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Sensação térmica: o que podemos fazer para sentir menos frio

·5 min de leitura·redação
sensação térmica

Apesar de morar em Curitiba – a capital mais gelada do país – detesto frio. Fico tensa, irritada, casmurra. Além do mais, posso colocar todas as meias do mundo que meus pés continuam gelados. Inclusive, tão gelados que parecem úmidos. Já meu marido, nas mesmas condições climáticas adversas, encara o frio numa boa e, muitas vezes, de camiseta. Mesma temperatura, sensação térmica variável, pode isso?

Temperatura e sensação térmica: diferenças

De acordo com a revista Scientifc American, a temperatura é uma medição objetiva; já a sensação térmica pode ser descrita como a temperatura que nós sentimos e depende de fatores que modificam como os indivíduos percebem o calor ou frio, por exemplo.

Assim, mesmo com altas temperaturas, se houver boa ventilação, a sensação térmica pode ser agradável. Ao contrário, o frio pode parecer mais intenso de acordo com a umidade do ar, chuva, velocidade do vento e fatores individuais.

É possível aprender a sentir menos frio?

O professor de fisiologia humana da Universidade de Oregon, Christopher Minson, afirma que sim. Contudo, contemporiza sobre o motivo de estarmos mais friorentos:

 “Com certeza, as pessoas podem se adaptar progressivamente a temperaturas mais baixas”, diz ele. “Os humanos se tornaram muito termostáticos. Vamos de nossa casa perfeitamente aquecida ou com ar-condicionado para nossos carros perfeitamente aquecidos ou com ar-condicionado e, dali, para nosso trabalho perfeitamente aquecido ou com ar-condicionado. ” 

Isso, ele acredita, não é saudável. Em primeiro lugar, não estamos exercitando os mecanismos que naturalmente temos para nos manter aquecidos. A consequência é a alteração da percepção pessoal sobre temperatura, ou melhor, sensação térmica.

Por que mulheres sentem mais frios que os homens?

Essencialmente, diz Minson, os humanos são grandes sacos de água e carne. “O que nos mantém aquecidos, na verdade, é nossa taxa metabólica: quanta energia estamos produzindo”. Mas existem diferenças fisiológicas que significam que alguns têm que trabalhar mais do que outros para manter sua temperatura central.

Ar condicionado sexista

Os homens, em geral, têm mais massa muscular do que as mulheres”, diz Minson, “o que os ajuda a ficar um pouco mais aquecidos”. Isso ocorre porque ter mais músculos aumenta sua taxa metabólica basalsua capacidade de queimar energia dos alimentos. Essa característica também ajuda a explicar o fenômeno moderno do ar-condicionado “sexista” dos escritórios, em que a temperatura é perfeita para a maioria dos homens, mas fria para a maioria das mulheres.

Fofoqueiros corporais: os termorreceptores

Todos os nossos órgãos têm termoreceptores: músculos, tecidos, órgãos, pele. Esse sensores estão o tempo todo captando sinais e enviando “relatórios” para a central de temperatura interna, o hipotálamo. Quando a temperatura externa cai, isso é visto como uma ameaça. O corpo, para se defender, desencadeia a vasoconstrição na pele, o que significa tornar extremidades mais frias para que o calor de nosso sangue quente seja perdido para o mundo exterior.

Automaticamente o que fazemos? Nós nos encolhemos e trazemos nossos braços perto de nossos corpos e, muito frequentemente, colocamos as mãos debaixo das axilas ou entre as pernas, nas zonas quentes, por exemplo. Também nos protegemos com mais camadas de roupas.

Mas afinal, é possível sentir menos frio?

Ou melhor, existe alternativa para treinar nossos sulcos termostáticos e sofrer menos através de treinos de aclimatação natural?

Há dois anos, o Globo Repórter apresentou um especial sobre a Noruega em dois episódios. A jornalista Glória Maria visitou o país: o famoso hotel de gelo, os banhos noturnos que os habitantes tomam em pleno inverno e intercalam com duchas quentes, além de acompanhar crianças em um escola maternal e as primeiras lições de climatização para tornarem-se adultos mais resistentes ao frio.

Na reportagem, crianças com menos de dois anos eram levadas ao pátio aberto, em plena neve. A cada dia, num processo gradual, os pequenos deveriam ficar expostos a baixas temperaturas. Essa espécie de “academia de frio” ensina às crianças a aumentar sua resiliência em relação ao frio, tornando-os, inclusive, mais resistentes a doenças oportunistas, como gripes e resfriados.

Como funciona a aclimatação

O Professor Minson atribui o efeito de aclimatação a um ajuste em nossa percepção da ameaça do frio. “Os termorreceptores em sua pele, com o passar do tempo de exposição ao frio crescendo diariamente, dizem a seu cérebro – baseado nos registros anteriores – o que é uma ameaça, ou não, e se a situação já foi experimentada, informam que isso não é uma ameaça -e que você vai ficar bem.”

Uma suposição para essa situação seria que “a taxa de disparo desses termorreceptores diminuiu. Certamente, a percepção do que esses disparos neurais significam seria vista como uma ameaça menor à nossa temperatura corporal padrão. ”

Um segundo benefício é que a exposição aos estressores do frio treina o corpo para se manter aquecido de forma mais eficaz, “talvez aumentando a taxa metabólica ou tendo melhor vasoconstrição”, diz Minson. As paredes dos vasos sanguíneos são musculares e levar uma vida termostática não as exercita. “Se você não esticar os músculos para contrair e dilatar, é possível que eles não sejam tão saudáveis”.

Mexa-se

O professor Minson, conclui: “uma causa óbvia de meus calafrios é sentar para trabalhar por horas, movendo apenas os olhos e os dedos. Se eu fizesse 45 minutos de exercícios antes de me sentar, isso poderia me manter mais aquecido por cerca de duas horas, diz Minson. E, claro, ganhar mais massa muscular aumentaria minha taxa metabólica basal, o que também me manteria mais aquecido.

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