A primeira coisa que se vê ao dar os primeiros passos depois da porta de vidro d’O Locavorista são as telas de Jo Ani à direita e uma miríade de estantes à esquerda. Mais adiante, de todos os lados, vem um insinuante aroma de algo na chapa -- pão, queijo, frango. Ouve-se bolovo fritando.

Ainda operando em regime de soft opening, o novo estabelecimento na região central de Curitiba abriu dia 12 de dezembro -- a inauguração oficial será em janeiro, ainda sem data definida. O imóvel da Rua Comendador Macedo reúne uma loja colaborativa com capacidade para 40 expositores, paredes e espaços livres para artistas locais, uma mercearia com produtos alimentícios produzidos no Paraná e um bistrô com um cardápio de sanduíches, a ser expandido a partir de janeiro.

A delicatessen tem produtos feitos pela cozinha d'O Locavorista, como catchup da casa, e também produtos alimentícios do Paraná. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Tanta coisa acontece no mesmo lugar porque a proposta d’O Locavorista é ser uma síntese da cultura e da criatividade existente no Paraná. O próprio nome do lugar -- que parece esquisito à primeira ouvida -- é um termo que descreve o comportamento da pessoa que tem como prioridade consumir o que é produzido localmente, a poucos quilômetros de onde mora, com produtos e técnicas que fazem parte da cultura local.

“Queremos que quem mora em Curitiba se sinta um turista na cidade e que o turista absorva um pouco do que é a cidade e estado”, resume Luiz Mileck, um engenheiro que mudou de área e hoje atua no mercado de gastronomia. O Locavorista abre todos os dias: de segunda a sexta das 9h às 21h e sábados e domingos das 10h às 16h.

Mileck é um dos quatro sócios do espaço. Junto dele, assinam a empreitada o chef e designer Renato Bedore, o engenheiro e empresário do mercado imobiliário Paulo Celles e a monja e empresária, Soon Hee Han, sócia da marca de biocosméticos Extraordinários.

Os sócios, a partir da esquerda: Luiz Mileck, Soon Hee Han, Paulo Celles e Renato Bedore. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Atividades similares anteriores
O Locavorista funciona no mesmo imóvel em que funcionou por três anos o Coletivo Alimentar, um “laboratório vivo” em que diferentes grupos trabalhavam com inovação e experimentação em gastronomia. O local chegou a ter, simultaneamente, uma padaria orgânica, uma mercearia, um restaurante e uma cafeteria, além de ter recebido reuniões do Slow Food, cursos e oficinas gastronômicas, entre outros eventos relacionados. O espaço, idealizado por Luiz Mileck, fechou em maio de 2018 porque ficou sem financiamento.

O espaço em que funcionou o Coletivo Alimentar tem novo uso: um deles é o bistrô. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

A ideia da mercearia com produtores locais é uma ampliação da proposta do Mercado Gastronômico, um minimercado gourmet que funcionou por um ano na praça de alimentação do shopping Pátio Batel. A organização foi feita pela Vivah Gastronomia, empresa dos sócios Mileck e Bedore.

Com o fechamento de ambas as operações e a nova sociedade, a proposta d’O Locavorista é uma nova formatação de uma mesma ideia, que tem permeia os eventos de gastronomia, design, moda e artesanato em Curitiba.

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Mini galeria de arte
As paredes do hall de entrada d’O Locavorista funcionam como uma minigaleria e recebem as obras de artistas locais -- a iluminação do imóvel foi alterada, para que possa ter focos direcionados às obras. Quem estreia o espaço são as pinturas de acrílica sobre tela da artista Jo Ani, gaúcha que mora em Curitiba e faz parte de um grupo do Museu Alfredo Andersen.

As paredes à direita da entrada são destinadas aos artistas locais. A exposição é por quinzena. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Apesar de pequeno, o espaço para exposição é propício para artistas iniciantes e exposição de pequenas séries, estudos e processo criativo de artistas variados. “O espaço pode não ser grande, mas o artista muitas vezes precisa de espaço para expor uma parte de seu trabalho e não ter que produzir muito mais para fechar uma exposição individual”, avalia Jo Ani.

