Como 74 anos, o que faz O Pequeno Príncipe um clássico tão atual?

O Pequeno Príncipe é uma obra de números grandiosos: a criação de Antoine de Saint-Exupéry pode ser lida em cerca de 300 idiomas, por exemplo (a ONU reconhece, em comparação, 198 países). Frases como “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas” circulam pela internet, e a história já virou disco, filme, série de televisão e peça de teatro. Ainda assim, continua popular: Curitiba ganha duas adaptações teatrais do texto até novembro.
“É uma peça muito humana, que fala de pessoas, do coração”, acredita Rafael Mendes, professor da Atos Escola de Artes e diretor da montagem encenada a partir de sexta (21) no Teatro Paulo Autran. O texto parece infantil a muitos ouvidos, mas Rafael enxerga uma conexão universal com a história.
“Os adultos também se sentem comovidos. Ela fala de valores que vamos perdendo [conforme crescemos]”, reflete Rafael. Atualizada pelo próprio Rafael, a montagem da Atos tem como protagonista Ricardo, filho de uma mãe workaholic que, abandonada pelo marido, vê os próprios sonhos destruídos, e quer que o filho escolha uma profissão “adulta” o mais rápido possível – tem medo que ele, com pendor para as artes, se decepcione com a frieza do mundo.
O diretor enxerga no roteiro uma metáfora sobre o pouco apoio que existe ao artista, não só no Brasil. “A reflexão é sobre o vazio que as pessoas sentem quando chegam a um momento da vida em que percebem que perderam a oportunidade de viver seus sonhos”, pondera.
No Marista Santa Maria, o príncipe ganha outra interpretação no fim de novembro. A professora de teatro do colégio, Maíra Godoy, que dirige a montagem, também vê a perda da inocência pela qual todo mundo passa ao chegar à vida adulta como força motriz do texto. “O Pequeno Príncipe traz essa questão, de lutar pelo que você acredita, de como os adultos esquecem da infância”, diz ela.
O elenco é formado por alunos do ensino fundamental do Santa Maria, que escolheram eles próprios o texto, e formataram a adaptação com a ajuda da professora e diretora. Em convergência com o significado da história contada, Maíra auxiliou os alunos a expressarem na montagem o que achavam importante dizer. “É importante que a escola abra este espaço para que o jovem fale”, acredita ela. O final foi criado pelos alunos.
Uma história quase real
Saint-Exupéry não criou a trama principal do nada: em 1935, ele sobrevoava o deserto do Saara com o piloto André Prévot quando o avião em que estavam caiu. Os dois sobreviveram, e antes de serem resgatados, passaram quatro dias vagando pelas dunas. Sem água, a desidratação severa os levou a ter alucinações. O narrador do livro, ilustrado pelo escritor, cai no mesmo Saara durante um voo e encontra o principezinho.
O príncipe, baseado no próprio Exupéry quando pequeno, veio de um asteroide em que vivia sozinho, e onde deixou uma rosa que amava. Ele viaja pelo universo e encontra, em outros asteroides, humanos adultos que personificam comportamentos como vaidade, vergonha ou materialismo. Na Terra, conhece uma serpente que diz que finalmente pode levá-lo para casa com uma mordida, além de uma raposa do deserto, que se deixa ser domesticada por ele.
A história do príncipe faz com que o narrador lembre da própria infância, quando seus desenhos, por mais simples que lhes parecessem, nunca eram compreendidos pelos adultos – eles tinham perdido a capacidade de imaginar ao sair da infância. Estudiosos da obra de Saint-Exupéry, francês que se refugiou na América do Norte durante a ocupação nazista na França, dizem que O Pequeno Príncipe é uma crítica à sociedade em meio à Segunda Guerra Mundial.
Essa espinha dorsal serviu a várias adaptações de 1943 (ano da publicação original) até agora, como o filme de 1974, primeiro filmado em inglês, ou a peça montada por Luana Piovani na década passada, um grande sucesso dos palcos brasileiros. Rafael Mendes conta que a ele, aos 31 anos, a história fala de maneira eloquente sobre o começo da vida adulta e valores que transcendem polarizações da sociedade.
Compara o príncipe a Carl Sagan, que diz que os humanos se preocupam com coisas desimportantes quando se percebe que, no universo, eles são uma pequena parte. “O príncipe traz essa reflexão muito próxima, de que nós somos muito humanos”, pondera Rafael. Ou, para usar mais uma frase do texto: de que o essencial é invisível aos olhos.
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