Os meses de janeiro e fevereiro compreendem a época do ano preferida de muita gente. Aqueles que tiram férias e aproveitam na beira da praia; pais que, sem as aulas, podem fazer programas com os filhos; ou aqueles que esperam o ano todo para pular nos festejos de carnaval e seus “esquentas”. E tem a turma dos cinéfilos, que também aguarda ansiosamente esse período. É quando começam a pintar nas telas os filmes que, dentro de algumas semanas, vão disputar o maior prêmio do cinema, o Oscar.

Neste ano, a solenidade de premiação acontece no dia 24 de fevereiro. Por enquanto, ainda não sabemos sequer os indicados, que serão anunciados na próxima terça-feira (22). Mas quem acompanha o noticiário cinematográfico, as apostas dos críticos e, principalmente, as outras premiações que antecedem o Oscar, já tem uma ideia dos títulos que deverão estar na corrida pela estatueta. Uma parte já pôde ser vista nos cinemas (ou no streaming), mas a segunda leva começa a pintar por aqui a partir da próxima semana. É quando podemos declarar: está oficialmente aberta a temporada do Oscar.

Na próxima quinta-feira (24) estreiam no Brasil dois filmes premiados e que são presença certa entre os indicados nas principais categorias do Oscar, inclusive melhor filme. Green Book – O Guia, de Peter Farrelly, foi o mais premiado no Globo de Ouro, com três troféus: filme comédia ou musical, roteiro e ator coadjuvante para Mahershala Ali, que faturou o mesmo prêmio no Critic’s Choice Awards. Já A Favorita, de Yorgos Lanthimos, teve Olivia Colman consagrada nas duas premiações como melhor atriz em filme de comédia. Além disso, levou o Critic’s Choice de melhor elenco.

 

Crítica ao racismo e humor negro

Quando se observa o currículo de Peter Farrely em seus 25 anos de carreira, é difícil imaginar que pudesse estar entre os principais cotados para ganhar um Oscar. Sua carreira, ao lado do irmão Bobby, é feita de comédias escrachadas que abusam do politicamente incorreto, como Débi e Loide, Quem Vai Ficar com Mary? e Antes Só do que Mal Casado. Sua estreia solo na direção, Green Book também é uma comédia, mas em um tom bem mais ameno, com espaço também para comoção e reflexão.

Inspirado em uma história real, o filme narra a relação entre um conceituado pianista negro (Mahershala Ali) e seu motorista particular (Viggo Mortensen), um homem branco conservador, nos Estados Unidos da década de 1960. A produção rendeu comparações com Conduzindo Miss Daisy, vencedor do Oscar de melhor filme em 1990, que narrava uma relação inversa, de uma senhora branca com seu motorista negro. Green Book é um road movie divertido, mas vai além, refletindo sobre o racismo e as relações sociais.

A Favorita é o terceiro filme feito nos Estados Unidos pelo diretor grego Yorgos Lanthimos. A história se passa na Inglaterra do século 18, mais precisamente na corte da rainha Anna (Olivia Colman). Imatura e sem qualquer perfil de liderança, ela tem como conselheira, confidente e amante secreta a Duquesa de Malborough (Rachel Weiz), uma mulher ardilosa e manipuladora. A relação entre as duas se abala a partir da chegada de Abigail (Emma Stone), uma prima distante da duquesa que logo ganha a confiança da rainha e passa a travar com a primeira uma disputa de poder.

Assim como seu nome, o cinema de Yorgos Lanthimos está longe de ser convencional, como atestam seus filmes anteriores, os perturbadores O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado. Comparado com ambos, A Favorita tem uma narrativa mais tradicional e realista, o que não significa que não tenha suas peculiaridades. É uma comédia que se alterna entre o humor negro, a provocação, a sisudez e a caricatura. E, não à toa, o trio de protagonistas – no qual é difícil separar entre principais e coadjuvantes – vem sendo premiado. Com atuações arrebatadoras, Olivia Colman, Rachel Weiss e Emma Stone brilham do início ao fim.

