Blade Runner é, na verdade, o nome de um livro sem conexão com o filme

Trinta e cinco anos depois do lançamento de “Blade Runner – O Caçador de Androides”, chega às telas sua continuação, “Blade Runner 2049”. Mas qual a história por trás desse marco do cinema? A base de tudo é o livro de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Eletric Sheep?” (Os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), publicado em 1968 nos Estados Unidos e em 1983 no Brasil.
Depois de lançado, o livro logo despertou o interesse de Hollywood. Em 1969 Martin Scorsese tentou adaptar a história, sem sucesso. Somente em 1974 os direitos são comprados por Herb Jaffe e seu filho, Robert, escreve a primeira adaptação cinematográfica. O roteiro desagrada o autor, pois simplifica demais a trama. O projeto não decola. Três anos mais tarde, os Jaffe abrem mão da obra e ela é adquirida pelo produtor Michael Deeley, amigo do principal roteirista do filme, Hampton Fancher.
Em 1979, o título do roteiro é mudado para “Android” e depois para “Mechanismo”. Deeley tinha quatro nomes em mente para a direção: Ridley Scott, Adrian Lyne, Michael Apted e Bruce Beresford. Nenhum estava disponível no início daquele ano.
Nesse meio tempo, o roteiro chega às mãos de Ridley Scott, que havia concluído “Alien”. Ele fica empolgado com a história, mas está ocupado trabalhando na adaptação de “Duna”, de Frank Herbert. O filme terminaria sendo dirigido anos depois por David Lynch.
Scott resolve fazer mudanças no roteiro. Uma das coisas que não o agrada é o termo “detetive” para descrever o protagonista da história. Fancher lembra então de um livro de William S. Burroughs, intitulado “Blade Runner (a movie)”, uma novela de ficção científica em que o termo é usado para descrever um contrabandista de instrumentos cirúrgicos.
Os produtores compram o uso do título para o filme, mas pouco depois descobrem que existe outro livro, “The Bladerunner”, escrito por Alan E. Nourse, que usa o mesmo nome. Ridley Scott chega a cogitar chamar o filme de “Gotham City”, mas Bob Kane, criador do Batman, proíbe o uso do título. Os produtores, então, negociam com todas as pessoas envolvidas na posse do nome “Blade Runner” e este passa a ser o título definitivo do filme. Outra alteração diz respeito ao ano da história. No livro a ação se passa em 1992. Era uma data próxima demais dos anos 1980. Por segurança, decide-se transferir a história para novembro de 2019.
A origem do “replicante”
Alegando não suportar as pressões de Ridley Scott, Hampton Fancher abandona o projeto em novembro de 1980. David Webb Peoples é indicado para finalizar o roteiro, mas, ao receber o último tratamento feito por Fancher, ele diz que não há o que modificar na história. Mesmo assim, Ridley Scott insiste para que ele crie uma nova palavra para substituir o termo “androide”, já muito utilizado. Dias depois, lendo um trabalho de ciências de sua filha que tratava de duplicação celular, Peoples encontra o termo “replicating” e cria o nome “replicant” (replicante), que ficou tão popular que acabou se tornando um sinônimo da palavra androide.
O primeiro ator convidado para assumir o papel do detetive Deckard, o caçador de androides, é Dustin Hoffman, que se entusiasma com a ideia mas não segue no projeto. A três meses do início das filmagens, surge o nome de Harrison Ford, que estava concluindo as filmagens de “Os Caçadores da Arca Perdida”. Originalmente, Deckard deveria usar um chapéu, mas para o personagem não ficar parecido demais com Indiana Jones, Ridley Scott troca-o por um sobretudo e pede a Ford que corte o cabelo bem curto.
Depois de definido o ator principal tem início a contratação do elenco secundário. Scott quer atores desconhecidos. Um assistente mostra ao diretor cenas de “Soldado de Laranja”, estrelado por Rutger Hauer. Ele aprova a sugestão e o contrata para o papel de Roy Batty, líder dos replicantes. Para o papel de Rachael, que formaria o par romântico de Harrison Ford, Scott quer uma atriz que lembre Vivian Leigh e encontra essa semelhança em Sean Young. Já Daryl Hannah aparece para o teste vestida com as roupas da replicante Pris, convence o diretor e é contratada. Joanna Cassidy utiliza artifício parecido, leva sua cobra de estimação e prova que nenhuma outra atriz faria o papel de Zhora melhor que ela. Brion James é contratado como Leon porque a secretária de Scott ficou assustada com sua fisionomia quando o conheceu. Joe Turkel (Tyrell) é chamado por causa de seu trabalho em “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, e William Sanderson (J.F. Sebastian) impressiona Scott graças a seu jeito tímido e solitário.
Edward James Olmos é contratado por causa de sua origem mexicana para interpretar Gaff, o outro blade runner que tem o hábito de fazer origami. Gaff terminou crescendo bastante na história graças às boas sugestões dadas por Olmos. Na visão do ator, Gaff era uma mistura de diversos povos: japoneses, americanos e latinos, com um bigode francês. Além disso, foi dele a criação da “cityspeak”, a língua que mistura diversos idiomas e que não constava nem livro, nem no roteiro original.
Problemas e críticas negativas
As filmagens têm início em 9 de março de 1981 e são concluídas exatos quatro meses depois, em 9 de junho. Ridley Scott sempre foi um diretor extremamente perfeccionista e isso fez com que ele tivesse muitos atritos com a equipe técnica e o elenco, principalmente Harrison Ford. Mesmo após o término das filmagens, os problemas não acabam. Os executivos da Warner acham o filme complicado para o grande público e, contra a vontade de Scott, fazem duas mudanças drásticas: incluem a narração de Deckard e cortam sequências, modificando o final ambíguo e inserindo no lugar cenas da abertura de “O Iluminado” misturadas com imagens de Deckard e Rachael indo para o norte.
Logo que é lançado, “Blade Runner: O Caçador de Androides” recebe críticas negativas e é um fracasso nas bilheterias americanas. Porém, cria um culto de fiéis seguidores. Quando começa a ser exibido fora dos Estados Unidos, as críticas melhoram, a bilheteria idem e o culto aumenta ainda mais. No ano seguinte, quando lançado em vídeo, o séquito de fãs já está mais do que estabelecido e a partir daí a Warner não tem mais prejuízos.
De 1983 até 1990 cresce cada vez mais o apelo dos fãs para que o estúdio relance o filme nos cinemas. Então, algo inesperado acontece: um estudante de cinema descobre perdido no depósito da universidade a versão original do filme e começa a exibi-la no circuito acadêmico. Em 1991, a Warner é avisada das sessões privadas e recolhe o material. Vendo que o interesse do público está aguçado, o estúdio chama Ridley Scott de volta e lhe dá carta branca para refazer o filme como ele queria em 1982.
A versão do diretor (director’s cut) é lançada nos Estados Unidos em agosto de 1992 e chega ao Brasil sete meses depois. Não há mais a narração, o final é modificado e novas cenas são incluídas, como a que Deckard vislumbra, em pensamento, um unicórnio. A partir dessa versão, se aprofunda a especulação sobre o protagonista do filme ser, ele próprio, um replicante.
“Blade Runner” é um dos filmes mais influentes dos últimos 35 anos. Um clássico, no sentido de ter resistido ao teste do tempo e influenciado outras obras, além de ser um autêntico filme de autor, cheio de pequenos detalhes que só quem o viu repetidas vezes e com bastante atenção é capaz de perceber em sua totalidade e sentir o que ele realmente é: uma experiência única.
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