Entre os dias 6 e 14 de junho Curitiba recebe a sétima edição do Olhar de Cinema, festival que vem se estabelecendo como o maior e de maior prestígio do Paraná. Ao longo desta semana, nas salas do Espaço Itaú de Cinema, no Shopping Crystal, e no Cineplex Batel, no Shopping Novo Batel, serão exibidos mais de 150 filmes de 46 países. Alguns deles em suas estreias nacionais, latinas ou mesmo mundiais, no caso dos brasileiros. Além disso, há um seminário de cinema, oficinas para produtores e realizadores e o Curitiba_Lab, com módulos de longa de ficção, documentário para cinema ou TV e de série.

Depois de seis edições, com mais de três mil trabalhos inscritos nas mostras competitivas, era de se esperar que as coisas tenham andado com mais tranquilidade. Não é o relato de Antônio Júnior, Diretor Geral e Artístico do Olhar de Cinema, que falou mais de uma vez sobre a dificuldade generalizada em captar recursos, obrigando os organizadores a serem criativos. "Com essas obstruções acabamos fazendo uma das edições mais interessantes e instigantes. Essas obstruções nos obrigaram a pensar, ir atrás de parceiros, de gente que está afim de fazer a coisa acontecer, ver a cultura circular em Curitiba. Então é até um pouco emocionante”, conta.

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Exemplo das formas como a falta de dinheiro se transformou em vantagem está na sessão de homenagens, que traz seis filmes do senegalês Djibril Diop Mambéty e nove do francês Jean Rouch. Segundo Antônio, graças ao Consulado da Suíça, no caso do primeiro diretor, e do Instituto Francês, para o segundo, foi possível exibir estas importantes obras. A parte mais curiosa é que foi mais barato trazer estes 15 filmes do que os do brasileiro Luís Sérgio Person, homenageado na quinta edição do Festival.

Diversidade

A homenagem a Mambéty, do Senegal, e a Rouch, francês que documentou o Níger ao longo dos anos em que lá viveu, revelam uma das vocações deste Sétimo Olhar de Cinema: a inclusividade. A homenageada é uma mulher, Jane Geiser, que trará seus curtas, curtas que a influenciaram e ainda ministrará uma masterclass. O filme de abertura, Djon África, de Filipa Reis e João Pedro Miller, é a viagem de um homem a Cabo Verde à procura por seu pai em uma jornada metafórica pela sua própria ancestralidade. O filme de encerramento é Meu Nome É Daniel, em que o diretor Daniel Gonçalves narra sua própria condição de portador de necessidades especiais enquanto tenta compreender seu próprio lugar no mundo.

Antônio ainda ressalta a paridade na direção dos curtas nas mostras competitivas, em que consta uma divisão de 50% para homens e mulheres. Nos longas, uma redução com 30% de mulheres na direção. Já nos clássicos, 20% dos filmes foram dirigidos por mulheres, refletindo o espírito do tempo em que a direção era um cargo majoritariamente masculino. Talvez justamente por isso seja tão simbólica a exibição do Programa de Curtas de Alice Guy-Blaché, cineasta que praticamente inventou o cargo de direção, ainda nas primeiras décadas do século XX. Seus filmes foram restaurados recentemente e exibidos em uma mostra especial de Cannes.

É possível que a representatividade na composição seja um reflexo da equipe de curadoria, composta por várias mulheres. Antônio, todavia, prefere pensar que o Olhar de Cinema está com os dedos tomando o pulso da sociedade. "É um reflexo de que o festival está em contato com a contemporaneidade. O cinema não está apartado da sociedade, então somos um festival cinéfilo? Somos um festival cinéfilo! Mas é um festival de 2018, então é natural que estas minorias, que não têm nada de minoria, encampem lutas que dão resultados".

O Festival

O Olhar de Cinema nasceu de um apagão cultural. "Curitiba ficou sem os principais festivais de cinema contemporâneo. O Putz, que era o festival de cinema universitário, o Festival de Cinema do Paraná e o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba, todos acabaram entre 2008 e 2009. Então 2010, era terra arrasada total", revela Antônio, sócio do cineasta Aly Muritiba (A Gente, Para Minha Amada Morta) na Grafo Audiovisual. "E a gente, circulando por vários festivais no mundo todo, vendo que era possível fazer um evento legal, com filmes legais, que não chegavam aqui, e que a indústria cinematográfica paranaense, curitibana estava se estruturando, com cursos surgindo, não fazia sentido não ter um festiva".