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Os artistas expõem por uma quinzena (R$ 200), e a casa organiza um evento de abertura. Para janeiro, há uma lista de interessados. Quem quiser mais informações pode entrar em contato com o estabelecimento por telefone ((41) 3121-1720) ou no local.

Bistrô e delicatessen
Ainda sendo construído, o cardápio d’O Locavorista em dezembro consiste em quatro opções de pão na chapa (entre R$ 13 e R$ 26) com queijos, posta recheada ou geleias, e sanduíches que valem por uma refeição. O cardápio foi criado por Renato Bedore e Jorge Mariano.

Bolovo envolto em pesto de azedinha, carne moída com linguiça Blumenau e empanado com farinha de Morretes. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Por enquanto, o único prato que não leva pão é o bolovo (R$ 30): ovo cozido com gema mole, com pesto de azedinha envolto em carne moída com linguiça Blumenau e empanado com farinha de mandioca de Morretes. É servido com salada de brotos e folhas.

Os sanduíches são releituras da cultura alimentar paranaense. A combinação de frango com polenta servido no bairro de Santa Felicidade há décadas virou o De Santa (R$ 32): coxa de frango marinada e chapeada, servida na broa de milho da centenária Mercearia Viana, com pasta de alho, catchup da casa e muçarela. Acompanha salada de radite temperada com vinagre de vinho tinto e polenta frita.

Sanduíche De Santa, feito com frango chapeado, catchup da casa e pasta de alho. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

O costume de comer costela assada de madrugada virou o 24 Horas (R$ 32): costela assada lentamente, molho tártaro, conserva da casa, cebola roxa e agrião. Acompanha mandioca frita e salada verde.

Há também uma opção com peixe da época curado em erva-mate -- Litorina (R$ 34) -- servido no pão de leite feito na casa, brotos, maionese de tofu e picles, e uma opção com paleta suína, O Locavorista (R$ 30), uma versão da casa para o pernil com verde. O corte é assado lentamente e o sanduíche é montado em baguete com molho de pimenta, cebola caramelizada no vermute da casa, molho de pimenta e rúcula.

Sanduíche de costela desfiada, montado com molho tártaro, cebola roxa e agrião. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Aos sábados, o prato do dia é o Filé da Redenção (R$ 55 individual, R$ 95 para duas pessoas e R$ 120 para três pessoas), uma refeição servida em travessas: contrafilé fatiado com feijão amendoim, salada de folhas amargas (mostarda, radite e almeirão, com variações sazonais), salada morna de batata, arroz com crouton de queijo colonial, nhoque frito de abóbora, vinagrete, picles da casa e farofa. Aos domingos, a refeição é brunch (R$ 41 por pessoa) e o cardápio de segunda a sexta não é servido.

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Em janeiro o cardápio será ampliado, inclusive um sanduíche vegetariano. A posta recheada, os molhos, conservas, o vermute, condimentos e demais ingredientes confeccionados pela cozinha também serão vendidos na delicatessen. Para beber, cervejas, vinhos, kombucha, chás paranaenses e café do Norte Pioneiro, extraídos em espresso e coado e também cappuccino. A capacidade do bistrô é para 25 pessoas sentadas.

Cervejas e vinhos paranaenses são as opções para beber ou levar para casa n'O Locavorista. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Loja Colmeia
A loja colaborativa leva o nome de Colmeia e tem uma estante com mais de 40 nichos. Para o soft opening, o espaço contava com cinco marcas -- há cerca de 20 marcas curitibanas arroladas, mas a correria de dezembro fez com que muitas adiassem a exposição de seus produtos n’O Locavorista.

Loja Colmeia tem espaço para 40 expositores e ainda tem vagas. Aluguel parte de R$ 150. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

A curadoria das marcas é feita pelos quatro sócios e por Adriana Fangmann, sócia de Soon Hee na Extraordinários, e segue um mix similar ao encontrado nas feiras e bazares de design que rolam em Curitiba. O aluguel dos nichos variam de R$ 150 a R$ 450 por mês, com contrato de três meses e com 20% de taxa sobre as vendas.

Com a experiência e contatos que Soon Hee e Adriana fizeram nos eventos expondo seus biocosméticos, começaram os convites para compor a loja. Em alguma medida, o mix lembra o que se encontra em uma loja de museu ou lojas de souvenir, mas sem as referências mais óbvias.