A Primeira Guerra Mundial não é tão retratada em obras narrativas quanto a Segunda Guerra Mundial. Por diversas questões políticas e humanitárias, a Segunda Guerra ganhou perspectivas variadas em livros e filmes, constantemente ampliando nossa compreensão sobre conflito e genocídio. No entanto, alguns autores ainda buscam trazer para o público a atmosfera que pairava no início do século passado, recriando imageticamente um dos eventos mais significativos da humanidade, evento que ajudou a moldar nossa percepção de sociedade contemporânea. Esse é o caso de 1917, filme dirigido por Sam Mendes e lançado em 2019, que acaba de receber o Oscar de Melhor Fotografia pelo trabalho de Roger Deakins. 

O filme parte de uma premissa simples: dois soldados britânicos precisam entregar antes do amanhecer uma mensagem para outro batalhão, impedindo que ataquem o exército inimigo para não cair em uma emboscada que poderia gerar o massacre de mil e seiscentos soldados. Os dois protagonistas são interpretados por George MacKay e Dean-Charles Chapman, atores desconhecidos do grande público, e não por acaso são escolhidos para a missão. Um deles, o soldado de sobrenome Blake, é irmão de um dos mil e seiscentos homens, detalhe que gera tensão desde o início do filme e que pauta todas as decisões tomadas por ambos durante o caminho. O outro soldado é Schofield, amigo de Blake, que não possui ligação pessoal com a missão, mas que tem sua jornada determinada simbolicamente pelo destino. Foi escolhido apenas porque estava próximo de Blake no momento do chamado.

Gravado em plano sequência, ou seja, em uma tomada sem cortes, criando um sentimento impreciso de passagem do tempo, a duração da narrativa vai do dia 6 abril até a manhã seguinte. Há alguns erros nessa opção, e o principal deles talvez seja a questão temporal. Diferente de Birdman (2014), que também se utiliza de plano sequência e aposta, com acerto, em eventos mais caóticos do que lineares, 1917 não consegue condensar um dia inteiro em duas horas, precisando improvisar algumas soluções e, mesmo assim, deixando brechas na verossimilhança pretendida. Se não houvesse essa demarcação de tempo, a narrativa ganharia mais uma camada estética, mas é justamente isso que enfraquece a sua potência.

Apesar disso, o trabalho de Roger Deakins salva muitos momentos que poderiam ser perdidos. É o caso, por exemplo, da sequência em que Schofield está em Écoust. As imagens noturnas das ruínas da cidade em chamas estão entre as mais belas do filme, que prioriza em suas tomadas a solidão e o desolamento da guerra. Além disso, momentos de forte impacto sutil são quando vemos os rostos dos soldados, na maioria jovens de dezoito anos, e compreendemos, em retrospecto, que aquela geração envelhecerá mais rápido do que deveria, que a guerra irá gerar traumas irreparáveis e que esse tipo de conflito dificilmente se justifica em um plano individual. Deakins parece querer mostrar um mundo que mal entrou no século XX e que já está encarando sua própria destruição, tanto física quanto psicológica.

A impressão que 1917 nos deixa é mista, exageradamente sentimental, e pouco justifica as próprias opções narrativas que faz. Tem sido muito comparado a Dunkirk (2017), filme que acerta muito mais ao retratar um momento isolado da Segunda Guerra Mundial. Sam Mendes ainda nos deve o filme impecável que 1917 poderia ter sido.

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