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Evento leva cientistas para debaterem pesquisas em mesa de bar

Por: Rosana Felix
Evento leva cientistas para debaterem pesquisas em mesa de bar

A samambaia de casa se comunica com o manjericão plantado no vasinho de temperos. Os buracos negros do universo e as ondas gravitacionais causam impacto sobre nossas vidas. Dormir não é perda de tempo, pelo contrário. Esses temas, que até poderiam ser confundidos com curiosidades de almanaques, são na verdade algumas das pesquisas científicas de ponta realizados por profissionais de Curitiba e que serão apresentados ao público na próxima semana, entre os dias 14 e 16 de maio, dentro do evento mundial Pint of Science, que em 2018 chega à sexta edição e a 21 países.

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Este é o segundo ano que Curitiba recebe o festival que reúne palestras científicas e bares – pint é o termo em inglês para o copo padrão de cerveja. O Pint of Science foi criado na Inglaterra para que pesquisadores saíssem dos laboratórios e conversassem sobre seus temas de estudo com o público interessado, mas de forma coloquial. O sucesso foi imediato, e logo a iniciativa se espalhou para outros locais. No Brasil, chegou em 2015, somente em São Carlos (SP). No ano seguinte, sete cidades promoveram os encontros e, em 2017, 22.

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“Fizemos em três bares no ano passado. A procura foi tão grande, lotou, que para este ano aumentamos para cinco locais”, explica o coordenador local do evento, Lauro Luiz Samojeden, professor do Departamento de Física da UFPR. Não foi só o público que se interessou: os bares também quiseram repetir a dose, e outros se ofereceram para abrigar as palestras. Entre os pontos que pesaram na escolha foram a abertura durantes os três dias de festival (segunda, terça e quarta), a localização e a comercialização de bebidas e produtos da região, como cervejas artesanais. Não há cobrança de ingresso. O público paga apenas o que consumir no bar.

Os professores também não são remunerados, fazem isso voluntariamente. O incentivo é apresentar o tema de estudo para um público maior. “Muitas pessoas acham que só damos aula e pronto. Desconhecem o trabalho de pesquisa. A ideia do Pint of Science é levar a ciência para a população”, resume o professor. Definidos os locais, a coordenação partiu em busca de 15 palestrantes. “A proposta não é manter os mesmos do ano passado, mas sim prestigiar o maior número possível. Fomos atrás de alguns temas, como ondas gravitacionais, teve uma descoberta recente, então achamos que seria interessante. Também ocorreram erupções vulcânicas na América Central, e por isso solicitamos alguém para falar. No geral encaminhamos pedidos aos departamentos. Recebemos muitas indicações, mas ficamos em 15, e continuamos recebendo, mesmo com a programação já fechada”, conta Samojeden.

Em 2017, após as palestras do Pint of Science em Curitiba, foram feitas pesquisas com o público participante. A maioria era estudante, da faixa etária de 20 a 23 anos. Mas havia também funcionários públicos, comerciantes, engenheiros e professores da rede pública do ensino público e fundamental. Para Samojeden, há muito interesse em saber mais sobre as pesquisas. “Vivemos em época de propagação de muitas teorias, falsa ciência. Há muita gente que quer saber o que de fato é ciência, e poder ouvir isso do próprio pesquisador é muito melhor”, opina.

O bar Hop’n Roll vai participar do festival pela segunda vez. “Para nós, é super interessante ligar a nossa marca a esse tipo de evento científico, em que todos são bem profissionais e atuam sem fins lucrativos, só querendo levar mais conhecimento à população”, conta o proprietário, Michel Galvão. Ele conta que se impressionou com o interesse pelas palestras em 2017, que ocorreram no lado externo. Na parte interna, os aparelhos de tevê que normalmente transmitem esportes radicais, futebol ou basquete, replicaram a apresentação que os professores faziam no telão. “O pessoal que estava dentro começou a mudar de mesa e ir para fora, porque queria acompanhar de perto. Então tinha o público que veio assistir especialmente a palestra, mas quem estava aqui par tomar uma cervejinha também se interessou”, conta. No segundo dia, ele diz que talvez pelo conteúdo, relacionado a física quântica, o bar lotou e muita gente ficou de fora.

Agora em 2018, o Pint of Science em Curitiba trará temas das três grandes áreas do conhecimento: exatas, biológicas e humanas. Os títulos das palestras têm um tom engraçado e curioso, para atrair a curiosidade do público, e a expectativa é que todos façam as apresentações de forma mais descontraída, como a da química Elisa Orth, professora da UFPR. Na instituição, ela pesquisa sobre nanomateriais derivados de carbono. Na prática, eles podem ser usados para, por exemplo, tirar a toxicidade dos agrotóxicos, e depois o nanomaterial pode ser ainda reutilizado. Suas pesquisas nessa área lhe renderam o Prêmio L’Oreal-Unesco para Mulheres na Ciência em 2016. E a palestra que apresentará para os curitibanos trata justamente disso: “As cientistas estão chegando…”

O tema principal será desmistificar o perfil de cientista, ela conta. “Mostrar que muitas mulheres sabem fazer ciência de qualidade, mas que essa questão deve ser amplamente discutida e não apenas entre as mulheres. Todos devem se importar. Por exemplo, ainda que o número de cientistas mulheres tenha aumentado, temos poucas mulheres nos cargos superiores e posições de liderança”, diz Elisa. Para ela, participar de um evento como o Pint of Science é um privilégio, por poder incitar a curiosidade em leigos. Além disso, ela vê como oportunidade de desmistificar algumas ideias pré-concebidas, como a do cientista como um homem com cabelo branco dentro de um laboratório, com fisionomia séria, que parece nunca se divertir. Não há estereótipos, e muita gente pode se surpreender, conta. “Da próxima vez que souber de uma descoberta científica que marcou a humanidade, pense que por trás dessa descoberta, pode ter uma mulher vaidosa e boêmia que gosta de comprar sapatos coloridos e ir para o bar se divertir”, finaliza.