Gonçalves
Exposição celebra uma das maiores críticas da arte paranaense

“Ela nasceu em uma tradicional família de ervateiros de Ponta Grossa. Cursou Belas Artes, estudou na Itália e voltou ao Brasil para uma rotina serena de casamento, filhos e algumas vernissages. Mas sua vida de moça de fino-trato não resistiu aos abalos de 1968. Foi quando deu de brigar pela cultura, defender artistas e museus, tornando-se a mais prolífica crítica de arte da história local. Folhas tantas, à Greta Garbo, retirou-se para escrever um dicionário de quatro volumes, 2,4 mil páginas.”

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O texto do jornalista José Carlos Fernandes abre uma reportagem publicada no dia 11 de setembro de 2010 pela Gazeta do Povo. A personalidade retratada era Adalice Araújo, artista plástica, professora, pesquisadora, historiadora, poeta e a crítica de arte mais importante da história do Paraná. Dois anos depois, em 8 de outubro de 2012, um infarto vitimou Adalice, que morreu aos 81 anos de idade. Seu legado, no entanto, permaneceu como uma das principais referências do meio artístico paranaense.

História sem fim: o pensamento revolucionário de Adalice Araújo é o título da exposição em cartaz no hall da Secretaria de Estado da Cultura, onde permanece em cartaz até 1.º de junho. Organizada pelo Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR), a mostra conta com obras de sete artistas paranaenses, fotografias e material com críticas e informações sobre sua obra máxima, o Dicionário das Artes Plásticas do Paraná.

“Adalice é considerada uma das maiores críticas de arte não apenas do Paraná, mas do Brasil. Sua produção textual e pesquisa mudaram a história das artes no estado”, destaca a curadora da exposição e diretora do MAC, Ana Rocha. Como forma de homenagear Adalice, farão parte da mostra dez obras do acervo do museu criadas por artistas mulheres, sobre as quais a crítica escreveu. São elas: Eliane Prolik, Guita Soifer, Dulce Osinski, Juliane Fuganti, Leila Pugnaloni, Letícia Marquez e Ida Hannemann de Campos (falecida no dia 3 de março).

Referência na crítica

Adalice Araújo nasceu em 18 de setembro de 1931, em Ponta Grossa. O pai, Adalberto Araújo, era descendente de bandeirantes e índios e a mãe, Inece, tinha origens em Piza, na Itália. Cursou Pintura na Escola de Música e Belas Artes na década de 1950, seguindo depois de formada para uma viagem de estudos de quatro anos na Europa, onde conviveu com nomes como Farnese de Andrade, Emílio Goeldi e Annabela Geiger. Ao retornar a Curitiba, criou e presidiu o Círculo de Artes Plásticas do Paraná, com ateliê coletivo no subsolo da Biblioteca Pública do Paraná, onde começaram artistas como Helena Wong e Antonio Arney. Na sequência, estudou técnicas como gravura, xilogravura, desenho e crítica teatral.

Foi em 1969, no extinto jornal Diário do Paraná, que iniciou a atividade pela qual se tornaria consagrada. Passou a assinar a coluna Artes Visuais, na qual analisava a produção artística de todo o estado. “Foi graças a ela que conhecemos centenas de artistas paranaenses. Muitos deles tiveram sua obra validada a partir do trabalho dela”, afirma Ana Rocha. A partir de 1974, a coluna passou a ser publicada na Gazeta do Povo, onde foi encerrada em 1994.

“Nos primeiros tempos, Adalice ia a campo. Qualquer catálogo que lhe caísse às mãos dava origem a uma pasta, com o nome do artista. Visitava exposições e entrevistava o autor das obras. Vem desse acervo de formiguinha, vale lembrar, o único registro de voz do pintor italiano Guido Viaro, hoje à disposição do público no museu que leva o nome dele, no Centro de Curitiba. Na sequência, o material recolhido era trabalhado e publicado na coluna que a pesquisadora assinou”, relatou José Carlos Fernandes em texto publicado após sua morte, em 2012.

Uma das artistas presentes na mostra, Juliane Fuganti, conheceu Adalice na primeira exposição que realizou, aos 19 anos. “Ela sempre via o que você tinha de bom. Fazia uma crítica construtiva aos artistas”, relembra. Leila Pugnaloni, que também terá obras expostas, conta que, no início dos anos 1980, a expectativa maior dos artistas era ter um texto escrito pela crítica sobre seus trabalhos. “Ela era a pessoa que fazia as melhores análises.”

Para quem nunca teve a oportunidade de ler os textos escritos por Adalice, alguns deles estarão disponíveis na exposição. Para isso, será montada no hall da secretaria uma “praça de leitura”, com bancos para os visitantes poderem sentar e apreciar os trabalhos com mais tranquilidade. “A ideia é que as pessoas conheçam o trabalho da Adalice, que entre os artistas tem reconhecimento e admiração muito grande. É uma produção imensa, muito rica, sobre a arte paranaense”, diz a curadora da mostra, que também enfatiza o fato de uma mulher ter alcançado esse posto em uma época em que a predominância na área era masculina.

Dicionário das artes

O grande trabalho realizado por Adalice Araújo foi o Dicionário das Artes Plásticas do Paraná, um compilado de milhares de verbetes sobre a arte paranaense. O Volume 1 foi publicado em 2006, com mais de mil verbetes de A a C. O segundo volume, de D a K, foi publicado postumamente. “Seu objetivo era reunir o maior número possível de verbetes. Mesmo não conseguindo concluir, ela fez um levantamento extraordinário, que não existia em lugar nenhum. Principalmente pelo fato de sair de Curitiba e ampliar sua pesquisa para o interior do estado”, ressalta Ana Rocha, destacando que o dicionário também estará à disposição dos visitantes da exposição.

O evento deste sábado ainda marca a abertura de uma sala em homenagem a Adalice Araújo, administrada pelo MAC-PR e pela Coordenação do Sistema Estadual de Museus (COSEM). Segundo a diretora do museu, o espaço vai lembrar a gestão da crítica à frente do MAC, entre 1987 e 88. “Foi uma gestão curta, mas marcante, porque ela propunha a descentralização do museu, com uma atuação mais ampla em todo o Paraná. Por isso, essa sala será voltada para exposições de artistas paranaenses”, explica Ana. Os primeiros editais de ocupação deverão ser lançados no segundo semestre.