 

Além dos blockbusters

Há quem torça o nariz para o Oscar e premiações similares, sob o argumento de que se trata muito mais de uma consagração pelo marketing do que propriamente por qualidade artística. É inegável, porém, o efeito que ele tem sobre o público. É quando muitos espectadores, acostumados a prestigiar apenas os blockbusters, se veem motivados a ver outras produções – qualificadas, independentes, ou que não ganhariam tanta repercussão se não fosse o prêmio. E, mesmo que a experiência não corresponda às expectativas, o assunto cinema acaba rendendo boas conversas no bar ou no churrasco do fim de semana.

Alguns dos oscarizáveis deste ano já passaram ou continuam em cartaz nos cinemas. Caso de Bohemian Rhapsody, biografia do músico Freddy Mercury, do Queen, que ganhou os Globos de Ouro de filme dramático e ator para Rami Malek. Ou Roma, lançado diretamente na Netflix, eleito melhor filme no Critic’s Choice, que também rendeu prêmios de filme estrangeiro e diretor para Alfonso Cuarón. Infiltrado na Klan, de Spike Lee, Pantera Negra, de Ryan Coogler, e Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper, são outros prováveis concorrentes que já puderam ser conferidos.

Calendário

Nas próximas semanas chegam aos cinemas alguns dos prováveis concorrentes ao Oscar deste ano. Confira as datas das estreias:

 

24 de janeiro

Green Book – O Guia

Dirigido por Peter Farrelly, conta a história real de um pianista negro (Mahershala Ali) e seu motorista (Viggo Mortensen), um branco conservador, em turnê pelo sul dos Estados Unidos na década de 1960. Ganhou três Globos de Ouro – filme comédia ou musical, roteiro e ator coadjuvante (Mahershala Ali) – e um Critic’s Choice – ator coadjuvante.

A Favorita

O filme do grego Yorgos Lanthimos se passa na corte inglesa do século 18, onde a atenção da rainha Anna (Olivia Colman) é o centro da disputa entre a Duquesa de Malborough (Rachel Weiz) e a recém-chegada Abigail (Emma Stone). Levou o Globo de Ouro de atriz de comédia (Olivia Colman) e os Critic’s Choice de melhor elenco e atriz de comédia.

 

31 de janeiro

Vice

A trajetória do republicano Dick Cheaney, que se tornou vice-presidente norte americano e um dos homens mais poderosos do planeta foi recriada pelo diretor Adam McKay (de A Grande Aposta). Irreconhecível, Christian Bale vive o político e, por seu papel, ganhou o Globo de Ouro e o Critic’s Choice de melhor ator de comédia. Sam Rockwell interpreta George W. Bush.

7 de fevereiro

Guerra Fria

O novo filme do polonês Pawel Pawlikowski (diretor de Ida, ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 2015) narra o romance entre um músico e uma cantora com temperamentos completamente diferentes na década de 1950. A produção está entre as nove pré-selecionadas para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro.

Poderia me Perdoar?

Uma improvável história real ganhou as telas sob direção de Marielle Heller. Na década de 90, a jornalista Lee Israel (Melissa McCarthy) ficou rica ao forjar cartas de personalidades famosas e vendê-las. Além da indicação praticamente certa de Melissa McCarthy como atriz, Richard E. Grant, que interpreta seu parceiro de crime, deve concorrer como ator coadjuvante.

Se a Rua Beale Falasse

Vencedor do Oscar de melhor filme em 2016 com Moonlight, Barry Jenkins está de volta com a adaptação de um romance de James Baldwyn, que narra a luta de uma mulher grávida para livrar o marido de uma acusação criminal injusta. Regina King, que já ganhou o Globo de Ouro e o Critic’s Choice de atriz coadjuvante, pinta como favorita também ao Oscar da categoria.