Já em 2011, eles foram contemplados com a Lei Rouanet, indo atrás de patrocínio e lançando editais de convocação para festival. Em julho daquele ano acontecia o primeiro Olhar de Cinema, em uma janela muito boa para Curitiba e para o calendário de festivais nacionais. "Se fosse no verão, a cidade seria esvaziada. Ao mesmo tempo é uma época sem festivais internacionais grandes, três semanas depois de Cannes. E no Brasil também. Tem Tiradentes, É Tudo Verdade, aí o Olhar de Cinema. Gramado, Brasília, Panorama, Coisa de Cinema, Rio, São Paulo, é tudo depois", diz Antônio.

Ao mesmo tempo, a ideia não era competir com estes outros festivais. A vocação do Olhar do Cinema, desde o início, era outra. Para Antônio, o papel do festival está em exibir "filmes de autor, extremamente potentes, com autores jovens, que estão começando, sem projeção nos festivais, e que ficam inéditos no Brasil. Filmes que vão passar nas mostras paralelas, ou em festivais mais periféricos, como Locarno ou Roterdã". O que não quer dizer que sejam filmes herméticos ou que alienam o público. Prova disso é que muitas obras premiadas por eles acabam em estreias comerciais nacionais, ainda que em circuito limitado.

O diretor do Olhar de Cinema conta que foi um começo no mínimo arriscado, "porque vimos que os outros festivais de Curitiba acabaram por não ter público. E eram festivais muito menores do que o que a gente se propôs a fazer. Mas deu muito certo e o público sempre aparece. E não fazia sentido que uma cidade do porte de Curitiba não tivesse um festival, considerando que cidades como Porto Alegre e BH, mais ou menos do mesmo porte, tinham vários".

Mostras oferecem opções diversas

Como são mais de 150 filmes espalhados por sete dias de festival, é impossível assistir tudo. O ideal é se programar para ver o máximo possível, já que muitos são oportunidades únicas de serem vistos na tela grande, como é o caso dos já citados trabalhos de Mambéty e Rouch. O ideal é começar pelas nove diferentes mostras que compõem o Olhar de Cinema, todas já devidamente detalhadas no site.

A que mais chama atenção é a Mostra Competitiva, com dez longas e dez curtas, todos em estreia nacional. Quem está interessado em um cinema de vanguarda, porém, pode selecionar os filmes da Outros Olhares, escolhidos pela sua capacidade de promover o exercício da alteridade. Quem busca o assalto aos sentidos talvez prefira a Novos Olhares, com propostas mais radicais, entre o lírico e o alegórico, ainda que sempre em diálogo com o público.

Para estes todos, a escolha depende um pouco da sorte, já que são diretores em começo de carreira ou que não possuem expressão internacional. Nas outras mostras, porém, fica mais fácil, já que os diretores são um pouco mais conhecidos. Como nas Exibições Especiais, espaço para filmes não-inéditos selecionados pelo tema ou pelo prestígio dos realizadores, como o canadense Guy Maddin ou Jean-Marie Straub, sempre em necessidade de serem redescobertos por novos públicos. E também a Mirada Paranaense, dedicada a filmes e realizadores dos Pinheirais, como Fábio Allon e Fernando Severo.

Além do Olhar Retrospectivo, dedicado a Mambéty e Rouch, o festival ainda apresenta o Olhares Clássicos, com filmes de todos os tipos da história do cinema. Dos zumbis de George Romero (e os do mexicano Joselito Rodríguez), aos brasileiros Ozualdo Candeias e Rogério Sganzerla, passando por Jerry Lewis e Howard Hawks. A já citada diretora Alice Guy-Blaché não está sozinha nesta mostra com seus curtas, contando também com uma homenagem a Chantal Akerman, que faleceu em 2015. O mesmo com Milos Forman, falecido em abril, com O Baile dos Bombeiros, produção de sua Tchecoslováquia natal.