Cinema

Filme que concorre ao Oscar de Melhor Fotografia segue em cartaz nos cinemas da cidade

Por: André Luiz Costa
Filme que concorre ao Oscar de Melhor Fotografia segue em cartaz nos cinemas da cidade

Filmar narrativas em preto e branco é algo que não acontece com frequência. A estética já não faz mais parte do cotidiano e, atualmente, se configura mais como escolha do que como necessidade. Temos exemplos recentes de diretores que utilizaram esse método com ótimos resultados, é o caso de A Fita Branca (2009), do diretor austríaco Michael Haneke. Na trama é abordada a vida em uma pequena aldeia pouco antes da Primeira Guerra Mundial e os fatos que alteram a vida dos personagens. Aqui, o preto e branco surge para evocar a atmosfera da época, criando um certo distanciamento entre espectador e filme. Outro bom exemplo é o polonês Ida (2013), que faz um recorte na vida de uma jovem freira em busca das suas origens familiares. A opção do preto e branco, e dos enquadramentos minimalistas e cuidadosos, colabora com a construção da narrativa, propondo uma experiência fílmica e, assim como o caso de Haneke, evocando a época.

O Farol (2019), dirigido por Robert Eggers, filme em cartaz nos cinemas curitibanos e que está concorrendo ao Oscar 2020 de Melhor Fotografia, também opta pelo preto e branco, levando a estética para outro nível.

Desde a primeira cena, estranhamos o que assistimos. Gravado em 35mm, o filme é um quadrado recortado na tela. Lentamente, imerso em um nevoeiro granulado, o farol surge ao fundo, em uma ilha remota, para onde uma embarcação se dirige. Da embarcação descem dois faroleiros, interpretados por Willem Dafoe e Robert Pattinson. Demoramos para saber seus nomes e quem de fato são, e não surgirá mais nenhum ser humano durante as quase duas horas de duração do filme.

O personagem de Willem Dafoe, por ser mais velho e mais experiente tanto em questões marítimas quanto no serviço de cuidar do farol, logo se mostra como uma espécie de chefe do outro, mais novo e constantemente calado. Percebemos que o conflito entre ambos se dará por questões hierárquicas e, de certa forma, místicas, ambas em um crescendo constante durante todo o filme. 

O jogo entre claro e escuro, tanto na opção pelo preto e branco quanto no que o dia revela e a noite esconde, está sempre presente. A estética geral do filme remete a uma fotografia do século XIX, e, para os nossos olhos acostumados a cores e telas, se transforma em uma das maiores potências narrativas e confere verossimilhança primeiro às criaturas mitológicas que eventualmente surgem, como uma sereia, e depois à loucura a que o personagem de Robert Pattinson se entrega, loucura provocada por gin, frustração e raiva. A atmosfera é sempre densa. O diretor inclusive afirma que a atmosfera deve vir antes do restante, pautando a forma como a narrativa se desenrolará e a recepção, posterior, de quem assistir. De fato, desde o início assistimos a algo em que não conseguimos penetrar, mas conforme o filme se aproxima do seu clímax e já não temos mais certeza do que é realidade ou paranóia, percebemos que o farol, protegido pelo personagem de Dafoe e simbolicamente intocável, ou até mesmo sagrado, é o ápice dessa dicotomia, e o único elemento capaz de atravessar a camada em preto e branco.

Muitas teorias estão surgindo ao redor do que é contado no filme, algumas inclusive já confirmadas pelo diretor. Há uma interpretação junguiana que considera os personagens como dois extremos de uma só personalidade: um falante e o outro calado; um raivoso e o outro calmo; um supersticioso e o outro cético. Essa teoria é reiterada pelo fato de que os dois personagens se chamam Thomas e que tudo aquilo poderia estar sendo vivido apenas na cabeça do personagem de Robert Pattinson, algo que é inclusive sugerido no filme. Outra teoria interessante, e mais próxima da questão estrutural do que psicológica, é a comparação feita com o mito de Prometeu, em que, na mitologia grega, o titã rouba o fogo de Héstia e o dá aos mortais, sendo punido por Zeus, que o deixa amarrado a uma rocha para ter o fígado devorado por uma águia pela eternidade. A tentativa de roubar o fogo de um guardião, ou, no caso do filme, de tentar ter acesso à luz do farol, é  talvez o primeiro disparo do conflito entre os personagens e permeia toda a sua relação. Além disso, ecos do escritores norte-americanos H. P. Lovecraft e, mais pontualmente, Herman Melville contribuem para os subtextos possíveis. 

Fazer a analogia entre o preto e branco e o que o filme esconde, no fim das contas, é uma obviedade, mas O Farol possui muitas camadas, estéticas e temáticas, sobrepostas com minúcia e sensibilidade, pedindo dedicação ao espectador. Vai ser difícil que qualquer um dos outros indicados tire a estatueta de Jarin Blaschke, o diretor de fotografia, e seu trabalho impecável. 

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