As histórias em quadrinhos, base funcional e criativa dos longas de super-heróis teve sua era de ouro, prata e de descrença. Com o cinema baseado nos personagens apresentados nas HQ’s não foi diferente. Se no passado, filmes como Batman e Robin (1997),  Mulher Gato (2004), Demolidor (2003) e Quarteto Fantástico (2005)  foram motivos para que os fãs e a crítica especializada torcerem o nariz para o gênero. A trilogia original dos X-men, do Homem-Aranha e do Batman de Christopher Nolan definitivamente moldaram um formato, que hoje é chamado de gênero de super-herói.

Em 2008, a Marvel fazia uma grande aposta ao contratar o problemático Robert Downey Jr. para viver um personagem do segundo escalão de seus heróis. As inspirações no Cavaleiro das Trevas eram bem claras. O filme deu certo, e com isso, a Marvel tratou de trazer para os cinemas mais três heróis em filmes solos: Hulk, Thor e Capitão América, além de apresentar a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro como coadjuvantes nas histórias dos personagens-título. A ideia era fazer não uma trilogia, mas um Universo compartilhado que culminasse em Os Vingadores (2012). Não só deu certo, como foi a garantia de mais duas fases que totalizaram 21 filmes narrando histórias individuais, mas que interagem com a grande jornada.

Foram 11 anos de produções que, se no começo se espelhou em longas de sucesso de outras editoras, no final da primeira fase pode-se dizer que criou a fórmula Marvel de se narrar uma história.

Vingadores: Ultimato, o quarto longa que reúne os heróis mais poderosos (não só) da Terra e o vigésimo segundo filme do mesmo Universo tem a missão de trazer a Fórmula Marvel mais uma vez para as telonas, mas agora em uma extensão maior e definitiva para o portfólio da Casa das Ideias.

Depois de vários longas em tanto tempo, é possível definir uma receitinha para o que vem após a logo do Marvel Studios: aventuras coloridas, jornada do herói singular, fan service e uma batalha épica ao final. E é exatamente assim que os vingadores se despedem, fazendo o que sabem fazer de melhor, o mais bom e velho arroz com feijão.

O diferencial é que o filme é um ponto final definitivo e imediato. Se antes era engraçado ver o Hulk “esmagar” Nova York e no final não ter a menor consequência, agora as atitudes e decisões têm mais do que sequelas, elas moldam a personalidade dos personagens.

Joe e Anthony Russo assumiram a responsabilidade de fazer o primeiro filme solo do Capitão América no presente, em 2014, no longa que para muito fãs é o melhor do estúdio. Depois travaram a primeira história de consequências da franquia: Capitão América: Guerra Civil (2016) e chegaram ao Guerra Infinita e Ultimato com a missão de não só contar uma história épica é grandiosa, mas também prestar uma homenagem ao fãs do UCM.

O resultado é certeiro. Se em Guerra Infinita é possível ver a jornada do Thanos atrás de suas ambições, em Ultimato é a vez dos Vingadores mostrarem o real significado do nome da equipe. Ultimato entrega. Entrega para o fã raiz das HQ’s (como nenhum outro filme do gênero fez na história); entrega para o alucinado que maratonou as mais de 75 horas de filmes do estúdio; entrega para aquele que só foi ver por causa do buzz que o filme vem causando e entrega também para o novato que quer mergulhar nesse Universo a partir daqui. Guerra Infinita é um filme de confronto. Ultimato é um filme de relações. E as relações são, de longe, o maior acerto do filme. Talvez o excesso de didatismo pareça meio maçante para os aficcionados por porrada e ação. Mas, a história é tão leve e tão pensada em causar diferentes emoções, que fica fácil entender (e aceitar) os caminhos escolhidos pelos diretores.

 

O filme é bom, mas para o fã é ainda melhor

Como os trailers já deixavam pistas, Ultimato é uma grande homenagem aos 11 anos do Marvel Studios. O fan service acontece todo tempo, de coisas muito óbvias a objetivos de decoração e claro, nas participações especiais. Os seis vingadores “originais” passam por grandes transformações e, mesmo com tanto personagem, todo mundo tem seu momento de brilhar. O roteiro brinca com a quantidade de filmes e personagens e tudo isso aparece em cena, nem que seja em um take de 30 segundos. Grande sacada da dupla Stephen McFeely e Christopher Markus que não só escreveram a narrativa como roteiristas de um blockbusters, mas também como fãs.

No final, dá a sensação de que o que todo fã sempre esperou, finalmente aconteceu. Do riso ao susto, do choro a incredulidade. Tudo está bem amarrado na história.

Afinal, Kevin Feige e a equipe do Marvel Studios já demonstrou que o que eles sabem mesmo fazer é amarrar histórias como ninguém.

Os filmes de heróis passaram por torções de nariz, por superações e chegaram ao ápice que dificilmente veremos acontecer novamente. O fenômeno é raro e talvez irreplicável. Sim, Vingadores: Ultimato consagra a era de ouro dos heróis no cinema. E certamente vai ser um marco para o que vem depois.

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Bônus: Assim como em Pantera Negra (2018), que tem um tom político, e Capitã Marvel (2019), que aborda singelamente a valorização da mulher. Ultimato toca em questões sociais que vão desde a quebra de padrões estéticos para super-heróis, até a necessidade de sempre ser alguém melhor do que você era ontem. Mas tudo isso da forma leve e polida como já é praxe.

O desgaste causado pela quantidade de filmes de super-herói lançados ano após ano ganhou novos frescores com a apropriação de subgêneros como em Capitão América: O Soldado Invernal, Guardiões da Galáxia (2014) e Pantera Negra. Ultimato não segue essa linha e foca em encerrar o arco principal, mas demonstrando que o plano do estúdio é individualizar as relações do espectador com cada um dos personagens apresentados em tela. Dizer que todo filme de super-herói é igual? Não mais.

Não tem cena pós-crédito. Sim, a marca registrada do estúdio ficou de fora para que o final seja definitivo. Não há continuidade. Não é hora de se pensar no futuro do estúdio.

E se você correu dos spoilers como um Marvete corre de O Incrível Hulk (2008) e Thor: O Mundo Sombrio (2013), você não tem nada a temer. Os trailers não revelam grandes detalhes da história e apresentam diversas cenas falsas e também, digamos, digitalmente alteradas.